Na manhã seguinte, deixaram a estrada para cortar caminho pelos campos. O vento soprava em rajadas, fazendo rodopiar folhas secas marrons entre os cascos dos cavalos, mas, pela primeira vez, não chovia. Quando o sol surgiu de trás de uma nuvem, estava tão brilhante que Arya teve de puxar o capuz para a frente, a fim de cobrir os olhos.
Puxou as rédeas bruscamente.
– Estamos indo no sentido errado!
Gendry soltou um gemido.
– O que foi, outra vez o musgo?
– Olhe para o sol – disse ela. – Estamos indo para o sul! – Arya esquadrinhou o alforje em busca do mapa, para poder mostrar-lhes. – Nunca devíamos ter nos afastado do Tridente. Olhem. – Desenrolou o mapa sobre a perna. Agora todos a observavam. – Olhem, Correrrio fica aqui, entre os rios.
– Acontece – disse Jack Sortudo – que a gente sabe onde fica Correrrio. Cada um de nós.
– Não vamos para Correrrio – disse Limo sem rodeios.
Estava quase lá, pensou Arya. Devia tê-los deixado levar nossos cavalos. Podia ter percorrido o resto do caminho a pé. Lembrou-se então do seu sonho e mordeu o lábio.
– Ah, não faça uma expressão tão sentida, filha – disse Tom Sete-Cordas. – Nenhum mal acontecerá a você, tem a minha palavra quanto a isso.
– A palavra de um mentiroso!
– Ninguém mentiu – disse Limo. – Não fizemos promessas. Não cabe a nós dizer o que será feito com você.
Mas Limo não era o chefe, não o era mais do que Tom; o chefe era o Barba-Verde, o tyroshi. Arya virou-se para ele.
– Leve-me a Correrrio, e será recompensado – disse, desesperadamente.
– Pequena – respondeu Barba-Verde –, um camponês pode esfolar um esquilo comum para a panela, mas se encontrar um esquilo de ouro em sua árvore, leva-o ao seu senhor, senão se arrependerá de não ter feito isso.
– Não sou um esquilo – insistiu Arya.
– É, sim. – Barba-Verde soltou uma gargalhada. – Um pequeno esquilo de ouro que vai se encontrar com o senhor do relâmpago, quer queira, quer não. Ele vai saber o que fazer com você. Aposto que vai mandá-la para junto da senhora sua mãe, tal como você deseja.
Tom Sete-Cordas concordou com a cabeça.
– Sim, Lorde Beric é assim. Ele vai fazer o que é certo, você vai ver.
Lorde Beric Dondarrion. Arya recordou tudo que ouvira dizer em Harrenhal, tanto da boca dos Lannister como dos Saltimbancos Sangrentos. Lorde Beric era o fogaréu dos bosques. Lorde Beric, que fora morto por Vargo Hoat e antes disso por Sor Amory Lorch e duas vezes pela Montanha que Cavalga. Se ele não me mandar para casa, talvez também o mate.
– Por que é que tenho de me encontrar com Lorde Beric? – perguntou ela calmamente.
– Levamos todos os nossos cativos bem-nascidos a ele – disse Anguy.
Cativa. Arya respirou fundo para sossegar a alma. Calma como águas paradas. Olhou de relance os fora da lei em seus cavalos, e virou a cabeça do seu. Agora, rápida como uma cobra, pensou, enquanto batia com os calcanhares no flanco do corcel. Fugiu bem entre Barba-Verde e Jack Sortudo, e viu de relance a expressão pasma de Gendry, quando a égua dele saiu de seu caminho. E então estava em campo aberto, e em fuga.
Para norte ou para sul, para leste ou oeste, agora não importava. Podia encontrar o caminho para Correrrio mais tarde, depois de tê-los despistado. Arya inclinou-se para a frente na sela e pôs o cavalo a galope. Em suas costas, os fora da lei praguejavam e gritavam-lhe para voltar. Fechou os ouvidos aos gritos, mas quando deu um olhar de relance por cima do ombro, quatro deles vinham em seu encalço, Anguy, Harwin e Barba-Verde lado a lado e, mais atrás, Limo, cujo comprido manto amarelo esvoaçava atrás dele enquanto cavalgava.
– Ligeira como uma corça – disse à sua montaria. – Agora corra, corra.
Arya precipitou-se por campos marrons de ervas daninhas, por mato na altura da cintura e por pilhas de folhas secas que se agitavam e voavam quando o cavalo passava a galope. Viu que havia bosques à esquerda. Posso despistá-los ali. Uma vala seca corria ao longo de um dos lados do terreno, mas saltou-a sem abrandar o ritmo, e mergulhou no bosque de olmos, teixos e bétulas. Uma rápida espiada para trás mostrou que Anguy e Harwin ainda continuavam muito próximos. Mas Barba-Verde tinha ficado para trás, e já não via Limo.
– Mais depressa – disse ao cavalo –, você consegue, você consegue.
E cavalgou por entre dois olmos, sem parar para ver de que lado o musgo crescia. Saltou por cima de um tronco apodrecido e fez uma curva aberta em volta de uma monstruosa árvore caída, eriçada de galhos quebrados. Depois subiu uma ligeira vertente e desceu pelo outro lado, abrandando e voltando a ganhar velocidade, tirando faíscas do sílex com os cascos do cavalo. No topo da colina espreitou para trás. Harwin havia se colocado à frente de Anguy, mas ambos a seguiam de perto. Barba-Verde tinha ficado mais para trás e parecia estar perdendo a força.
Um riacho barrou seu caminho. Entrou nele, atravessando a água repleta de folhas ensopadas e castanhas. Algumas vieram agarradas às patas do cavalo quando subiram do outro lado. Ali, a vegetação rasteira era mais densa, com o chão tão cheio de raízes e pedras que teve de desacelerar, mas manteve o ritmo mais elevado que ousou. Surgiu outra colina à sua frente, mais íngreme. Para cima, e de novo para baixo. Que tamanho têm estes bosques?, se perguntou. Sabia que tinha o cavalo mais rápido, roubara um dos melhores animais de Roose Bolton dos estábulos de Harrenhal, mas a sua velocidade era desperdiçada ali. Preciso voltar a encontrar campo aberto. Tenho de encontrar uma estrada. Em vez disso, encontrou uma trilha de caça. Era estreita e irregular, mas era alguma coisa. Correu ao longo dela, com os ramos chicoteando seu rosto. Um se prendeu ao seu capuz e puxou-o para trás, e durante meio segundo Arya temeu que a tivessem apanhado. Uma raposa saltou dos arbustos após sua passagem, assustada pela fúria de sua fuga. A trilha levou-a a outro riacho. Ou seria o mesmo? Teria dado meia-volta? Não havia tempo para desvendar isso, pois ouvia os cavalos arremetendo por entre as árvores atrás de si. Espinhos arranharam seu rosto como os gatos que costumava perseguir em Porto Real. Pardais explodiram dos ramos de um amieiro. Mas agora as árvores estavam ficando mais esparsas, e de repente viu-se fora delas. Largos campos planos estendiam-se à sua frente, só ervas daninhas e trigo selvagem, ensopado e pisoteado. Arya voltou a pôr o cavalo a galope. Corra, pensou, corra para Correrrio, corra para casa. Teria conseguido despistá-los? Deu uma olhada rápida, e ali estava Harwin a cinco metros dela e ganhando terreno. Não, pensou, não, ele não pode fazer isso, não ele, não é justo.
Ambos os cavalos estavam espumando e perdendo as forças quando ele chegou ao lado, estendeu a mão e agarrou o freio dela. A própria Arya estava ofegante. Sabia que a fuga tinha terminado.
– Monta como um nortenho, senhora – disse Harwin quando a obrigou a parar. – Sua tia também era assim. A Senhora Lyanna. Mas lembre-se de que meu pai era mestre dos cavalos.
O olhar que Arya lhe lançou estava cheio de mágoa.
– Achava que era um homem de meu pai.
– Lorde Eddard está morto, senhora. Agora pertenço ao senhor do relâmpago e aos meus irmãos.