Выбрать главу

– Estúpido – disse a si mesmo, voltando a enfiar a espada na bainha sem ter chegado a desembainhá-la por completo. – Os fora da lei não têm cauda. Maldito inferno, Merrett, controle-se. – Seu coração estava aos saltos no peito, como se fosse um rapazinho verde em sua primeira campanha. Como se esta fosse a mata do rei e eu me preparasse para enfrentar a antiga Irmandade, em vez do patético bando de salteadores do Senhor do Relâmpago. Por um momento sentiu-se tentado a dar meia-volta e trotar monte abaixo, em busca da cervejaria mais próxima. Aquele saco de ouro compraria um monte de cerveja, suficiente para que se esquecesse por completo de Petyr Espinha. Que o enforquem, foi ele que fez com que isso lhe acontecesse. Não é mais do que merece, depois de ir atrás de uma seguidora de acampamentos qualquer como se fosse um veado no cio.

Sua cabeça tinha começado a doer; por enquanto pouco, mas sabia que pioraria. Merrett esfregou a ponte do nariz. Na realidade não tinha nenhum direito de pensar tão mal de Petyr. Eu próprio fiz o mesmo quando era da idade dele. No seu caso, tudo que o ato tinha lhe custado foi uma gonorreia, mesmo assim não devia condenar o outro. As prostitutas tinham encantos, especialmente quando se tinha um rosto como o de Petyr. O pobre moço tinha uma esposa, com certeza, mas ela era metade do problema. Não só tinha o dobro de sua idade, como andava dormindo também com o irmão Walder, se o que se contava fosse verdade. Havia sempre muito falatório nas Gêmeas, e só uma pequena parte era verdade, mas naquele caso Merrett acreditava. Walder Negro era um homem que tomava aquilo que desejava, mesmo se fosse a mulher do irmão. Também possuíra a mulher de Edwyn, isso era de conhecimento geral. Sabia-se que a Bela Walda se enfiava em sua cama de tempos em tempos, e havia até quem dissesse que ele havia conhecido a sétima Senhora Frey bastante melhor do que deveria. Pouco admirava que se recusasse a se casar. Para que comprar uma vaca quando havia úberes por todo lado suplicando que os ordenhasse?

Praguejando em surdina, Merrett enfiou os calcanhares nos flancos do cavalo e retomou a subida. Por mais tentador que fosse detonar o ouro em bebida, sabia que se não voltasse com Petyr Espinha melhor seria não voltar nunca mais.

Lorde Walder faria noventa e dois anos em breve. Seus ouvidos tinham começado a fraquejar, os olhos já quase não funcionavam, e a gota estava tão ruim que tinha de ser carregado para todo lado. Todos os filhos concordavam que não era possível que durasse muito mais tempo. E quando ele se for, tudo mudará, e não para melhor. O pai era queixoso e teimoso, com uma vontade de ferro e uma língua viperina, mas acreditava em cuidar dos seus. De todos os seus, mesmo daqueles que lhe desagradaram e o desapontaram. Até daqueles de cujo nome não se lembra. Mas quando ele se fosse...

Quando Sor Stevron era o herdeiro, tudo era diferente. O velho passara sessenta anos treinando Stevron, e enfiou na cabeça dele que sangue era sangue. Mas Stevron tinha morrido em campanha com o Jovem Lobo no oeste – “da espera, sem dúvida”, gracejou Lothar Coxo quando o corvo lhes trouxe a notícia –, e seus filhos e netos eram uma espécie diferente de Frey. Agora o herdeiro era o filho de Stevron, Sor Ryman; um homem obtuso, teimoso e ganancioso. E depois de Ryman vinham os filhos, Edwyn e Walder Negro, que eram ainda piores.

– Felizmente – disse uma vez Lothar Coxo – odeiam-se ainda mais um ao outro do que nos odeiam.

Merrett não tinha certeza de que isso fosse auspicioso, e, já agora, o próprio Lothar podia ser mais perigoso do que qualquer dos outros dois. Lorde Walder tinha ordenado o massacre dos Stark no casamento de Roslin, mas foi Lothar Coxo quem o planejou com Roose Bolton, até o ponto de escolher que canções seriam tocadas. Lothar era um tipo muito divertido para uma bebedeira em conjunto, mas Merrett nunca seria tolo o suficiente para lhe virar as costas. Nas Gêmeas aprendia-se bem cedo que só se podia confiar nos irmãos de pai e mãe, e mesmo nesses não até muito longe.

Era provável que quando o velho morresse fosse cada filho por si, e cada filha também. O novo Senhor da Travessia manteria nas Gêmeas, sem dúvida, alguns de seus tios, sobrinhos e primos, aqueles de que gostasse ou em quem confiasse, ou, o que era mais provável, aqueles que achasse que lhe seriam úteis. O resto de nós será posto para fora, para nos virarmos sozinhos.

A perspectiva preocupava Merrett mais do que as palavras podiam exprimir. Faria quarenta anos dentro de menos de três, era velho demais para adotar a vida de cavaleiro andante... mesmo se fosse um cavaleiro, o que no caso não era. Não possuía terras nem riquezas que fossem suas. Possuía as roupas que trazia no corpo mas não muito mais, nem mesmo o cavalo que montava. Não era suficientemente inteligente para ser um meistre, não era suficientemente piedoso para septão ou selvagem o bastante para mercenário. Os deuses não me deram nenhum dom além do nascimento, e mesmo aí limitaram-me. De que servia ser filho de uma Casa rica e poderosa, quando se era o nono filho? Quando se levava em conta os netos e bisnetos, Merrett tinha mais chances de ser escolhido Alto Septão do que de herdar as Gêmeas.

Não tenho sorte nenhuma, pensou amargamente. Nunca tive nenhuma maldita sorte. Era um homem grande, largo de peito e ombros, apesar da altura mediana. Ao longo dos últimos dez anos tornara-se mole e carnudo, bem sabia, mas quando era mais novo, Merrett tinha sido quase tão robusto quanto Sor Hosteen, seu irmão de pai e mãe mais velho, que era habitualmente considerado o mais forte dos filhos de Lorde Walder Frey. Quando garoto, tinha sido enviado para Crakehall, a fim de servir a família da mãe como pajem. Quando o velho Lorde Sumner fez dele escudeiro, todos assumiram que se tornaria Sor Merrett em não mais do que alguns anos, mas os fora da lei da Irmandade da Mata de Rei tinham cagado nesses planos. Enquanto seu colega escudeiro Jaime Lannister se cobria de glória, Merrett começou por pegar uma gonorreia de uma seguidora de acampamentos e depois conseguiu ser capturado por uma mulher, aquela que chamavam de Cerva Branca. Lorde Sumner resgatou-o dos fora da lei, mas na batalha seguinte foi derrubado com um golpe de maça que lhe quebrou o elmo e o deixou sem sentidos durante uma quinzena. Disseram-lhe mais tarde que todos julgaram que morreria.

Merrett não tinha morrido, mas seus dias de luta tinham terminado. Até a mais leve pancada na cabeça lhe causava uma dor que o cegava e o reduzia às lágrimas. Sob tais circunstâncias, a cavalaria estava fora de questão, disse-lhe Lorde Sumner, não sem gentileza. Foi enviado de volta às Gêmeas para enfrentar o venenoso desdém de Lorde Walder.

Depois disso a sorte de Merrett só piorou. O pai tinha conseguido de algum modo arranjar-lhe um bom casamento; casou-se com uma das filhas de Lorde Darry, na época em que os Darry ainda se mantinham numa posição elevada nos favores do Rei Aerys. Mas pareceu que assim que deflorou a sua noiva, Aerys perdeu o trono. Ao contrário dos Frey, os Darry tinham sido proeminentes lealistas Targaryen, o que lhes custou metade das terras, a maior parte da fortuna e quase todo o poder. E quanto à senhora sua esposa, achara-o uma grande desilusão desde o primeiro momento e insistiu em levar anos pondo no mundo nada mais do que meninas: três vivas, uma natimorta e outra que morreu na infância, antes de finalmente gerar um filho. A filha mais velha revelou-se uma devassa; a segunda, uma glutona. Quando Ami foi pega nos estábulos com nada menos do que três palafreneiros, foi forçado a casá-la com um maldito cavaleiro andante. Essa situação não podia se tornar pior, tinha pensado... até Sor Pate decidir que poderia ganhar renome derrotando Sor Gregor Clegane. Ami voltou correndo, transformada em viúva, para consternação de Merrett e indubitável deleite de todos os cavalariços das Gêmeas.