“Desde esse dia, a guarda urbana de Qohor é composta unicamente de Imaculados, e todos usam uma grande lança, da qual pende uma trança de cabelo humano.
“Isto é o que encontrará em Astapor, Vossa Graça. Acoste lá, e prossiga até Pentos por terra. Levará mais tempo, sim... mas quando dividir a mesa com o Magíster Illyrio, terá mil espadas atrás de si, e não apenas quatro.”
Sim, há sabedoria nisso, pensou Dany, mas…
– Como posso comprar mil soldados escravos? Tudo que tenho de valor é a coroa que a Irmandade Turmalina me deu.
– Os dragões serão uma maravilha tão grande em Astapor como foram em Qarth. Pode ser que os negociantes de escravos façam chover presentes sobre você, como os qartenos fizeram. Se não... estes navios transportam mais do que os seus dothraki e seus cavalos. Embarcaram mercadoria em Qarth, eu percorri os porões e vi-a com meus próprios olhos. Rolos de seda e fardos de pele de tigre, esculturas em âmbar e jade, açafrão, mirra... os escravos são baratos, Vossa Graça. Peles de tigre são caras.
– Essas peles de tigre são de Illyrio – ela objetou.
– E Illyrio é um amigo da Casa Targaryen.
– Mais um motivo para não roubar sua mercadoria.
– Para que servem os amigos ricos se não puserem a sua riqueza ao seu dispor, minha rainha? Se o Magíster Illyrio lhe negar isso, é apenas um Xaro Xhoan Daxos com quatro queixos. E se for sincero em sua devoção à sua causa, não se mostrará relutante em dar-lhe três navios carregados de mercadoria. Que melhor uso poderá haver para as suas peles de tigre do que comprar o início de um exército para você?
Isso é verdade. Dany sentiu uma excitação crescente.
– Haverá perigos numa marcha tão longa.
– Também há perigos no mar. Corsários e piratas percorrem a rota sul e, ao norte de Valíria, o Mar Fumegante é assombrado por demônios. A próxima tempestade pode nos afundar ou nos dispersar, uma lula gigante pode nos puxar para o fundo... ou podemos nos perder de novo numa calmaria, e morrer de sede enquanto esperamos pelo vento. Uma marcha terá perigos diferentes, minha rainha, mas nenhum será maior.
– Mas e se o capitão Groleo recusar a mudança de rota? E Arstan e Belwas, o Forte, o que farão?
Sor Jorah levantou-se.
– Talvez seja hora de descobrir.
– Sim – decidiu ela. – Farei isso! – Dany atirou a colcha para trás e saltou do beliche. – Vou já falar com o capitão, ordenar-lhe que marque uma rota para Astapor. – Dobrou-se sobre o seu baú, abriu a tampa e pegou a primeira roupa que encontrou, um par de calças largas de sedareia. – Dê-me o meu cinto de medalhões – ordenou a Jorah enquanto puxava a sedareia sobre as coxas. – E o meu colete... – começou a dizer, virando-se.
Sor Jorah deslizou os braços em volta dela.
– Oh – foi tudo o que Dany teve tempo de dizer quando ele a puxou e pressionou os lábios contra os dela. Cheirava a suor, sal e couro, e os rebites de ferro em seu justilho enterraram-se nos seus seios nus quando ele a apertou com força contra si. Uma mão prendeu-a pelos ombros enquanto a outra deslizou ao longo da espinha até a base das costas, e a boca de Dany abriu-se para deixar entrar a língua dele, embora ela não lhe tivesse dito para fazer isso. A barba dele arranha, pensou, mas a boca é suave. Os dothraki não usavam barba, tinham apenas longos bigodes, e antes só Khal Drogo a beijara. Ele não devia estar fazendo isso. Sou sua rainha, não sua mulher.
Foi um beijo longo, embora Dany não soubesse dizer quão longo. Quando terminou, Sor Jorah largou-a, e ela deu um passo rápido para trás.
– Você... você não devia...
– Eu não devia ter esperado tanto tempo – concluiu o cavaleiro. – Devia tê-la beijado em Qarth, em Vaes Tolorro. Devia tê-la beijado no deserto vermelho, todas as noites e todos os dias. Foi feita para ser beijada, sempre e bem. – Os olhos dele estavam fixos em seus seios.
Dany cobriu-os com as mãos, antes que os mamilos a traíssem.
– Eu... isso não foi certo. Sou sua rainha.
– Minha rainha – disse ele – e a mais corajosa, mais doce e mais bela mulher que eu já vi. Daenerys...
– Vossa Graça!
– Vossa Graça – concedeu ele –, o dragão tem três cabeças, lembra? Tem refletido sobre essa frase desde que a ouviu dos feiticeiros na Casa da Poeira. Bem, aqui está o significado: Balerion, Meraxes e Vhagar, montados por Aegon, Rhaenys e Visenya. O dragão de três cabeças da Casa Targaryen... três dragões e três cavaleiros.
– Sim – disse Dany –, mas meus irmãos estão mortos.
– Rhaenys e Visenya eram esposas de Aegon, além de serem suas irmãs. Não tem irmãos, mas pode ter maridos. E digo-lhe com franqueza, Daenerys, não há outro homem no mundo inteiro que tenha por você nem metade da fidelidade que eu tenho.
Bran
A cadeia de montes projetava-se vivamente da terra, uma longa dobra de pedra e solo com a forma de uma garra. Árvores agarravam-se às suas vertentes inferiores, pinheiros, espinheiros e freixos, mas mais acima o terreno era nu, e a linha de cumeada definia-se bem contra o céu enevoado.
Sentiu que os rochedos elevados o chamavam. E lá subiu, a princípio a um trote fácil, e depois mais depressa e mais alto, devorando o declive com as fortes patas. Aves saltavam dos galhos por cima de sua cabeça quando passava por baixo correndo, abrindo caminho para o céu numa confusão de garras e asas. Conseguia ouvir o vento suspirar por entre as folhas, os esquilos chilreando uns para os outros, até o ruído que uma pinha fez ao cair no chão da floresta. Os cheiros eram uma canção à sua volta, uma canção que enchia o belo mundo verde.
Cascalho voou de debaixo de suas patas quando conquistou os últimos metros e chegou ao cume. O sol pendia, baixo, sobre os grandes pinheiros, enorme e vermelho, e por baixo dele as árvores e os montes prolongavam-se até perder de vista ou de odor. Muito acima, uma pipa voava em círculos, uma mancha escura contra o céu cor-de-rosa.
Príncipe. O som-de-homem entrou subitamente em sua cabeça, e no entanto ele conseguia sentir que aquilo estava certo. Príncipe do verde, príncipe da mata de lobos. Era forte, rápido e feroz, e tudo que vivia no belo mundo verde tinha medo dele.
Muito embaixo, na base da floresta, algo se moveu por entre as árvores. Uma imagem cinza, apenas vislumbrada e logo desaparecida, mas o suficiente para levá-lo a erguer as orelhas. Lá embaixo, ao lado de um riacho rápido e verde, outra silhueta surgiu e desapareceu, correndo. Lobos, compreendeu. Seus primos pequenos, à caça de alguma presa. Agora o príncipe via mais, sombras sobre velozes patas cinzentas. Uma matilha.
Ele também tivera uma matilha antes. Tinham sido cinco, e um sexto que ficava de lado. Em algum lugar, bem fundo em seu íntimo, alojavam-se os sons que os homens lhes tinham dado para distingui-los uns dos outros, mas não era pelos sons que os conhecia. Lembrava-se de seus odores, dos odores de seus irmãos e irmãs. Todos tinham odores parecidos, cheiravam a matilha, mas cada um deles também era diferente.
O príncipe sentia que o irmão zangado com os quentes olhos verdes estava próximo, embora não o visse já havia muitas caçadas. Mas com cada sol que se punha, ele distanciava-se mais, e tinha sido o último. Os outros estavam muito espalhados, como folhas sopradas pelo vento forte.