O que faço com as bolas de neve? Olhou para o seu pequeno e triste arsenal. Não há ninguém em quem atirá-las. Deixou que a que estava fazendo lhe caísse das mãos. Em vez disso, podia fazer um cavaleiro de neve, pensou. Ou até...
Juntou duas das bolas de neve, acrescentou uma terceira, comprimiu mais neve em volta delas e deu a tudo a forma de um cilindro. Quando ficou pronto, colocou-o em pé e usou a ponta do mindinho para fazer os buracos das janelas. As ameias em volta do topo precisaram de um pouco mais de cuidado, mas quando ficaram prontas, tinha uma torre. Agora preciso de muralhas, pensou Sansa, e, depois, de uma fortaleza. Pôs mãos à obra.
A neve caía e o castelo erguia-se. Duas muralhas que se erguiam até a altura do tornozelo, a interior mais alta do que a exterior. Torres e torreões, fortalezas e escadarias, uma cozinha redonda, um arsenal quadrado, os estábulos ao longo do interior da muralha ocidental. Quando começou era apenas um castelo, mas não muito depois Sansa soube que era Winterfell. Encontrou gravetos e galhos caídos por baixo da neve e quebrou suas extremidades para fazer as árvores do bosque sagrado. Para as lápides do cemitério usou pedaços de casca de árvore. Pouco tempo depois tinha as luvas e as botas cobertas por uma crosta branca, as mãos formigando e os pés ensopados e frios, mas não fazia mal. O castelo era tudo o que importava. Algumas coisas eram difíceis de recordar, mas a maior parte vinha com facilidade, como se tivesse estado lá apenas no dia anterior. A Torre da Biblioteca, com a íngreme escada de pedra enrolada à sua volta, pelo exterior. A guarita, dois enormes baluartes, o portão arqueado entre eles, ameias ao longo do topo...
E durante todo o tempo a neve não parou de cair, empilhando-se em montículos em volta de seus edifícios tão depressa quanto ela os erguia. Estava compactando o telhado do Grande Salão quando ouviu uma voz, e ergueu os olhos para se deparar com a aia chamando-a da janela e perguntando se estava bem, se desejava quebrar o jejum. Sansa balançou a cabeça e voltou à escultura de neve, acrescentando uma chaminé a uma das pontas do Grande Salão, no local onde a lareira estaria lá dentro.
A alvorada esgueirou-se para o jardim como uma ladra. O cinza do céu ficou ainda mais claro, e as árvores e os arbustos tomaram um tom de verde-escuro sob suas estolas de neve. Alguns criados saíram e observaram-na durante algum tempo, mas não prestou atenção neles, e eles rapidamente voltaram para dentro, para onde fazia mais calor. Sansa viu a Senhora Lysa olhá-la de sua varanda, enrolada num roupão de veludo azul debruado de pele de raposa, mas quando voltou a olhar a tia tinha desaparecido. Meistre Colemon esticou a cabeça da colônia de corvos e espreitou para baixo durante algum tempo, magricelo e tremendo, mas curioso.
As pontes não paravam de ruir. Havia uma ponte coberta entre o arsenal e a fortaleza principal, e outra que ligava o quarto andar da torre sineira ao segundo andar da colônia de corvos, mas por mais cuidadosa que fosse ao esculpi-las, elas não resistiam. Na terceira vez que uma delas ruiu, soltou uma praga em voz alta e sentou-se, numa frustração impotente.
– Comprima a neve em volta de uma vareta, Sansa.
Não sabia havia quanto tempo ele estava a observá-la, ou quando tinha voltado do Vale.
– Uma vareta? – perguntou.
– Isso vai lhe dar suficiente resistência para se manter, creio eu – disse Petyr. – Posso entrar em seu castelo, senhora?
Sansa estava desconfiada.
– Não o quebre. Seja...
– ... gentil? – ele sorriu. – Winterfell resistiu a inimigos mais ferozes do que eu. Isto é Winterfell, não é?
– Sim – admitiu Sansa.
Ele caminhou ao longo do exterior das muralhas.
– Costumava sonhar com ele, naqueles anos que se seguiram a Cat ter ido para o Norte com Eddard Stark. Em meus sonhos era sempre um lugar escuro e frio.
– Não. Sempre foi quente, mesmo quando nevava. Água das nascentes termais é canalizada através das paredes para aquecê-las, e dentro dos jardins de vidro era sempre como o mais quente dia de verão. – Levantou-se, erguendo-se acima do grande castelo branco. – Não consigo imaginar como fazer o telhado de vidro por cima dos jardins.
Mindinho afagou o queixo, onde tinha a barba antes de Lysa lhe pedir para raspá-la.
– O vidro estava preso em molduras, não estava? Sua resposta são gravetos. Tire a casca deles e cruze-os, e use casca de árvore para atá-los uns aos outros e formar molduras. Eu mostro. – Deslocou-se pelo jardim, recolhendo paus e gravetos e sacudindo a neve deles. Quando obteve o suficiente, passou por cima de ambas as muralhas com um longo passo e agachou-se no meio do pátio. Sansa aproximou-se para ver o que ele estava fazendo. As mãos de Petyr eram hábeis e seguras, e não muito depois tinha uma treliça de gravetos, muito parecida com aquela que servia de telhado aos jardins de vidro de Winterfell. – Vamos ter de imaginar o vidro, certamente – disse quando lhe entregou.
– Isto é perfeito – disse Sansa.
Ele tocou o rosto dela.
– E isto também.
Sansa não compreendeu.
– Isto o quê?
– O seu sorriso, senhora. Faço-lhe outro?
– Se quiser.
– Nada me agradaria mais.
Ela ergueu as paredes dos jardins de vidro enquanto Mindinho os cobria, e quando terminaram essa tarefa, ele ajudou-a a prolongar as muralhas e a construir o edifício dos guardas. Quando usou varetas para as pontes cobertas, elas resistiram, tal como ele havia dito que resistiriam. A Primeira Fortaleza era bastante simples, uma antiga torre redonda e atarracada, mas Sansa voltou a ficar sem saber o que fazer quando chegou a hora de pôr as gárgulas ao longo do topo. De novo, ele tinha a solução.
– Tem estado nevando em seu castelo, senhora – destacou. – Com que se parecem as gárgulas quando estão cobertas de neve?
Sansa fechou os olhos para vê-las em sua memória.
– São só protuberâncias brancas.
– Muito bem. Gárgulas são difíceis, mas protuberâncias brancas devem ser fáceis. – E eram.
A Torre Quebrada foi ainda mais simples. Fizeram juntos uma torre alta, ajoelhando-se lado a lado para rolá-la até ficar lisa, e quando a ergueram, Sansa enfiou os dedos no topo, agarrou um punhado de neve e atirou em cheio no rosto dele. Petyr soltou um ganido quando a neve se enfiou em seu colarinho.
– Isso não foi nada cavalheiresco, senhora.
– Tal como não o foi trazer-me para cá, quando jurou que me levaria para casa.
Perguntou a si mesma de onde teria vindo a coragem, para lhe falar com tanta franqueza. De Winterfell, pensou. Sou mais forte dentro das muralhas de Winterfell.
O rosto dele ficou sério.
– Sim, enganei-a sobre isso... e sobre outra coisa também.
Sansa sentiu o estômago se agitando.
– Que outra coisa?
– Disse-lhe que nada me agradaria mais do que ajudá-la com o seu castelo. Temo que também tenha sido uma mentira. Há outra coisa que me agradaria mais. – Aproximou-se. – Isto.
Sansa tentou se afastar, mas ele puxou-a para si e de repente a estava beijando. Debilmente, tentou contorcer-se, mas só conseguiu apertar-se mais contra ele. A boca dele estava sobre a sua, engolindo suas palavras. Mindinho tinha gosto de menta. Durante meio segundo, Sansa cedeu ao seu beijo... antes de virar o rosto para o lado e se arrancar de seu abraço.