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Salladhor Saan apareceu não muito depois.

– Precisa me perdoar pelo vinho, meu amigo. Aqueles pentoshi beberiam o próprio mijo se fosse púrpura.

– Vai ser bom para o meu peito – disse Davos. – Minha mãe costumava dizer que vinho quente é melhor do que compressas.

– Me parece que também vai precisar de compressas. Sentado todo esse tempo numa lança, caramba. Que acha dessa excelente cadeira? Ele tem nádegas gordas, não tem?

– Quem? – perguntou Davos entre pequenos goles de vinho quente.

– Illyrio Mopatis. Uma baleia com bigodes, é o que lhe digo, de verdade. Essas cadeiras foram feitas sob medida para ele, embora raramente saia de Pentos para se sentar nelas. Um gordo senta sempre confortavelmente, me parece, pois leva a almofada consigo para onde quer que vá.

– Como foi que arranjou um navio de Pentos? – perguntou Davos. – Voltou à pirataria, senhor? – Colocou de lado a taça vazia.

– Vis calúnias. Quem sofreu mais com os piratas do que Salladhor Saan? Só peço aquilo a que tenho direito. Muito ouro é devido, ah sim, mas não sou desprovido de compreensão; portanto, em vez da moeda, aceitei um belo pergaminho, muito enrolado. Ostenta o nome e o selo de Lorde Alester Florent, a Mão do Rei. Está me nomeando Senhor da Baía da Água Negra, e nenhum navio pode atravessar as águas sob o meu domínio sem a minha senhorial licença, ah não. E quando esses fora da lei estão tentando se esgueirar durante a noite para evitar minhas legítimas taxas e direitos alfandegários, ora, não são melhores do que contrabandistas, portanto, estou perfeitamente dentro da lei quando os confisco. – O velho pirata soltou uma gargalhada. – Mas não corto os dedos de ninguém. De que servem pedaços de dedos? Capturo os navios e as cargas, alguns resgates, nada de exorbitante. – Lançou um olhar penetrante para Davos. – Não está bem, meu amigo. Essa tosse... e tão magro que vejo seus ossos através da pele. E, no entanto, não estou vendo seu saquinho de ossos dos dedos...

O velho hábito obrigou Davos a levar a mão à bolsa de couro que já não estava lá.

– Perdi no rio. – A minha sorte.

– O rio foi terrível – disse solenemente Salladhor Saan. – Mesmo da baía, eu podia ver e tremi.

Davos tossiu, cuspiu e voltou a tossir.

– Vi o Betha Negra ardendo, e também o Fúria – conseguiu por fim dizer, com voz rouca. – Nenhum de nossos navios escapou do fogo? – Parte de si ainda tinha esperança.

Lorde Steffon, Jenna Esfarrapada, Espada Ligeira, Lorde que Ri e mais alguns estavam a montante do mijo dos piromantes, sim. Não foram queimados, mas, com a forte correnteza, também não puderam fugir. Alguns poucos se renderam. A maior parte subiu a Água Negra, para longe da batalha, e depois foi afundada pela tripulação, para não cair em mãos Lannister. Jenna Esfarrapada e Lorde que Ri continuam se fazendo de piratas no rio, segundo ouvi dizer, mas quem sabe se é verdade?

– O Senhora Marya? – perguntou Davos. – O Espectro?

Salladhor Saan apoiou uma mão no braço de Davos e deu-lhe um apertão.

– Não. Esses, não. Lamento, meu amigo. Eram bons homens, os seus Dale e Allard. Mas posso lhe dar este conforto: seu jovem Devan está entre aqueles que embarcamos no fim. O bravo rapaz nunca saiu de junto do rei, segundo dizem.

Por um momento sentiu-se quase tonto, de tão palpável que era seu alívio. Temera perguntar a respeito de Devan.

– A Mãe é misericordiosa. Tenho de encontrá-lo, Salla. Tenho de vê-lo.

– Sim – disse Salladhor Saan. – E também vai querer zarpar para o Cabo da Fúria, eu sei, para ver sua mulher e os dois pequenos. Estou aqui pensando que precisa de um novo navio.

– Sua Graça vai me dar um navio – disse Davos.

O liseno sacudiu a cabeça.

– Quanto a navios, Sua Graça não tem nenhum, e Salladhor Saan tem muitos. Os navios do rei arderam no rio, mas os meus não. Ficará com um deles, velho amigo. Velejará para mim, sim? Entrará deslizando em Bravos, Myr e Volantis na noite cerrada, sem ser visto, e sairá também deslizando, com sedas e especiarias. Ficaremos com bolsas gordas, sim.

– É gentil, Salla, mas meu dever é para com meu rei, não para com sua bolsa. A guerra continuará. Stannis ainda é o legítimo herdeiro do trono, segundo todas as leis dos Sete Reinos.

– Todas as leis não estão ajudando quando todos os navios se queimam, me parece. E o seu rei, bem, receio que vá acabar achando-o mudado. Desde a batalha não recebe ninguém, fica só matutando naquele Tambor de Pedra. A Rainha Selyse recebe em audiência em seu nome, com o tio, Lorde Alester, que anda se chamando de Mão. Ela deu o selo do rei a esse tio, para pôr nas cartas que ele escreve, e até em meu belo pergaminho. Mas o reino que eles estão governando é pequeno, pobre e rochoso, sim. Não há ouro, nem sequer um bocadinho para pagar ao fiel Salladhor Saan o que lhe é devido, e só restam os cavaleiros que levamos no fim, e nenhum navio além de minha pequena e brava frota.

Um súbito e torturante ataque de tosse obrigou Davos a se dobrar. Salladhor Saan aproximou-se para ajudá-lo, mas, com um gesto, ele pediu que se afastasse, e após um momento se recuperou.

– Ninguém? – rouquejou. – O que quer dizer com ele não receber ninguém? – sua voz soava úmida e espessa, até mesmo aos seus ouvidos, e por um momento a cabine pareceu oscilar ao seu redor.

– Ninguém além dela – disse Salladhor Saan, e Davos não precisou perguntar o que ele queria dizer. – Meu amigo está se cansando. É de uma cama que está precisando, não de Salladhor Saan. Uma cama e muitas mantas, com uma compressa quente no peito e mais vinho e cravo.

Davos sacudiu a cabeça

– Vou ficar bem. Conte-me, Salla, preciso saber. Ninguém além de Melisandre?

O liseno lançou um longo olhar de dúvida para ele e prosseguiu com relutância.

– Os guardas estão mantendo todos os outros afastados, até sua rainha e a filhinha. Criados trazem refeições que ninguém come. – Inclinou-se para a frente e baixou a voz. – Ouvi estranhas conversas sobre fogos esfomeados dentro da montanha, e sobre como Stannis e a mulher vermelha descem juntos para observar as chamas. Há poços, dizem, e escadas secretas que descem até o coração da montanha, até lugares quentes onde só ela pode caminhar sem se queimar. É mais do que suficiente para aterrorizar um velho, a tal ponto que às vezes quase não arranja forças para comer.

Melisandre. Davos estremeceu.

– A mulher vermelha fez isso a ele – disse. – Enviou o fogo para nos consumir, para punir Stannis por tê-la posto de lado, para lhe ensinar que não tem esperança de vencer sem seus feitiços.

O liseno tirou uma gorda azeitona da tigela que se encontrava entre os dois.

– Não é o primeiro a dizer isso, meu amigo. Mas se eu fosse você, não estaria falando tão alto. Pedra do Dragão está cheia daqueles homens da rainha, ah, sim, e eles têm ouvidos aguçados e facas afiadas. – Enfiou a azeitona na boca.

– Eu também tenho uma faca. Capitão Khorane deu-me de presente. – Puxou a adaga e colocou-a na mesa, entre eles. – Uma faca para arrancar o coração de Melisandre. Se é que ela tem um.

Salladhor Saan cuspiu um caroço de azeitona.

– Davos, bom Davos, não deve andar dizendo tais coisas, nem mesmo brincando.

– Não é brincadeira. Pretendo matá-la. – Se ela puder ser morta por armas mortais. Davos não tinha certeza se isso era possível. Tinha visto o velho Meistre Cressen despejando veneno no vinho dela, viu com os próprios olhos, mas quando ambos beberam da taça envenenada, foi o meistre quem morreu, e não a sacerdotisa vermelha. Mas uma faca no coração... até os demônios podem ser mortos pelo ferro frio, segundo dizem os cantores.