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– Ele é seu, senhora – disse, tentando soar submissa e arrependida. – Tenho a sua licença para ir embora?

– Não, não tem. – O hálito da tia cheirava a vinho. – Se fosse outra pessoa, você seria banida. Mandaria você para baixo, para os Portões da Lua de Lorde Nestor, ou de volta para os Dedos. Gostaria de passar a vida naquela costa desolada, rodeada de mulheres porcas e cocozinhos de ovelha? Era isso que meu pai queria para Petyr. Todo mundo pensou que foi por causa daquele estúpido duelo com Brandon Stark, mas não é verdade. O pai disse que eu devia agradecer aos deuses por um senhor tão grande como Jon Arryn estar disposto a me aceitar manchada, mas eu sabia que era só por causa das espadas. Tinha de me casar com Jon, senão meu pai iria me expulsar como fez com o irmão, mas era a Petyr que eu estava destinada. Estou lhe contando isso tudo para que compreenda como nos amamos um ao outro, quanto tempo sofremos e sonhamos um com o outro. Fizemos juntos um bebê, um precioso bebezinho. – Lysa encostou as mãos na barriga, como se a criança ainda estivesse ali. – Quando o roubaram de mim, prometi a mim mesma que nunca deixaria que voltasse a acontecer. Jon queria mandar meu querido Robert para Pedra do Dragão, e aquele rei beberrão queria entregá-lo a Cersei Lannister, mas eu não permiti... assim como não vou permitir que me roube o meu Petyr Mindinho. Está me ouvindo, Alayne, ou Sansa, ou como quer que chame a si mesma? Está ouvindo o que estou lhe dizendo?

– Sim. Juro, nunca mais o beijarei ou... ou o seduzirei. – Sansa achou que era aquilo que a tia quisesse ouvir.

– Então agora já admite? Foi você, como eu pensava. É tão libertina quanto a sua mãe. – Lysa agarrou-a pelo pulso. – Venha comigo. Há uma coisa que quero lhe mostrar.

– Está me machucando. – Sansa contorceu-se. – Por favor, tia Lysa, eu não fiz nada. Juro.

A tia ignorou seus protestos.

Marillion! – gritou. – Preciso de você, Marillion! Preciso de você!

O cantor tinha ficado discretamente ao fundo da sala, mas acorreu de imediato ao grito da Senhora Arryn.

– Senhora?

– Toque-nos uma canção. Toque “A falsa e a bela”.

Os dedos de Marillion roçaram as cordas.

O senhor chegou a cavalo num dia de chuva, tralolé, tralolé, tralolélolá...

A Senhora Lysa puxou o braço de Sansa. Era andar ou ser arrastada, portanto decidiu andar, percorrendo meio salão e passando entre um par de pilares, até uma porta de represeiro instalada na parede de mármore. A porta encontrava-se firmemente fechada, com três pesadas trancas de bronze para mantê-la no lugar, mas Sansa ouvia o vento lá fora mordendo suas arestas. Quando viu o crescente de lua esculpido na madeira, plantou os pés no chão.

– A Porta da Lua. – Tentou se libertar, aos puxões. – Por que está me mostrando a Porta da Lua?

– Agora está guinchando como um rato, mas no jardim foi bastante ousada, não foi? Foi bastante ousada na neve.

A senhora fazia costura num dia de chuva – cantava Marillion –, tralolé, tralolé, tralolélolá...

– Abra a porta – ordenou Lysa. – Estou dizendo para abri-la. Vai abri-la, senão mando chamar os meus guardas. – Empurrou Sansa em frente. – Sua mãe pelo menos era corajosa. Levante as trancas.

Se eu fizer o que ela diz, vai me largar. Sansa agarrou uma das barras de bronze, soltou-a com um puxão e atirou-a ao chão. A segunda barra retiniu no mármore, seguida pela terceira. Mal tinha tocado no trinco quando a pesada porta de madeira voou para dentro e bateu com estrondo na parede. Um monte de neve estava empilhado na soleira, e todo ele foi soprado contra elas, trazido numa explosão de ar frio que deixou Sansa tremendo. Tentou dar um passo para trás, mas aí encontrava-se a tia. Lysa pegou-a pelo pulso e pôs a outra mão entre as suas omoplatas, empurrando-a à força para a porta aberta.

Atrás da porta havia céu branco, neve caindo e nada mais.

– Olhe para baixo – disse a Senhora Lysa. – Olhe para baixo.

Tentou se libertar, mas os dedos da tia enterravam-se em seu braço como garras. Lysa deu-lhe outro empurrão, e Sansa soltou um guincho. O pé esquerdo atravessou uma crosta de neve e soltou-a. Nada havia à sua frente além de ar vazio, e um castelo intermediário cento e oitenta metros abaixo, agarrando-se ao flanco da montanha.

– Não! – gritou Sansa. – Está me assustando! – Atrás dela, Marillion continuava a tocar a harpa e a cantar “tralolé, tralolé, tralolélolá”.

– Ainda quer licença para ir embora? Quer?

– Não. – Sansa fez pressão com os pés no chão e tentou contorcer-se para trás, mas a tia não se moveu. – Dessa maneira não. Por favor... – Ergueu uma mão, procurando com os dedos o batente da porta, mas não conseguiu encontrar um apoio, e os pés estavam escorregando no chão úmido de mármore. A Senhora Lysa empurrava-a inexoravelmente para a frente. A tia tinha mais de vinte quilos a mais do que ela.

A senhora trocava beijos num monte de feno – estava cantando Marillion. Sansa torceu-se para o lado, histérica de medo, e um pé escorregou por sobre a borda. Gritou. – Tralolé, tralolé, tralolélolá. – O vento levantou suas saias e mordeu suas pernas nuas com dentes frios. Sentia flocos de neve derretendo nas bochechas. Sansa esbracejou, encontrou a grossa trança ruiva de Lysa e agarrou-se bem nela.

– Meu cabelo! – guinchou a tia. – Largue meu cabelo! – Estava tremendo, soluçando. As duas vacilaram na borda do precipício. Muito longe, ouviu os guardas baterem na porta com as lanças, exigindo que os deixassem entrar. Marillion interrompeu a canção.

Lysa! O que significa isso? – o grito cortou através dos soluços e da respiração pesada. Passos ecoaram ao longo do Alto Salão. – Saia daí. Lysa, o que você está fazendo? – os guardas continuavam a bater à porta; Mindinho tinha entrado pelo fundo, pela entrada do senhor que se abria atrás do estrado.

Quando Lysa se virou, suas mãos fraquejaram o suficiente para que Sansa se libertasse. Caiu sobre os joelhos, e Petyr Baelish viu-a. Parou subitamente.

– Alayne. Qual é o problema aqui?

– É ela. – A Senhora Lysa agarrou uma madeixa dos cabelos de Sansa. – O problema é ela. Ela beijou-o.

– Diga-lhe – suplicou Sansa. – Diga-lhe que estávamos só construindo um castelo...

Cale-se! – gritou a tia. – Não lhe dei licença para falar. Seu castelo não interessa a ninguém.

– Ela é uma criança, Lysa. A filha de Cat. O que você acha que estávamos fazendo?

– Eu ia casá-la com Robert! Não tem gratidão. Não tem... não tem decência. Você não é dela para que o beije. Não é dela! Estava lhe dando uma lição, só isso.

– Estou vendo. – Mindinho afagou o queixo. – Acho que ela compreende agora. Não é verdade, Alayne?

– Sim – soluçou Sansa. – Compreendo.

– Não a quero aqui. – Os olhos da tia estavam brilhantes de lágrimas. – Por que foi que a trouxe para o Vale, Petyr? Este não é o seu lugar. Não pertence a este lugar.

– Sendo assim, mandamo-la embora. De volta a Porto Real, se quiser. – Deu um passo na direção delas. – Agora largue-a. Deixe-a afastar-se da porta.

NÃO! – Lysa deu outro puxão na cabeça de Sansa. Neve rodopiou em volta delas, fazendo com que as saias esvoaçassem ruidosamente. – Não pode desejá-la. Não pode. Ela é uma garotinha estúpida de cabeça oca. Não o ama como eu o tenho amado. Eu sempre o amei. Já demonstrei isso, não foi? – lágrimas escorreram por seu rosto inchado e vermelho. – Eu dei a você o presente de minha virgindade. Teria dado também um filho, mas eles assassinaram-no com chá de lua, com tanásia, menta e losna, uma colher de mel e uma gota de poejo. Não fui eu, eu nunca soube, só bebi o que o pai me deu...