– Torta Quente, pegue essas couves – disse enquanto saltava para a sela. – E as cenouras também.
Por uma vez, ele não discutiu. Puseram-se a caminho como ela quis, avançando lentamente com os cavalos ao longo da estrada sulcada, uma dúzia de passos atrás dos três caminhantes. Mas não muito tempo depois, de algum modo, estavam bem na cola deles. Tom Sete-Cordas caminhava devagar, e gostava de ir dedilhando a harpa à medida que avançava.
– Conhecem algumas canções? – perguntou-lhes. – Adoraria ter alguém com quem cantar, adoraria mesmo. O Limo não consegue cantar afinado, e o nosso rapaz do arco só conhece baladas da Marca, todas com cem versos de comprimento.
– Na Marca cantamos canções de verdade – disse brandamente Anguy.
– Cantar é idiota – disse Arya. – Cantar faz barulho. Ouvimos você de muito longe. Podíamos ter matado você.
O sorriso de Tom indicava que ele não tinha a mesma opinião.
– Há coisas piores do que morrer com uma canção nos lábios.
– Se houvesse lobos por aqui, saberíamos – resmungou o Limo. – Ou leões. Esta floresta é nossa.
– Não sabiam que nós estávamos aqui – disse Gendry.
– Ora, rapaz, não devia ter tanta certeza assim – disse Tom. – Às vezes um homem sabe mais do que diz.
Torta Quente mexeu-se na sela.
– Eu conheço a canção sobre o urso – disse. – Pelo menos parte dela.
Tom correu os dedos pelas cordas.
– Então vamos ouvi-la, menino das tortas. – Atirou a cabeça para trás e cantou: – Havia um urso, um urso, um urso! Preto e castanho e coberto de pelo...
Torta Quente juntou-se a ele cheio de energia, chegando mesmo a balançar um pouco na sela, nas rimas. Arya fitou-o, espantada. Tinha uma boa voz e cantava bem. Nunca fez nada bem, a não ser cozinhar, pensou consigo mesma.
Um pequeno riacho desaguava no Tridente um pouco mais à frente. Enquanto o atravessavam, a cantoria espantou um pato que estava no meio dos juncos. Anguy parou, pegou o arco, encaixou uma flecha e abateu-o. A ave caiu nos baixios, não muito longe da margem. Limo tirou o manto amarelo e entrou na água até os joelhos para recuperá-la, sem parar de se queixar.
– Acha que a Sharna terá limões lá embaixo, naquela adega dela? – perguntou Anguy a Tom enquanto observavam o Limo espirrar água, praguejando. – Certa vez, uma garota de Dorne fez pato com limões para mim. – Parecia cheio de desejo.
Tom e Torta Quente reataram a canção do outro lado do riacho, com o pato já preso ao cinto de Limo, por baixo de seu manto amarelo. De algum modo, a canção fez com que os quilômetros parecessem mais curtos. Não demorou realmente muito tempo até a estalagem aparecer à frente deles, erguendo-se da margem do rio onde o Tridente fazia uma grande curva para o norte. Arya observou-a com suspeita ao se aproximar, de olhos semicerrados. Não parecia um covil de fora da lei, tinha de admitir; aparentava um local amigável, até mesmo acolhedor, com seu andar superior caiado e o telhado de ardósia e a fumaça que saía em preguiçosas espirais da chaminé. Estábulos e outros edifícios secundários rodeavam-na, e havia um vinhedo nos fundos, e macieiras e um pequeno jardim. A estalagem até tinha seu próprio ancoradouro, que se projetava pelo rio, e...
– Gendry – chamou Arya, com voz baixa e urgente. – Eles têm um barco. Podíamos fazer o resto do caminho até Correrrio navegando. Seria mais rápido do que a cavalo, eu acho.
Ele pareceu duvidar.
– Você alguma vez já velejou?
– Iça-se a vela – disse ela – e o vento empurra.
– E se o vento estiver soprando na direção errada?
– Então há remos para remar.
– Contra a corrente? – Gendry franziu a testa. – Isso não seria devagar? E se o barco virar e cairmos na água? Seja como for, o barco não é nosso, é da estalagem.
Podíamos roubá-lo. Arya mordeu o lábio e nada disse. Desmontaram em frente aos estábulos. Não se via mais nenhum cavalo, mas Arya reparou no estrume fresco em muitas das cocheiras.
– Um de nós devia vigiar os cavalos – disse, cautelosa.
Tom ouviu-a.
– Não há necessidade disso, Pombinha. Venha comer, eles vão ficar suficientemente seguros.
– Eu fico – disse Gendry, ignorando o cantor. – Pode vir me buscar depois de ter comido alguma coisa.
Assentindo, Arya foi atrás de Torta Quente e Limo. Ainda levava a espada na bainha, a tiracolo, e mantinha uma mão perto do cabo do punhal que roubara de Roose Bolton, para o caso de não gostar do que quer que encontrassem lá dentro.
O letreiro pintado por cima da porta mostrava a imagem de um velho rei qualquer ajoelhado. Lá dentro ficava a sala comum, onde uma mulher feia e muito alta, com um queixo protuberante, estava em pé, de mãos no quadril, encarando-a com ar zangado.
– Não fique aí parado, menino – exclamou. – Ou é uma menina? Seja como for, está bloqueando a porta. Ou entra ou sai. Limo, que foi que eu disse a respeito do meu chão? Você está pura lama.
– Abatemos um pato. – Limo mostrou-o como uma bandeira de paz.
A mulher arrancou-o de sua mão.
– O que você quer dizer é que o Anguy abateu um pato. Tire as botas, você é surdo ou é só burro? – virou-se. – Marido! – chamou, em voz alta. – Venha aqui pra cima, os rapazes voltaram. Marido!
Um homem com um avental sujo subiu a escada da adega, resmungando. Era uma cabeça mais baixo do que a mulher, e tinha o rosto grumoso e uma pele amarelada e solta, que ainda mostrava as marcas de um tipo qualquer de varíola.
– Estou aqui, mulher, pare de berrar. O que foi agora?
– Pendure isto – disse ela, entregando-lhe o pato.
Anguy remexeu os pés.
– Estávamos pensando em comê-lo, Sharma. Com limões. Se tiver alguns.
– Limões. E onde iríamos arranjar limões? Você acha que está em Dorne, meu idiota sardento? Por que não dá um pulo lá atrás até os limoeiros e colhe um balde para a gente, e também algumas azeitonas e romãs das boas? – sacudiu um dedo em frente ao nariz dele. – Ora bem, suponho que podia cozinhá-lo com o manto do Limo, se quisesse, mas só depois que o pato passar uns dias pendurado. Ou você vai comer coelho, ou não vai comer. Coelho assado no espeto é o mais rápido, se tiver fome. Ou talvez o queira cozido, com cerveja e cebolas.
Arya quase conseguia sentir o gosto do coelho.
– Não temos dinheiro, mas trouxemos algumas cenouras e couves que poderíamos trocar com você.
– Ah, trouxe? E onde estão elas?
– Torta Quente, dê as couves para ela – disse Arya, e ele entregou, embora se aproximasse da velha tão cautelosamente como se ela fosse Rorge, Dentadas ou Vargo Hoat.
A mulher inspecionou bem os legumes, e melhor o garoto.
– Onde está essa torta quente?
– Aqui. Eu. É o meu nome. E ela é a... ah... Pombinha.
– Debaixo do meu teto, não. Dou nomes diferentes aos clientes e aos pratos, para distingui-los uns dos outros. Marido!
O Marido tinha ido até lá fora, mas, ao ouvir o grito da mulher, apressou-se a voltar.
– O pato está pendurado. O que foi agora, mulher?
– Lave estes legumes – ordenou ela. – Os outros, sentem-se enquanto eu começo a cuidar dos coelhos. O garoto vai lhes trazer bebidas. – Olhou ao longo de seu grande nariz para Arya e Torta Quente. – Não tenho o hábito de servir cerveja a crianças, mas a sidra acabou, não há vacas para dar leite, e a água do rio tem gosto de guerra, com todos os mortos que vêm à deriva. Se lhes servisse uma tigela de sopa cheia de moscas mortas, vocês a tomariam?
– Arry tomaria – disse Torta Quente. – A Pombinha, quero dizer.
– E Limo também – sugeriu Anguy, com um sorriso manhoso.
– Não se preocupe com Limo – disse Sharna. – Há cerveja para todos. – E desapareceu na direção da cozinha.