– Se não quiser a garota, podemos dá-la a um de seus primos – disse o pai. – Kevan, crê que Lancel está suficientemente forte para se casar?
Sor Kevan hesitou.
– Se levarmos a garota à sua cabeceira, deverá ser capaz de proferir as palavras... mas para a consumação, não... Eu sugeriria um dos gêmeos, mas os Stark detêm ambos em Correrrio. Também têm o filho de Genna, Tion, se for o caso, ele poderia servir.
Tyrion deixou-os desenvolver seu enredo secundário. Sabia que era tudo para ele ouvir. Sansa Stark, meditou. A Sansa de falinhas mansas e cheiros doces, que gostava de sedas, canções, cavalaria e cavaleiros altos e galantes com rostos bonitos. Sentia-se de volta à ponte do navio, com o convés se movendo debaixo de seus pés.
– Você me pediu para recompensá-lo por seus atos na batalha – disse Lorde Tywin vivamente. – Isto é uma oportunidade para você, Tyrion, a melhor que provavelmente terá na vida. – Tamborilou impacientemente na mesa com os dedos. – Antigamente tive esperança de casar seu irmão com Lysa Tully, mas Aerys nomeou-o para a sua Guarda Real antes de os preparativos estarem concluídos. Quando sugeri ao Lorde Hoster que Lysa poderia se casar com você em vez de Jaime, ele respondeu que queria um homem inteiro para a filha.
Portanto casou-a com Jon Arryn, que tinha idade para ser avô dela. Tyrion estava mais inclinado a sentir-se agradecido do que zangado, considerando aquilo em que Lysa Arryn se tornara.
– Quando o ofereci a Dorne, foi-me dito que a sugestão era um insulto – prosseguiu Lorde Tywin. – Nos anos seguintes recebi respostas semelhantes de Yohn Royce e Leyton Hightower. Por fim, desci ao ponto de sugerir que poderia aceitar a moça Florent que Robert deflorou na cama de núpcias do irmão, mas o pai preferiu dá-la a um dos cavaleiros de sua guarnição.
“Se não aceitar a garota Stark, vou arranjar outra esposa para você. Em algum lugar, no reino, haverá sem dúvida algum fidalgote que se separará de bom grado de uma filha para conquistar a amizade de Rochedo Casterly. A Senhora Tanda ofereceu Lollys...”
Tyrion estremeceu de susto.
– Preferiria cortá-lo e dá-lo de comer às cabras.
– Então abra os olhos. A garota Stark é nova, núbil, afável, do melhor nascimento e ainda donzela. Não é feia. Por que haveria de hesitar?
E por quê, realmente?
– É só uma idiossincrasia minha. É estranho dizê-lo, mas preferiria uma esposa que me queira na sua cama.
– Se acha que as suas rameiras querem você nas camas delas, é um idiota ainda maior do que eu suspeitava – disse Lorde Tywin. – Você me decepciona, Tyrion. Tinha esperança de que essa união lhe agradasse.
– Sim, todos nós sabemos como meu agrado é importante para você, pai. Mas há mais coisas envolvidas nisso. A chave para o Norte, você diz? Agora quem controla o Norte são os Greyjoy, e o Rei Balon tem uma filha. Por que Sansa Stark, e não ela? – Olhou os olhos do pai, frios e verdes, com seus salpicos de ouro.
Lorde Tywin uniu os dedos sob o queixo.
– Balon Greyjoy pensa em termos de saque, não de governo. Que aproveite um outono de coroa e aguente um inverno do norte. Não dará aos súditos motivo para gostar dele. Ao chegar a primavera, os nortenhos estarão fartos de lulas-gigantes. Quando levar o neto de Eddard Stark para casa, para reclamar o seu direito de nascença, tanto os senhores como o povo se erguerão juntos para instalá-lo no cadeirão de seus ancestrais. Você é capaz de engravidar uma mulher, espero eu?
– Creio que sim – disse Tyrion, irritado. – Confesso que não posso provar. Embora ninguém possa dizer que não tentei. Ora, se planto as minhas sementinhas sempre que tenho oportunidade...
– Nas fossas e nas sarjetas – concluiu Lorde Tywin – e em terreno plebeu, onde só ervas bastardas ganham raízes. Já é mais do que hora de manter seu próprio jardim. – Pôs-se em pé. – Nunca terá Rochedo Casterly, garanto. Mas case com Sansa Stark, e é possível que conquiste Winterfell.
Tyrion Lannister, Senhor Protetor de Winterfell. A ideia provocou-lhe um estranho arrepio.
– Muito bem, pai – disse lentamente –, mas há uma questão que não estão considerando. Robb Stark é tão capaz quanto eu, presume-se, e está prometido a uma daquelas férteis Frey. E assim que o Jovem Lobo gerar uma ninhada, as crias que Sansa trouxer ao mundo não serão herdeiras de nada.
Lorde Tywin não se mostrou preocupado.
– Robb Stark não gerará nenhum filho nessa fértil Frey, tem a minha palavra quanto a isso. Há algumas notícias que não achei por bem partilhar com o conselho, embora os bons senhores irão sem dúvida saber delas em breve. O Jovem Lobo tomou a filha mais velha de Gawen Westerling como esposa.
Por um momento, Tyrion não conseguiu acreditar que ouvira bem o que o pai dissera.
– Ele quebrou a palavra? – disse, incrédulo. – Ele jogou fora os Frey por... – As palavras falharam-lhe.
– Uma donzela de dezesseis anos, chamada Jeyne – disse Sor Kevan. – Lorde Gawen sugeriu-a uma vez para Willem ou Martyn, mas tive de recusar. Gawen é um bom homem, mas sua esposa é Sybell Spicer. Ele nunca devia ter se casado com ela. Os Westerling sempre tiveram mais honra do que bom senso. O avô da Senhora Sybell era um mercador de açafrão e pimenta, de um nascimento quase tão baixo quanto o daquele contrabandista de Stannis. E a avó era uma mulher qualquer que ele trouxe do leste. Uma velha assustadora, supostamente uma sacerdotisa. Chamavam-lhe Maegi. Ninguém conseguia pronunciar seu verdadeiro nome. Metade de Lanisporto ia até ela em busca de curas, poções de amor e coisas do gênero. – Encolheu os ombros. – Ela está morta há muito tempo, é certo. E Jeyne parecia uma doce criança, admito, embora só a tenha visto uma vez. Mas com um sangue tão duvidoso...
Tendo casado uma vez com uma prostituta, Tyrion não podia partilhar inteiramente do horror do tio à ideia de se casar com uma garota cujo bisavô vendia cravos. Mesmo assim... Uma doce criança, dissera Sor Kevan, mas muitos eram os venenos que também eram doces. Os Westerling eram de sangue antigo, mas possuíam mais orgulho do que poder. Não o surpreenderia se lhe dissessem que a Senhora Sybell trouxera mais riqueza ao casamento do que o seu esposo bem-nascido. As minas Westerling tinham se esgotado havia anos, suas melhores terras tinham sido vendidas ou perdidas, e o Despenhadeiro era mais ruína do que fortaleza. Uma ruína romântica, porém, projetando-se ousadamente sobre o mar.
– Estou surpreso – Tyrion teve de confessar. – Julgava que Robb Stark tinha mais bom senso.
– É um garoto de dezesseis anos – disse Lorde Tywin. – Nessa idade, o senso pouco pesa contra o desejo, o amor e a honra.
– Ele quebrou um juramento, envergonhou um aliado, traiu uma promessa solene. Onde está a honra nisso?
Foi Sor Kevan quem respondeu.
– Ele colocou a honra da garota acima da sua. Depois de deflorá-la, não tinha alternativa.
– Podia ter sido mais gentil deixá-la com um bastardo na barriga – disse Tyrion sem rodeios. Os Westerling arriscavam-se assim a perder tudo; as terras, o castelo, até a própria vida. Um Lannister sempre paga as suas dívidas.
– Jeyne Westerling é filha de sua mãe – disse Lorde Tywin – e Robb Stark é filho de seu pai.
Aquela traição Westerling não parecia ter enraivecido o pai tanto quanto Tyrion esperaria. Lorde Tywin não tolerava deslealdades por parte dos vassalos. Extinguira completamente os orgulhosos Reyne de Castamere e os antigos Tarbeck de Solar Tarbeck quando mal deixara de ser um rapaz. Os cantores tinham até feito uma canção bastante lúgubre sobre o assunto. Alguns anos mais tarde, quando Lorde Farman de Belcastro se tornou truculento, Lorde Tywin enviou um embaixador que levava um alaúde em vez de uma carta. Mas, depois de ouvir “As chuvas de Castamere” ecoando em seu salão, Lorde Farman deixou de causar problemas. E se a canção não bastasse, os castelos destruídos dos Reyne e dos Tarbeck ainda estavam lá, como testemunhos mudos do destino que esperava aqueles que escolhiam escarnecer do poder de Rochedo Casterly.