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Isso realmente parece estranho, Dany teve de admitir. Belwas, o Forte, era um ex-escravo, criado e treinado nas arenas de luta de Meereen. O Magíster Illyrio enviara-o para protegê-la, ou pelo menos era isso que Belwas dizia, e era verdade que ela precisava de proteção. O Usurpador, em seu Trono de Ferro, oferecera terras e uma senhoria a qualquer homem que a matasse. Uma tentativa já tinha acontecido, com uma taça de vinho envenenado. Quanto mais perto chegasse de Westeros, mais provável se tornava outro ataque. Em Qarth, o mago Pyat Pree enviara um Homem Pesaroso em seu encalço para vingar os Imortais que ela queimara na sua Casa de Poeira. Os magos nunca esqueciam uma desfeita, dizia-se, e os Homens Pesarosos nunca falhavam uma morte. A maioria dos dothraki também estaria contra ela. Os kos de Khal Drogo lideravam agora khalasares seus, e nenhum hesitaria em atacar o pequeno bando de Dany assim que o visse, para matar e escravizar seu povo e arrastar a própria Dany para Vaes Dothrak, a fim de tomar o lugar que lhe era próprio entre as velhas mirradas do dosh khaleen. Ela esperava que Xaro Xhoan Daxos não fosse um inimigo, mas o mercador qarteno tinha cobiçado seus dragões. E havia ainda Quaithe da Sombra, essa mulher estranha com máscara de laca vermelha e todos os seus misteriosos conselhos. Seria também uma inimiga, ou apenas uma amiga perigosa? Dany não sabia dizer.

Sor Jorah salvou-me do envenenador, e Arstan Barba-Branca, da mantícora. Talvez Belwas, o Forte, me salve do próximo. Ele era suficientemente enorme, com braços semelhantes a pequenas árvores e um grande arakh curvo tão afiado que poderia ter se barbeado com ele, no improvável caso de nascerem pelos naquelas bochechas lisas e marrons. Mas também era infantil. Como protetor, deixa muito a desejar. Felizmente, tenho Sor Jorah e meus companheiros de sangue. E os meus dragões, não posso esquecer. A seu tempo, os dragões seriam seus guardiães mais poderosos, tal como tinham sido para Aegon, o Conquistador, e suas irmãs trezentos anos antes. Mas, por enquanto, traziam-lhe mais perigo do que proteção. No mundo inteiro não havia mais de três dragões vivos, e eles eram seus; uma maravilha e um terror. E não tinham preço.

Refletia sobre as palavras que diria em seguida quando sentiu um sopro frio na nuca, e uma madeixa solta de seus cabelos louro-prateados se agitou contra sua testa. Por cima, a vela rangeu e moveu-se, e de repente irrompeu um grande grito em todo o Balerion.

– Vento! – gritavam os marinheiros. – O vento voltou, o vento!

Dany olhou para cima, para onde as velas da grande coca ondulavam e se enfunavam enquanto as cordas vibravam, se retesavam e cantavam a doce canção de que tinham sentido tanta falta durante seis longos dias. O capitão Groleo correu para o fundo, gritando ordens. Os pentoshi, aqueles que não estavam soltando vivas, escalavam os mastros. Até Belwas, o Forte, soltou um grande urro e executou uma pequena dança.

– Os deuses são bons! – disse Dany. – Está vendo, Jorah? Vamos de novo a caminho.

– Sim – ele disse –, mas de quê, minha rainha?

O vento soprou durante todo o dia, a princípio constante e de leste, e depois em violentas rajadas. O sol pôs-se num deslumbramento vermelho. Ainda estou a meio mundo de distância de Westeros, lembrou Dany a si mesma, mas a cada hora me aproximo mais. Tentou imaginar como se sentiria quando vislumbrasse pela primeira vez a terra que nascera para governar. Será uma costa mais bela que qualquer outra que já tenha visto, eu sei. Como poderia ser de outro modo?

Mas mais tarde, nessa noite, enquanto o Balerion mergulhava adiante através da escuridão e Dany se sentava de pernas cruzadas em seu beliche na cabine do capitão, dando comida aos dragões (“Até no mar”, disse Groleo, tão atenciosamente, “as rainhas têm precedência sobre os capitães”), alguém bateu à porta com vivacidade.

Irri estava dormindo aos pés do beliche (era estreito demais para três, e naquela noite era a vez de Jhiqui dividir a macia cama de penas com a sua khaleesi), mas a aia ergueu-se ao ouvir o toque e dirigiu-se à porta. Dany puxou uma colcha para cima de si e prendeu-a debaixo dos braços. Estava nua, e não esperava um visitante àquela hora.

– Entre – disse, quando viu Sor Jorah à porta, sob uma lanterna oscilante.

O cavaleiro exilado abaixou a cabeça ao entrar.

– Vossa Graça, lamento perturbar seu sono.

– Não estava dormindo, sor. Entre e observe. – Tirou um pedaço de carne de porco salgada da tigela que tinha no colo e ergueu-o para os dragões verem. Todos os três o olharam com um ar faminto. Rhaegal estendeu asas verdes e agitou o ar, e o pescoço de Viserion balançou de um lado para o outro como uma longa serpente pálida, enquanto seguia o movimento de sua mão. – Drogon – disse Dany em voz baixa –, dracarys. – E atirou o pedaço de porco ao ar.

O movimento de Drogon foi mais rápido do que o ataque de uma cobra. Chamas saíram rugindo de sua boca, em laranja, escarlate e negro, torrando a carne antes que começasse a cair. Quando seus afiados dentes negros se fecharam em volta do naco, a cabeça de Rhaegal projetou-se para perto, como que para roubar a recompensa das mandíbulas do irmão, mas Drogon engoliu e guinchou, e o dragão verde, menor, só pôde silvar, frustrado.

– Pare com isso, Rhaegal – disse Dany, aborrecida, dando-lhe uma pancada na cabeça. – Já comeu o último. Não admito dragões gananciosos. – Sorriu para Sor Jorah. – Já não vou precisar esturricar a carne deles num braseiro durante muito mais tempo.

– Vejo que não. Dracarys?

Os três dragões viraram as cabeças ao ouvir aquela palavra, e Viserion soltou uma labareda de um dourado claro que fez Sor Jorah dar um apressado passo para trás. Dany soltou um risinho.

– Cuidado com essa palavra, sor, senão é provável que eles chamusquem sua barba. Significa “fogo de dragão” em Alto Valiriano. Quis arranjar um comando que não fosse provável que alguém proferisse por acidente.

Mormont fez um aceno.

– Vossa Graça – disse –, gostaria de saber se posso conversar um pouco com a senhora em particular.

– Claro. Irri, deixe-nos por um instante. – Pôs uma mão no ombro nu de Jhiqui e sacudiu a outra aia até acordá-la. – Você também, querida. Sor Jorah precisa falar comigo.

– Sim, Khaleesi. – Jhiqui tombou do beliche, nua e bocejando, com os espessos cabelos negros caindo em volta de sua cabeça. Vestiu-se depressa e saiu com Irri, fechando a porta atrás delas.

Dany deixou os dragões lutarem pelo resto do porco salgado, e deu palmadinhas na cama a seu lado.

– Sente-se, bom sor, e diga-me o que o perturba.

– Três coisas. – Sor Jorah sentou-se. – Belwas, o Forte. Aquele Arstan Barba-Branca. E Illyrio Mopatis, que os enviou.

Outra vez? Dany puxou a colcha mais para cima e passou uma ponta por sobre o ombro.

– E por quê?

– Os magos de Qarth disseram-lhe que seria traída três vezes – lembrou-lhe o cavaleiro exilado, enquanto Viserion e Rhaegal começavam a morder e arranhar um ao outro.

– Uma vez por sangue, uma vez por ouro e uma vez por amor. – Não era provável que Dany se esquecesse. – Mirri Maz Duur foi a primeira.

– O que significa que ainda restam dois traidores... e agora aparecem aqueles dois. Sim, acho isso perturbador. Não se esqueça de que Robert ofereceu uma senhoria ao homem que a matar.

Dany inclinou-se para a frente e deu um puxão na cauda de Viserion, para tirá-lo de cima do irmão verde. A colcha soltou-se de seu corpo quando se mexeu. Agarrou-a apressadamente e voltou a cobrir-se.