Anguy e Tom Sete-Cordas ocuparam a mesa perto da lareira, enquanto Limo pendurava seu grande manto amarelo num cabide. Torta Quente deixou-se cair pesadamente num banco, junto à mesa perto da porta, e Arya enfiou-se ao lado dele.
Tom pegou a harpa.
– Uma estalagem solitária na estrada da floresta – cantou, inventando lentamente uma melodia que se adaptasse às palavras. – A mulher do estalajadeiro era feia como uma besta.
– Cale a boca, senão não vai ter coelho para ninguém – preveniu-o Limo. – Sabe como ela é.
Arya debruçou-se, aproximando-se de Torta Quente.
– Sabe manejar um veleiro? – perguntou. Antes de ele ter tempo de responder, um rapaz atarracado com quinze ou dezesseis anos apareceu com canecas de cerveja. Torta Quente pegou reverentemente a sua, com as duas mãos, e quando bebeu um trago, deu o sorriso mais largo que Arya já tinha visto nele.
– Cerveja – sussurrou – e coelho.
– Bem, à saúde de Sua Graça – gritou alegremente Anguy, o Arqueiro, erguendo a caneca. – Que os Sete protejam o rei!
– Todos os doze que há por aí – resmungou Limo Manto Limão. Bebeu, e limpou a espuma da boca com as costas da mão.
O Marido entrou em grande correria pela porta da frente, com um avental cheio de legumes lavados.
– Há cavalos estranhos nos estábulos – anunciou, como se eles não soubessem.
– Sim – disse Tom, colocando a harpa de lado –, e melhores do que os três que você deu.
O Marido deixou cair os legumes sobre uma mesa, aborrecido.
– Não os dei. Vendi por um bom preço, e arranjei também um esquife para nós. E, seja como for, o seu grupinho deveria tê-los trazido de volta.
Sabia que eles eram fora da lei, pensou Arya, escutando. A mão desceu para baixo da mesa e tocou o cabo do punhal, para se assegurar de que ainda estava lá. Se tentarem nos roubar, vão se arrepender.
– Não vieram para onde estávamos – disse Limo.
– Bem, eu mandei-os. Vocês deviam estar bêbados, ou dormindo.
– Nós? Bêbados? – Tom bebeu um longo trago de cerveja. – Nunca.
– Podia tê-los pego você mesmo – disse Limo.
– O que, só com o garoto aqui? Já lhes disse duas vezes, a velha estava na Charneca dos Cordeiros ajudando a Fern a parir o bebê. E o mais certo é ter sido um de vocês quem plantou o bastardo na barriga da pobre garota. – Deu a Tom um olhar azedo. – Você, aposto, com essa sua harpa, cantando todas essas canções tristes só para fazer a pobre Fern tirar a roupa de baixo.
– Se uma canção leva uma donzela a querer tirar a roupa e sentir o bom sol quente beijar sua pele, ora, será culpa do cantor? – perguntou Tom. – E, além disso, ela gostava era do Anguy. “Posso tocar o seu arco?”, ouvi Fern perguntando-lhe. “Ooohh, é tão liso, e duro. Acha que eu podia dar uma puxadinha nele?”
O Marido resfolegou.
– Você ou o Anguy, não faz diferença. São tão culpados como eu pelos cavalos. Eram três, sabe? O que pode um homem fazer contra três?
– Três – disse Limo em tom de escárnio –, mas um era mulher e o outro tava acorrentado, foi você mesmo que disse.
O Marido fez uma careta.
– Uma mulher grande, vestida como um homem. E o que estava acorrentado... Não gostei da expressão nos olhos dele.
Anguy exibiu um sorriso por cima da cerveja.
– Quando não gosto dos olhos de um homem, espeto uma flecha num deles.
Arya recordou a flecha que roçara em sua orelha. Queria saber disparar flechas.
O Marido não se mostrou impressionado.
– E você fique calado quando os mais velhos estão conversando. Beba a sua cerveja e segure essa língua, senão mando a velha mostrar-lhe uma colher de pau.
– Os mais velhos falam demais, e não preciso que me diga para beber a minha cerveja. – E deu um grande trago, para mostrar que era assim.
Arya fez o mesmo. Depois de passar dias bebendo de riachos e poças e, depois, do lamacento Tridente, a cerveja tinha um sabor tão bom quanto os golinhos de vinho que o pai costumava deixá-la beber. Começava a vir da cozinha um cheiro que lhe enchia de água a boca, mas seus pensamentos ainda estavam todos naquele barco. Manejá-lo será mais difícil do que roubá-lo. Se esperarmos até estarem todos dormindo...
O criado voltou a aparecer com grandes pães redondos. Arya partiu um pedaço, esfomeada, e atirou-se nele. Mas era difícil de mastigar, estava espesso e grumoso, e queimado embaixo.
Torta Quente fez careta assim que o provou.
– Este pão é ruim – disse. – Está queimado, e duro.
– É melhor quando há guisado para mergulhá-lo nele – disse Limo.
– Não é, não – disse Anguy –, mas com guisado é menos provável que quebre um dente.
– Podem comê-lo ou passar fome – disse o Marido. – Tenho cara de ser um maldito padeiro? Gostaria de vê-los fazer melhor.
– Eu conseguiria – disse Torta Quente. – É fácil. Você amassou demais a massa, é por isso que é tão difícil mastigar. – Bebeu outro gole de cerveja e desatou a falar, com gosto, de pães, tortas e empadas, tudo aquilo que adorava. Arya rolou os olhos.
Tom sentou-se diante dela.
– Pombinha – disse ele –, ou Arry, ou seja lá qual for o seu verdadeiro nome, isto é para você. – Pousou um pedaço sujo de pergaminho na mesa de madeira entre ambos.
Ela olhou o pergaminho com desconfiança.
– O que é isso?
– Três dragões de ouro. Precisamos comprar aqueles cavalos.
Arya olhou-o com cautela.
– Os cavalos são nossos.
– O que quer dizer é que foi você que os roubou, não é? Não há vergonha nisso, menina. A guerra transforma muita gente honesta em ladrões. – Tom bateu com o dedo no pergaminho dobrado. – Estou lhe pagando um bom preço. Mais do que qualquer cavalo vale, para falar a verdade.
Torta Quente pegou o pergaminho e desdobrou-o.
– Não há ouro nenhum – protestou em voz alta. – Só há coisas escritas.
– Sim – disse Tom –, e lamento por isso. Mas, depois da guerra, pretendemos fazer esse ouro, tem a minha palavra como homem do rei.
Arya afastou-se da mesa e pôs-se em pé.
– Vocês não são homens do rei coisa nenhuma, são assaltantes!
– Se algum dia tivesse encontrado verdadeiros assaltantes, saberia que eles nunca pagam, nem mesmo em papel. Não é para nós que levamos seus cavalos, filha, é para o bem do reino, para que possamos nos deslocar mais depressa e travar as batalhas que precisam ser travadas. As batalhas do rei. Negaria isso ao rei?
Estavam todos a observá-la: o Arqueiro, o grande Limo, e o Marido, com seu rosto pálido e olhos esquivos. Até Sharna, que espreitava da porta da cozinha. Vão roubar os cavalos, diga eu o que disser, compreendeu. Vamos ter de ir a pé até Correrrio, a menos que...
– Não queremos papel – com uma palmada, Arya arrancou o pergaminho das mãos de Torta Quente. – Podem ficar com nossos cavalos em troca daquele barco que está lá fora. Mas só se nos mostrarem como manejá-lo.
Tom Sete-Cordas fitou-a por um momento, e depois sua grande boca acolhedora torceu-se num sorriso deplorável. Riu alto. Anguy juntou-se a ele, e então desataram todos a rir, Limo Manto Limão, Sharna e o Marido, até o criado, que saíra de trás dos barris com uma besta debaixo de um braço. Arya quis gritar com eles, mas em vez disso deu um sorriso...
– Cavaleiros! – o grito de Gendry parecia esganiçado por causa do susto. A porta abriu-se de rompante, e ali estava ele. – Soldados – arquejou. – Pela estrada do rio, uma dúzia deles.
Torta Quente ficou em pé de um salto, derrubando a caneca, mas Tom e os outros permaneceram imperturbados.
– Não há motivo para derramar boa cerveja no meu chão – disse Sharna. – Volte a se sentar e acalme-se, garoto, o coelho vem aí. Você também, garota. Seja qual for o mal que lhe foi feito, está feito e acabou-se, e agora está com homens do rei. Nós vamos mantê-la a salvo o melhor que pudermos.