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E Jon sabia que em algum lugar mais adiante, perto, o Punho dos Primeiros Homens se erguia por sobre as árvores, abrigando trezentos irmãos negros da Patrulha da Noite, armados, montados e à espera. O Velho Urso tinha enviado outros batedores além do Meia-Mão, e decerto Jarman Buckwell ou Thoren Smallwood já teriam retornado com a informação sobre aquilo que vinha descendo das montanhas.

Mormont não fugirá, pensou Jon. É velho demais e chegou longe demais. Atacará, e que se danem os números. Um dia, em breve, ouviria o som de berrantes de guerra e veria uma coluna de cavaleiros caindo sobre eles com esvoaçantes mantos negros e aço frio nas mãos. Trezentos homens não podiam esperar matar cem vezes mais, claro, mas Jon achava que não precisariam fazer isso. Ele não precisa matar mil homens, apenas um. Mance é tudo que os mantém juntos.

O Rei-para-lá-da-Muralha estava fazendo tudo o que podia, mas os selvagens mantinham-se irremediavelmente indisciplinados, e isso tornava-os vulneráveis. Aqui e ali, na serpente com léguas de comprimento que era a sua linha de marcha, havia guerreiros tão bons como quaisquer membros da Patrulha, mas cerca de um terço deles encontrava-se agrupado nas duas extremidades da coluna, na vanguarda de Harma Cabeça de Cão e na retaguarda selvagem, com os seus gigantes, auroques e lançadores de fogo. Outro terço seguia com o próprio Mance, perto do centro, defendendo carroças, trenós e carros puxados por cães que levavam a maior parte das provisões e dos abastecimentos da tropa, tudo que restara da colheita do verão anterior. O resto, dividido em pequenos bandos sob o comando de homens como o Camisa de Chocalho, Jarl, Tormund Terror dos Gigantes e Chorão, servia como batedores, forrageiros e “chicotes”, galopando sem cessar ao longo da coluna, para mantê-la em movimento de uma forma mais ou menos ordenada.

E ainda mais relevante era que só um em cem selvagens se encontrava montado. O Velho Urso vai atravessá-los como um machado atravessa mingau de aveia. E quando isso acontecesse, Mance os perseguiria com suas forças centrais, tentando minimizar a ameaça. Se caísse na luta que se seguiria, Jon estimava que a Muralha estaria a salvo durante mais cem anos. Caso contrário...

Abriu e fechou os dedos queimados de sua mão da espada. A Garralonga estava pendurada na sela, com o botão de pedra esculpida em forma de cabeça de lobo e o macio punho de couro ao alcance da mão.

A neve caía com força quando alcançaram o bando de Tormund, várias horas depois. Fantasma partiu ao longo do caminho, misturando-se à floresta ao farejar uma presa. O lobo gigante voltaria quando acampassem para passar a noite, o mais tardar à alvorada. Por mais longe que andasse, Fantasma sempre voltava ... e o mesmo, ao que parecia, fazia Ygritte.

– Então – gritou a garota quando o viu – já acredita em nós, Jon Snow? Viu os gigantes em seus mamutes?

– Ha! – gritou Tormund, antes de Jon conseguir responder. – O corvo está apaixonado! Quer casar com um!

– Com um gigante? – Lança-Longa Ryk riu.

– Não, com um mamute! – berrou Tormund. – Ha!

Ygritte trotou para o lado de Jon enquanto este reduzia o passo do garrano. Ela dizia ser três anos mais velha do que ele, embora fosse quinze centímetros mais baixa; qualquer que fosse a sua idade, a garota era uma coisinha rija. Cobra das Pedras chamara-a de “esposa de lança” quando a tinham capturado no Passo dos Guinchos. Não era casada e sua arma favorita era um pequeno arco curvado feito de chifre e represeiro, mas “esposa de lança” ajustava-se a ela mesmo assim. Lembrava a Jon um pouco sua irmã, Arya, embora esta fosse mais nova e provavelmente mais magra. Era difícil dizer se Ygritte era magra ou gorda, com todas as peles que usava.

– Conhece “O último dos gigantes”? – sem esperar resposta, Ygritte continuou: – É preciso uma voz mais grave do que a minha para cantá-la como deve ser. – E então cantou: – Ooooooh, sou o último dos gigantes, o meu povo do mundo partiu.

Tormund, Terror dos Gigantes, ouviu as palavras e sorriu.

O último dos gigantes de montanha, que um dia tudo possuiu – berrou em resposta através da neve.

Lança-Longa Ryk juntou-se a eles, cantando:

Oh, o povo pequeno roubou-me as florestas, roubou-me os rios e os montes.

E atravessou meus vales com uma grande muralha, e pescou meus peixes das fontes – responderam-lhe Ygritte e Tormund, em vozes adequadamente gigânticas.

Os filhos de Tormund, Toregg e Dormund, juntaram também suas vozes graves à canção, seguidos por Munda e todos os demais. Outros começaram a bater com as lanças em escudos de couro para marcar um ritmo grosseiro, até todo o bando de guerreiros estar cantando enquanto avançava.

Em salões de pedra fazem suas grandes fogueiras, em salões de pedra forjam suas afiadas lanças. Enquanto eu caminho sozinho nas montanhas, sem nenhum companheiro além das lembranças. Caçam-me sempre com cães à luz do dia, Caçam-me sempre com archotes no escuro. Pois os homens pequenos não poderão ver-se altos, se caminharem gigantes no futuro. Oooooo, sou o ÚLTIMO dos gigantes, Por isso aprenda bem a minha canção. Pois quando eu partir nascerá o silêncio, e durante muito tempo as canções morrerão.

Havia lágrimas no rosto de Ygritte quando a canção terminou.

– Por que está chorando? – perguntou Jon. – Foi só uma canção. Há centenas de gigantes, acabei de vê-los.

– Oh, centenas – disse ela, furiosa. – Não sabe nada, Jon Snow. Você... JON!

Jon virou-se ao ouvir o súbito som de asas. Penas azul-acinzentadas encheram seus olhos, enquanto garras afiadas se enterravam em seu rosto. Uma dor rubra atravessou-o, súbita e violenta, enquanto asas batiam em volta de sua cabeça. Viu o bico, mas não houve tempo para levantar uma mão ou estendê-la para alguma arma. Jon cambaleou para trás, seu pé saltou do estribo, o garrano fugiu em pânico, e de repente estava caindo. E a águia ainda se agarrava ao seu rosto, com as garras rasgando-o enquanto a ave batia as asas, guinchava e bicava. O mundo virou de pernas para o ar, num caos de penas, carne de cavalo e sangue, e então o chão surgiu e esmagou-o.

Quando deu por si, estava caído sobre o rosto, com gosto de lama e sangue na boca, e Ygritte ajoelhava-se protetoramente sobre ele, com um punhal de osso na mão. Ainda ouvia asas, embora não visse a águia. Metade de seu mundo estava negra.

– Meu olho – disse, num pânico súbito, levando a mão ao rosto.

– É só sangue, Jon Snow. Ela errou o olho, só rasgou um pouco de sua pele.

Sentia o rosto latejar. Viu com o olho direito, enquanto esfregava o esquerdo para limpá-lo do sangue, que Tormund se encontrava perto deles, berrando. Então ouviram-se batidas de cascos, gritos, e o chocalhar de velhos ossos.

– Saco de Ossos – rugiu Tormund –, chame seu corvo infernal!

– O corvo infernal tá ali! – Camisa de Chocalho apontou para Jon. – Sangrando na lama como um cão sem fé! – A águia desceu, batendo as asas, e foi pousar no crânio rachado de gigante que servia de elmo ao guerreiro. – Venho por ele.

– Então venha buscá-lo – disse Tormund –, mas é melhor vir de espada na mão, porque é assim que vai encontrar a minha. Pode ser que ferva os seus ossos e use seu crânio para mijar. Ha!

– Quando eu furar você e deixar sair o ar, vai encolher até ficar menor do que aquela garota. Afaste-se, senão Mance vai ficar sabendo disso.

Ygritte levantou-se.

– O quê? É Mance que o quer?

– Foi o que eu disse, não foi? Ponha o cara sobre seus pés pretos.

Tormund franziu a testa para Jon.