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Jon deu meia-volta e seguiu Tormund de volta à cabeça da coluna, com o novo manto caindo, pesado, dos ombros. Era feito de peles de ovelha não lavadas, e usava-o com o lado da lã para dentro, como os selvagens tinham sugerido. Mantinha bastante bem a neve afastada, e à noite era bom e quente, mas também havia ficado com o manto negro, dobrado por baixo da sela.

– É verdade que você uma vez matou um gigante? – perguntou a Tormund enquanto avançavam. Fantasma saltava em silêncio ao lado deles, deixando rastros de patas na neve recém-caída.

– Ora, por que deveria duvidar de um homem poderoso como eu? Era inverno e eu era meio garoto, e estúpido como os garotos são. Avancei longe demais e meu cavalo morreu, e depois uma tempestade apanhou-me. Uma tempestade verdadeira, não uma nevasquinha como esta. Ha! Sabia que ia congelar antes do fim. De modo que encontrei uma giganta adormecida, abri a barriga dela, e enfiei-me dentro. Manteve-me bem quentinho, ah, sim, mas o fedor quase acabou comigo. O pior foi que ela acordou quando a primavera chegou e achou que eu era seu bebê. Deu-me de mamar durante três luas completas antes que eu conseguisse fugir. Ha! Mas há horas em que sinto saudades do sabor do leite de gigante.

– Se ela o alimentou, não pode tê-la matado.

– E não matei, mas vê se não espalha isso por aí. Tormund, Terror dos Gigantes, soa melhor do que Tormund, Bebê de Gigante, e esta é a verdade verdadeira.

– Então como foi que arranjou os outros nomes? – perguntou Jon. – Mance chamou-o de Soprador de Chifres, não foi? Rei-Hidromel do Solar Ruivo, Esposo de Ursas, Pai de Tropas? – era do sopro no chifre que queria realmente ouvir falar, mas não se atrevia a perguntar tão diretamente. E Joramun soprou o Berrante do Inverno e acordou gigantes da terra. Teriam eles vindo daí, eles e aqueles mamutes? Teria Mance Rayder encontrado o Berrante de Joramun e dado a Tormund para soprar?

– Todos os corvos são assim tão curiosos? – perguntou Tormund. – Bom, aqui vai uma história para você. Foi em outro inverno, ainda mais frio do que aquele que passei dentro da giganta, e nevava de dia e de noite, flocos de neve do tamanho de sua cabeça, não estas coisinhas. Nevava tanto que a aldeia inteira estava meio enterrada. Eu estava em meu Solar Ruivo, só com um barril de hidromel para me fazer companhia e nada para fazer a não ser bebê-lo. Quanto mais bebia, mais pensava numa mulher que vivia ali perto, uma mulher boa e forte, com o maior par de tetas que você já viu. Tinha um gênio difícil, aquela, mas, oh, também sabia ser quente, e no meio do inverno um homem precisa de seu calor.

“Quanto mais bebia, mais pensava nela, e quanto mais pensava, mais duro ficava o meu membro, até que não aguentei mais. Idiota como era, enfiei-me em peles da cabeça aos pés, enrolei a cara numa volta de lã, e lá fui à procura dela. A neve caía com tanta força que me virou uma ou duas vezes, e o vento soprava através de mim e congelava meus ossos, mas finalmente cheguei em sua casa, todo enfaixado como estava.

“A mulher tinha um gênio terrível, e deu uma luta e tanto quando pus as mãos nela. Por pouco não conseguia levá-la para casa e tirá-la de dentro daquelas peles, mas quando fiz isso, oh, ela foi ainda mais quente do que eu me lembrava, e passamos um belo tempo juntos, e depois adormeci. Na manhã seguinte, quando acordei, a forte nevasca tinha parado e o sol brilhava, mas eu não estava em estado de aproveitá-lo. Estava todo ferido e rasgado, com metade de meu membro arrancado a dentadas, e bem ali no chão estava a pele de uma ursa. E não demorou muito tempo para que o povo livre começasse a contar histórias sobre um urso sem pelos visto na floresta, seguido pelo mais estranho par de filhotes que já se viu. Ha! – deu uma palmada numa coxa carnuda. – Gostaria de voltar a encontrá-la. Aquela ursa era boa na cama. Nunca mulher nenhuma me deu uma luta daquelas, nem filhos tão fortes.”

– O que faria se a encontrasse? – perguntou Jon, sorrindo. – Disse que ela arrancou seu membro com os dentes.

– Só metade. E metade de meu membro é duas vezes maior do que o de outro homem qualquer. – Tormund resfolegou. – E agora você... é verdade que cortam seus membros quando os levam para a Muralha?

– Não – disse Jon, afrontado.

– Eu acho que deve ser verdade. Se não, por que é que rejeita Ygritte? Ela quase não lhe daria luta, me parece. A moça quer você lá dentro, isso tá bem na cara.

Está na cara até demais, pensou Jon, e parece que metade da coluna já percebeu isso. Estudou a neve que caía para que Tormund não o visse corar. Sou um homem da Patrulha da Noite, lembrou a si próprio. Mas então por que se sentia como se fosse uma donzela tímida?

Passava a maior parte dos dias na companhia de Ygritte, e a maior parte das noites também. Mance Rayder não se mostrara cego perante a desconfiança que o Camisa de Chocalho nutria pelo “corvo-que-veio”, por isso, depois de dar a Jon o novo manto de pele de ovelha, sugeriu que talvez preferisse acompanhar Tormund Terror dos Gigantes. Jon sentiu-se feliz por concordar, e no dia seguinte Ygritte e o Lança-Longa Ryk também tinham trocado o bando do Camisa de Chocalho pelo de Tormund.

– O povo livre acompanha quem quiser – a moça lhe disse –, e nós estamos de saco cheio do Saco de Ossos.

Todas as noites, quando montavam o acampamento, Ygritte estendia as suas peles de dormir ao lado das dele, quer estivesse perto da fogueira, quer estivesse longe. Uma vez, acordou com ela aninhada a si, com o braço apoiado em seu peito. Permaneceu imóvel por muito tempo, escutando a respiração dela, tentando ignorar a tensão na virilha. Era frequente que os patrulheiros dividissem as peles para obter calor, mas suspeitava que calor não era tudo que Ygritte queria. Depois disso, começou a usar Fantasma para mantê-la afastada. A Velha Ama costumava contar histórias sobre cavaleiros e suas senhoras que dormiam na mesma cama com uma lâmina entre eles, em nome da honra, mas Jon achava que aquela devia ser a primeira vez que um lobo gigante fazia as vezes de espada.

Mesmo assim, Ygritte persistia. Na antevéspera, Jon cometera o erro de desejar ter água quente para um banho.

– A fria é melhor – ela disse de imediato –, se tiver alguém para aquecê-lo depois. O rio ainda só está meio gelado, vai lá.

Jon riu.

– Você me mataria congelado.

– Todos os corvos têm medo de pele de galinha? Um bocadinho de gelo não vai matar você. Eu salto junto pra provar.

– E passamos o resto do dia com a roupa molhada e congelada agarrada à pele? – retrucou.

– Jon Snow, você não sabe nada. Não se mergulha vestido.

– Não mergulho e ponto – disse com firmeza, logo antes de ouvir Tormund Punho de Trovão berrar por ele (não tinha ouvido, mas não importa).

Os selvagens pareciam achar Ygritte uma grande beleza, por causa de seus cabelos; cabelos ruivos eram raros entre o povo livre, e dizia-se que aqueles que o possuíam tinham sido beijados pelo fogo, o que supostamente era sinal de sorte. Os cabelos de Ygritte até podiam ser sinal de sorte, e certamente eram ruivos, mas eram também tão embaraçados que Jon se sentia tentado a perguntar se ela só o escovava na mudança da estação.

Sabia que na corte de um senhor a garota nunca teria sido considerada algo mais do que comum. Tinha um rosto redondo de camponesa, nariz achatado e dentes ligeiramente tortos, e os olhos eram afastados demais. Jon havia reparado em tudo isso na primeira vez que a viu, quando encostou o punhal na garganta dela. Mas nos últimos tempos andava reparando em outras coisas. Quando ela sorria, os dentes tortos não pareciam importar. E talvez seus olhos fossem afastados demais, mas eram de uma cor bonita, azul-acinzentada, e tão cheios de vida como nenhum outro que já tivesse visto. Às vezes, cantava numa voz grave e rouca que o estimulava. E às vezes, junto à fogueira, quando ela se sentava abraçando os joelhos com as chamas a despertar ecos em seus cabelos vermelhos, e o olhava, sorrindo apenas... bem, isso também estimulava algumas coisas.