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Merrett atreveu-se a esperar que a sua sorte estivesse finalmente mudando quando Roose Bolton escolheu casar-se com a sua Walda, em vez de alguma de suas primas mais magras e mais agradáveis à vista. A aliança Bolton era importante para a Casa Frey e a filha ajudara a garanti-la; tinha achado que aquilo certamente contaria para alguma coisa. O velho rapidamente o desenganou.

– Ele escolheu-a porque é gorda – disse Lorde Walder. – Pensa que o Bolton não esteve se cagando para o fato de ser cria sua? Acha que ele se sentou para pensar: “Heh, Merrett Cabeça de Carneiro, é esse mesmo o homem de que preciso para meu sogro? Sua Walda é uma porca vestida de seda, foi por isso que ele a escolheu, e eu não vou lhe agradecer por isso. Teríamos obtido a mesma aliança por metade do preço, se a sua porquinha largasse a colher de vez em quando.”

A humilhação final foi entregue com um sorriso, quando Lothar Coxo o chamou para discutir o seu papel no casamento de Roslin.

– Todos temos de desempenhar o nosso papel, de acordo com os nossos dons – tinha dito o meio-irmão. – Você terá uma tarefa e só uma, Merrett, mas creio que está habilitado para ela. Quero que se assegure de que o Grande-Jon Umber fique tão bêbado que quase não consiga manter-se em pé, quanto mais lutar.

E mesmo nisso falhei. Levou o enorme nortenho a beber vinho suficiente para matar três homens normais, mas depois de Roslin ter sido levada para a cama, o Grande-Jon ainda conseguiu tirar a espada do primeiro homem que o abordou, quebrando o braço dele ao fazê-lo. Tinham sido precisos oito homens para acorrentá-lo, e o esforço deixou dois homens feridos, um morto e o pobre e velho Sor Leslyn Haigh com uma orelha a menos. Quando deixou de conseguir lutar com as mãos, Umber lutou com os dentes.

Merrett fez um momento de pausa e fechou os olhos. Sua cabeça latejava como aquele maldito tambor que havia sido tocado no casamento, e durante um momento foi com dificuldade que conseguiu se manter na sela. Tenho de continuar, disse a si mesmo. Se pudesse trazer de volta o Petyr Espinha, isso certamente o poria nas boas graças de Sor Ryman. Petyr podia ser um ramo do lado sem sol, mas não era tão frio quanto Edwyn nem tão quente quanto o Walder Negro. O rapaz ficará grato por meu papel, e o seu pai verá que sou leal, um homem que vale a pena ter por perto.

Mas só se estivesse lá com o ouro até o pôr do sol. Merrett olhou o céu de relance. Bem a tempo. Precisava de algo para firmar suas mãos. Puxou o odre que pendia da sela, tirou a rolha dele e bebeu um longo trago. O vinho era espesso e doce, tão escuro que quase chegava a ser negro, mas, deuses, era bom.

A muralha exterior de Pedravelhas rodeara em outros tempos o cume do monte como uma coroa adorna a cabeça de um rei. Só restavam as fundações e algumas pilhas de pedras partidas e manchadas de líquenes que lhe davam na altura da cintura. Merrett avançou ao longo da linha da muralha até chegar ao local onde a guarita deveria existir. As ruínas eram mais abundantes ali, e ele teve de desmontar para atravessá-las com o palafrém. A oeste, o sol havia desaparecido atrás de um banco de nuvens baixas. Tojo e fetos cobriam as vertentes, e dentro das muralhas desaparecidas as ervas daninhas batiam em sua cintura. Merrett desprendeu a espada dentro da bainha e olhou em volta com cautela, mas não viu nenhum fora da lei. Será que vim no dia errado? Parou e esfregou as têmporas com os polegares, mas isso em nada contribuiu para aliviar a pressão por trás de seus olhos. Sete malditos infernos...

De algum lugar, bem dentro do castelo, uma música tênue chegou-lhe por entre as árvores.

Merrett viu-se tremendo, apesar do manto. Abriu o odre e bebeu outro gole de vinho. Podia simplesmente voltar, cavalgar para Vilavelha e detonar o ouro em bebida. Nunca se conseguia nada de bom tratando com um bando de fora da lei. Aquela vil cadela da Wenda tinha marcado sua nádega com uma cerva quando o teve cativo. Não admirava que a esposa o desprezasse. Tenho de levar isto até o fim. Petyr Espinha poderá ser um dia Senhor da Travessia, Edwyn não tem filhos eWalder Negro só tem bastardos. Petyr vai se lembrar de quem veio buscá-lo. Bebeu outro gole, devolveu a rolha ao odre e levou o palafrém através de pedras quebradas, tojo e árvores esguias chicoteadas pelo vento, seguindo os sons até o que tinha sido o pátio do castelo.

Folhas caídas jaziam em grande número no chão, como soldados após alguma grande matança. Um homem vestido de traje verde remendado e desbotado estava sentado de pernas cruzadas num desgastado sepulcro de pedra, dedilhando as cordas de uma harpa. A música era suave e triste. Merrett conhecia a canção. No alto dos salões dos reis que partiram, Jenny dançava com os seus fantasmas...

– Saia daí – disse Merrett. – Está sentado em cima de um rei.

– O velho Tristifer não vai se importar com o meu traseiro ossudo. Chamavam-lhe o Martelo da Justiça. Há muito tempo que não ouve canções novas. – O fora da lei saltou para o chão. Saudável e magro, tinha um rosto estreito e feições de raposa, mas a boca era tão larga que o sorriso parecia tocar suas orelhas. Algumas madeixas de cabelo castanho eram sopradas sobre a sua testa. Empurrou-as para trás com a mão livre e disse: – Lembra-se de mim, senhor?

– Não. – Merrett franziu a testa. – Por que haveria de me lembrar?

– Cantei no casamento de sua filha. E creio que bastante bem. Aquele Pate com quem ela se casou era meu primo. Somos todos primos em Seterrios. Isso não o impediu de se tornar sovina quando chegou a hora de me pagar. – Encolheu os ombros. – Por que é que o senhor seu pai nunca me chamou para tocar nas Gêmeas? Será que não faço barulho suficiente para sua senhoria? Segundo o que tenho ouvido, ele gosta da coisa barulhenta.

– Traz o ouro? – perguntou uma voz mais ríspida, atrás de si.

A garganta de Merrett estava seca. Malditos fora da lei, sempre escondidos nos arbustos. Tinha sido a mesma coisa na mata do rei; apanhava-se cinco deles, e outros dez saltavam de lugar nenhum.

Quando se virou, rodeavam-no por todos os lados; um infeliz bando de velhos com rosto enrugado e rapazes de face lisa, mais novos do que o Petyr Espinha, todos eles vestidos de farrapos de tecido grosseiro, couro fervido e partes de armaduras pertencentes a homens mortos. Havia uma mulher com eles, enrolada num manto com capuz que era três vezes maior do que devia ser para lhe servir. Merrett estava perturbado demais para contá-los, mas pareciam ser pelo menos uma dúzia, talvez uma vintena.

– Eu fiz uma pergunta. – Quem falou foi um homem grande e barbudo com dentes tortos e verdes e um nariz quebrado; mais alto do que Merrett, embora não tão pesado na barriga. Um meio-elmo cobria sua cabeça e um remendado manto amarelo, os ombros largos. – Onde está seu ouro?

– No alforje. Cem dragões de ouro. – Merrett pigarreou. – Vão recebê-los quando eu vir que Petyr...

Um fora da lei atarracado e zarolho avançou antes de ele conseguir terminar, estendeu a mão para o alforje com uma ousadia que só vendo e encontrou o saco. Merrett fez um movimento para agarrá-lo, mas depois pensou duas vezes. O fora da lei abriu o cordel, tirou uma moeda e mordeu-a.

– Tem o sabor certo. – Sopesou o saco. – E também tem o peso certo.

Eles vão roubar o ouro e ficar com Petyr, pensou Merrett num súbito pânico.

– Isso é o resgate completo. Tudo que pediram. – As palmas de suas mãos suavam. Limpou-as nos calções. – Qual de vocês é Beric Dondarrion? – Dondarrion era um senhor antes de se tornar fora da lei, podia ainda ser um homem de honra.

– Ora, sou eu – disse o zarolho.

– É um diabo de um mentiroso, Jack – disse o barbudo grande com o manto amarelo. – É a minha vez de ser Lorde Beric.