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Bem, ela pode ser feia, mas não é completamente burra. Jaime brindou-a com um sorriso relutante.

A luz avermelhada vinda das janelas superiores da casa-torre de pedra avisou-os de sua presença a uma longa distância, e Brienne levou-os pelos campos. Só quando o forte ficou bem para trás é que eles voltaram a virar e encontraram a estrada de novo.

Decorreu metade da noite antes de a garota admitir que podia ser seguro parar. A essa altura, os três já estavam prestes a cair das selas. Abrigaram-se num pequeno grupo de carvalhos e freixos ao lado de um riacho indolente. A garota não autorizou uma fogueira, e por isso partilharam um jantar tardio de bolos de aveia amanhecidos e peixe salgado. A noite estava estranhamente pacífica. Uma meia-lua rodeada de estrelas pairava sobre suas cabeças, num céu negro de feltro. A distância, um grupo de lobos uivava. Um dos cavalos do grupo soltou um relincho nervoso. Não se ouviam outros sons. A guerra não tocou este lugar, pensou Jaime. Estava contente por estar ali, contente por se encontrar vivo, contente por voltar para junto de Cersei.

– Eu fico com o primeiro turno de vigia – disse Brienne a Sor Cleos, e rapidamente o Frey começou a roncar baixinho.

Jaime sentou-se de encontro ao tronco de um carvalho e perguntou a si mesmo o que Cersei e Tyrion estariam fazendo naquele momento.

– Tem irmãos, senhora? – perguntou.

Brienne olhou-o de soslaio, desconfiada.

– Não. Fui o ún... a única filha de meu pai.

Jaime soltou um risinho.

– Ia dizer filho. Ele pensa em você como num filho? É certo que é um tipo estranho de filha.

Sem uma palavra, ela virou as costas para ele, cerrando o punho com força no cabo da espada. Que criatura miserável é esta. De alguma estranha forma, fazia-lhe lembrar de Tyrion, embora à primeira vista fosse difícil encontrar duas pessoas mais diferentes. Talvez tivesse sido esse pensamento sobre o irmão que o fez dizer:

– Não pretendia ofendê-la, Brienne. Perdoe-me.

– Seus crimes estão para além do perdão, Regicida.

– Outra vez esse nome. – Jaime torceu à toa as correntes. – Por que a deixo com tanta raiva? Nunca lhe fiz mal, que me lembre.

– Fez mal a outros. Àqueles que tinha jurado proteger. Aos fracos, aos inocentes...

– ... ao rei? – voltava sempre a Aerys. – Não tenha a presunção de me julgar por aquilo que não entende, garota.

– Meu nome é...

– ... Brienne, sim. Nunca ninguém lhe disse que era tão entediante quanto feia?

– Não vai conseguir me fazer perder o controle com provocações, Regicida.

– Ah, talvez conseguisse, se eu quisesse tentar.

– Por que motivo prestou juramento? – ela quis saber. – Por que envergar o manto branco se pretendia trair tudo aquilo que ele simboliza?

Por quê? O que poderia dizer que ela fosse capaz de entender?

– Era um rapaz. Tinha quinze anos. Era uma grande honra para alguém tão jovem.

– Isso não é resposta – disse ela em tom de escárnio.

Você não ia gostar da verdade. Tinha se juntado à Guarda Real por amor, claro.

O pai chamara Cersei para a corte quando ela tinha doze anos, esperando arranjar um casamento real para ela. Tinha recusado todas as ofertas por sua mão, preferindo mantê-la consigo na Torre da Mão enquanto crescia e se tornava mais mulher e ainda mais bela. Esperava, sem dúvida, que o Príncipe Viserys amadurecesse, ou talvez que a esposa de Rhaegar morresse ao dar à luz. Elia de Dorne nunca tinha sido a mais saudável das mulheres.

Jaime, entretanto, passara quatro anos como escudeiro de Sor Sumner Crakehall e conquistara as esporas contra a Irmandade da Mata do Rei. Mas quando fez uma breve visita a Porto Real no caminho de volta para Rochedo Casterly, principalmente para ver a irmã, Cersei puxou-o de lado e sussurrou que Lorde Tywin pretendia casá-lo com Lysa Tully, chegando ao ponto de convidar Lorde Hoster a vir à cidade para conversar sobre o dote. Mas se Jaime vestisse o branco, podia ficar sempre perto dela. O velho Sor Harlan Grandison morrera durante o sono, o que não podia ser mais apropriado para alguém cujo símbolo era um leão adormecido. Aerys iria querer um jovem para ocupar o seu lugar, portanto, por que não um leão rugindo para o lugar de um sonolento?

– O pai nunca consentirá – Jaime questionou.

– O rei não lhe pedirá consentimento. E uma vez que a coisa estiver feita, o pai não pode objetar, pelo menos abertamente. Aerys mandou arrancar a língua de Sor Ilyn Payne só por alardear que era a Mão quem realmente governava os Sete Reinos. O capitão da guarda da Mão, e no entanto o pai não se atreveu a tentar impedi-lo! Também não impedirá isso.

– Mas – disse Jaime – há Rochedo Casterly...

– O que você quer é um rochedo? Ou eu?

Lembrava-se daquela noite como se fosse ontem. Tinham-na passado numa velha estalagem na Viela das Enguias, bem longe de olhos vigilantes. Cersei fora encontrá-lo vestida como uma simples criada, o que acabou por excitá-lo ainda mais. Jaime nunca a tinha visto mais apaixonada. Sempre que adormecia, ela voltava a acordá-lo. Pela manhã, Rochedo Casterly parecia um pequeno preço a pagar para ficar sempre perto dela. Deu seu consentimento, e Cersei prometeu fazer o resto.

Uma volta de lua mais tarde, um corvo real chegou a Rochedo Casterly para informá-lo de que fora escolhido para a Guarda Real. Era-lhe ordenado que se apresentasse ao rei durante o grande torneio em Harrenhal, para prestar juramento e envergar o manto.

A investidura de Jaime libertou-o de Lysa Tully. Mas, tirando isso, nada se passou conforme planejado. O pai nunca estivera mais furioso. Não podia levantar objeções abertamente – Cersei julgara isso de forma correta –, mas usou um pretexto qualquer pouco convincente para se demitir do cargo de Mão e retornou a Rochedo Casterly, levando a filha consigo. Em vez de ficarem juntos, Cersei e Jaime limitaram-se a trocar de lugar, e ele se viu sozinho na corte, defendendo um rei louco enquanto quatro homens menores se sucederam dançando sobre facas, cujos pés não calçavam bem os sapatos do pai. As Mãos ascendiam e caíam tão rapidamente que Jaime recordava melhor a heráldica do que o rosto deles. A Mão cornucópia e a Mão grifos dançantes tinham ambas sido exiladas; a Mão maça e punhal, mergulhada em fogovivo e queimada viva. Lorde Rossart fora o último. Seu símbolo era um archote ardente; uma escolha infeliz, tendo em conta o destino de seu predecessor, mas o alquimista tinha ascendido em grande medida por partilhar a paixão do rei pelo fogo. Devia ter afogado Rossart em vez de estripá-lo.

Brienne continuava à espera de sua resposta. Jaime disse:

– Não tem idade para ter conhecido Aerys Targaryen...

Ela não quis ouvir.

– Aerys era louco e cruel, nunca ninguém negou isso. Ainda assim era rei, coroado e ungido. E você jurou protegê-lo.

– Eu sei o que jurei.

– E o que fez. – Ergueu-se acima dele, um metro e oitenta de desaprovação sardenta, carrancuda e com dentes de cavalo.

– Sim, e o que você fez também. Aqui somos ambos regicidas, se aquilo que ouvi dizer é verdade.

– Nunca fiz mal a Renly. Mato o primeiro homem que diga que fiz.

– Nesse caso, é melhor que comece por Cleos. E, depois disso, terá bastante matança a fazer, pelo que ele conta da história.

Mentiras. A Senhora Catelyn estava lá quando Sua Graça foi assassinado, ela viu. Apareceu uma sombra. As velas apagaram-se e o ar ficou frio, e houve sangue...

– Ah, muito bem. – Jaime soltou uma gargalhada. – Pensa mais depressa do que eu, confesso. Quando me encontraram em pé junto ao meu rei morto, nunca pensei em dizer: “Não, não, não fui eu, foi uma sombra, uma terrível sombra fria”. – Soltou outra gargalhada. – Conte-me a verdade, de um regicida para outro: foram os Stark que lhe pagaram para cortar a goela dele, ou foi Stannis? Renly repeliu-a, foi por isso? Ou talvez estivesse com o sangue de lua. Nunca dê uma espada a uma garota quando ela estiver sangrando.