– É melhor ir, se é Mance quem chama.
Ygritte ajudou-o a se levantar.
– Tá sangrando como um javali na matança. Olhe o que o Orell fez com o lindo rosto dele.
Será que uma ave pode odiar? Jon matara o selvagem Orell, mas uma parte do homem permanecia dentro da águia. Os olhos dourados olhavam-no com fria malevolência.
– Eu vou – disse. O sangue continuava a escorrer para dentro de seu olho direito, e a bochecha era uma explosão de dor. Quando a tocou, as luvas pretas se mancharam de vermelho. – Deixem-me apanhar o garrano. – O que queria não era o cavalo e sim Fantasma, mas não se via o lobo gigante em lugar nenhum. A essa altura, pode estar muito distante, dilacerando a goela de algum alce. Talvez isso fosse bom.
O garrano fugiu dele quando se aproximou, sem dúvida assustado pelo sangue que tinha no rosto, mas Jon acalmou-o com algumas palavras ditas em voz baixa, e algum tempo depois conseguiu aproximar-se o suficiente para pegar as rédeas. Ao montar, sentiu a cabeça rodopiar. Vou precisar tratar disso, pensou, mas não agora. Que o Rei-para-lá-da-Muralha veja o que a águia dele me fez. A mão direita abriu-se e fechou-se, e Jon estendeu-a para a Garralonga e pôs a espada bastarda ao ombro antes de dar meia-volta e seguir a trote para onde o Senhor dos Ossos o esperava com seu bando.
Ygritte também estava à espera, montada no cavalo com uma expressão feroz no rosto.
– Também vou.
– Suma. – Os ossos da placa de peito do Camisa de Chocalho tiniram. – Mandaram-me buscar o corvo-que-desceu e mais ninguém.
– Uma mulher livre leva o cavalo para onde quiser – disse Ygritte.
O vento estava soprando neve nos olhos de Jon. Sentia o sangue congelando em seu rosto.
– Ficamos conversando ou vamos embora?
– Vamos embora – disse o Senhor dos Ossos.
Foi um galope duro. Percorreram a coluna ao longo de mais de três quilômetros, por entre flocos de neve rodopiantes, depois cortaram através de um emaranhado de carroças de bagagem e atravessaram o Guadeleite no local onde o rio fazia uma grande curva para leste. Uma crosta de gelo fino cobria os baixios do rio; a cada passo, os cascos dos cavalos quebravam-na e atravessavam-na, até chegarem a águas mais profundas, dez metros mais adiante. A neve parecia cair ainda mais depressa na margem oriental, e os montes de neve acumulada também eram mais profundos. Até o vento é mais frio. E a noite estava caindo.
Mas mesmo através da neve soprada pelo vento, a forma do grande monte branco que pairava acima das árvores era inconfundível. O Punho dos Primeiros Homens. Jon ouviu o guincho da águia por cima de sua cabeça. Um corvo olhou-o do alto de um pinheiro marcial e lançou um cuorc quando ele passou. Teria o Velho Urso feito seu ataque? Em vez do estrondo do aço e do ruído seco das flechas levantando voo, Jon ouvia apenas o suave esmagamento da crosta gelada por baixo dos cascos do garrano.
Deram a volta em silêncio até a vertente sul, onde a subida era mais fácil. Foi aí que Jon viu o cavalo morto, estatelado no sopé do monte, meio enterrado na neve. Entranhas jorravam da barriga do animal como serpentes congeladas, e uma de suas patas tinha desaparecido. Lobos, foi o primeiro pensamento de Jon, mas não estava certo. Os lobos comiam os animais que matavam.
Mais garranos estavam espalhados pela encosta, com as patas retorcidas de um modo grotesco e olhos cegos fixos na morte. Os selvagens rastejavam sobre eles como moscas, despindo-os de selas, arreios, embrulhos e armaduras, e cortando sua carne com machados de pedra.
– Para cima – disse Camisa de Chocalho a Jon. – O Mance tá lá no alto.
Desmontaram junto à muralha anelar para se enfiarem através de um vão inclinado entre as pedras. A carcaça de um garrano felpudo e castanho estava empalada nos espigões afiados que o Velho Urso havia colocado dentro de todas as entradas. Ele estava tentando sair, não entrar. Não havia sinal de um cavaleiro.
Lá dentro havia mais, e pior. Jon nunca antes vira neve cor-de-rosa. O vento soprava em rajadas à sua volta, puxando seu pesado manto de pele de ovelha. Corvos esvoaçavam de um cavalo morto para o seguinte. Será que aqueles corvos são selvagens ou dos nossos? Jon não sabia dizer. Perguntou a si mesmo onde estaria agora o pobre Sam. E o que seria.
Uma crosta de sangue congelado rangeu por baixo do calcanhar de sua bota. Os selvagens estavam despindo os cavalos mortos de todos os restos de aço e couro, chegando mesmo a arrancar suas ferraduras dos cascos. Alguns vasculhavam pacotes que tinham achado, em busca de armas ou alimentos. Jon passou por um dos cães de Chett, ou aquilo que dele restava, jazendo numa poça viscosa de sangue meio congelado.
Ainda havia algumas tendas em pé no lado mais distante do acampamento, e foi nesse lugar que encontraram Mance Rayder. Sob o manto rasgado de lã negra e seda vermelha usava cota de malha preta e felpudos calções de pele, e na cabeça tinha um grande elmo de bronze e ferro, com asas de corvo nas têmporas. Jarl encontrava-se com ele, bem como Harma Cabeça de Cão; Styr também estava lá, assim como Varamyr Seis-Peles, com seus lobos e seu gato-das-sombras.
O olhar que Mance lançou a Jon foi ameaçador e frio.
– O que aconteceu com seu rosto?
Ygritte respondeu:
– Orell tentou arrancar-lhe um olho.
– Perguntei a ele. Perdeu a língua? Talvez devesse, para nos poupar de mais mentiras.
Styr, o Magnar, puxou uma longa faca.
– O rapaz talvez possa ver com mais clareza com um olho em vez de dois.
– Gostaria de ficar com o olho, Jon? – perguntou o Rei-para-lá-da-Muralha. – Se sim, diga-me quantos eram. E tente falar a verdade dessa vez, Bastardo de Winterfell.
Jon tinha a garganta seca.
– Meu senhor... o que...
– Não sou o seu senhor – disse Mance. – E o que é bastante claro. Seus irmãos morreram. A questão é: quantos?
O rosto de Jon latejava, a neve continuava caindo e era difícil pensar. Não pode se recusar, não importa o que lhe seja solicitado, Qhorin lhe dissera. As palavras prenderam-se em sua garganta, mas Jon forçou-se a dizer:
– Éramos trezentos.
– Éramos? – disse Mance vivamente.
– Eram. Eram trezentos. – Não importa o que lhe seja solicitado, disse o Meia-Mão. Então por que me sinto tão covarde? – Duzentos de Castelo Negro, e cem da Torre Sombria.
– Essa é uma canção mais verdadeira do que a que cantou em minha tenda. – Mance olhou para Harma Cabeça de Cão. – Quantos cavalos encontrou?
– Mais de cem – respondeu a enorme mulher –, menos de duzentos. Há mais mortos a leste, debaixo da neve, é difícil saber quantos. – Atrás dela encontrava-se o seu porta-estandarte, segurando uma vara com a cabeça de um cão na ponta, suficientemente fresca para ainda estar vertendo sangue.
– Não devia ter mentido para mim, Jon Snow – disse Mance.
– Eu... eu sei. – O que poderia dizer?
O rei selvagem estudou seu rosto.
– Quem tinha o comando aqui? E diga-me a verdade. Era Rykker? Smallwood? Não pode ter sido o Wythers, ele era fraco demais. De quem era esta tenda?
Já disse demais.
– Não encontrou o corpo dele?
Harma fungou, lançando desdém pelas narinas.
– Que idiotas esses corvos pretos.
– Da próxima vez que me responder com uma pergunta, dou você ao Senhor dos Ossos – prometeu Mance Rayder a Jon. Aproximou-se dele. – Quem comandava aqui?
Mais um passo, pensou Jon. Mais alguns centímetros. Deslocou a mão para mais perto do cabo da Garralonga. Se ficar de boca fechada...
– Tente pegar nessa maldita espada, e eu corto sua cabeça de bastardo antes de você ter tempo de tirá-la da bainha – disse Mance. – Estou perdendo rapidamente a paciência com você, corvo.