Lorde Karstark cuspiu um dente.
– Sim, Lorde Umber, deixe-me para o rei. Ele pretende me dar uma descompostura antes de me perdoar. É assim que ele lida com a traição, o nosso Rei no Norte. – Sorriu um sorriso úmido e vermelho. – Ou será que devo chamá-lo de Rei que perdeu o Norte, Vossa Graça?
Grande-Jon tirou uma lança das mãos do homem que estava ao seu lado e ergueu-a sobre o ombro.
– Deixe-me atravessá-lo, senhor. Deixe-me abrir a barriga dele para vermos a cor de suas tripas.
As portas do salão abriram-se com estrondo, e Peixe Negro entrou com água escorrendo do manto e do elmo. Homens de armas Tully seguiram-no, enquanto lá fora relâmpagos cruzavam o céu e uma chuva forte e negra assolava as pedras de Correrrio. Sor Brynden tirou o elmo e caiu sobre um joelho.
– Vossa Graça – foi tudo que disse, mas seu tom lúgubre falava por si.
– Ouvirei em privado o que Sor Brynden tem a dizer, na sala de audiências. – Robb levantou-se. – Grande-Jon, mantenha Lorde Karstark aqui até a minha volta, e enforque os outros sete.
Grande-Jon abaixou a lança.
– Até os mortos?
– Sim. Não quero essa gente conspurcando os rios do senhor meu tio. Que alimentem os corvos.
Um dos prisioneiros ajoelhou-se.
– Misericórdia, senhor. Eu não matei ninguém, fiquei só à porta, de vigia, por causa dos guardas.
Robb refletiu naquilo por um momento.
– Conhecia as intenções de Lorde Rickard? Viu as facas desembainhadas? Ouviu os gritos, as súplicas de misericórdia?
– Sim, mas não participei. Era só o vigia, juro...
– Lorde Umber – disse Robb –, este era só o vigia. Enforque-o por último, para que possa vigiar a morte dos outros. Mãe, tio, venham comigo, por favor. – Deu as costas enquanto os homens de Grande-Jon cerravam fileiras em volta dos prisioneiros e os levavam do salão sob a ameaça de lanças. Lá fora, os trovões ribombavam e estrondeavam, tão alto que parecia que o castelo estava ruindo em volta de seus ouvidos. Será este o som de um reino desmoronando?, perguntou Catelyn a si mesma.
Estava escuro dentro da sala de audiências, mas pelo menos o som dos trovões era abafado por mais uma parede de pedra. Um criado entrou com uma candeia de azeite para acender a lareira, mas Robb mandou-o embora e ficou com a candeia. Havia mesas e cadeiras, mas só Edmure se sentou, e levantou-se quando percebeu que os outros permaneceram em pé. Robb tirou a coroa e pousou-a na mesa, à sua frente.
Peixe Negro fechou a porta.
– Os Karstark desapareceram.
– Todos? – seria ira ou desespero o que pesava daquela maneira na voz de Robb? Nem mesmo Catelyn tinha certeza.
– Todos os guerreiros – respondeu Sor Brynden. – Algumas seguidoras de acampamento e criados foram deixados com os feridos. Interrogamos tantos quantos foram necessários para nos certificarmos da verdade. Começaram a partir ao cair da noite, escapando a princípio um a um ou dois a dois, e depois em grupos maiores. Foi ordenado aos feridos e criados que mantivessem as fogueiras acesas para que ninguém soubesse que tinham partido, mas depois que começou a chover, deixou de valer a pena.
– Irão voltar a se agrupar longe de Correrrio? – perguntou Robb.
– Não. Espalharam-se, à caça. Lorde Karstark jurou oferecer a mão de sua filha donzela a qualquer homem, bem ou malnascido, que lhe traga a cabeça do Regicida.
Que os deuses nos valham. Catelyn voltou a sentir náuseas.
– Quase trezentos cavaleiros e duas vezes mais montarias desaparecidos na noite. – Robb esfregou as têmporas, no local onde a coroa havia deixado sua marca, na pele macia acima das orelhas. – Todas as forças de cavalaria de Karhold, perdidas.
Perdidas por mim. Por mim, que os deuses me perdoem. Catelyn não precisava ser um soldado para compreender a armadilha em que Robb se encontrava. Por ora, controlava as terras fluviais, mas seu reino estava cercado de inimigos por todos os lados, exceto pelo leste, onde Lysa se empoleirava em seu cume de montanha. Até o Tridente estava pouco seguro desde que o Senhor da Travessia retirara sua fidelidade. E agora perdemos também os Karstark...
– Nem uma palavra sobre isso deve sair de Correrrio – disse Edmure. – Lorde Tywin faria... os Lannister pagam as suas dívidas, sempre dizem isso. Que a Mãe nos guarde quando ele souber.
Sansa. As unhas de Catelyn enterraram-se na carne macia das palmas de suas mãos, tal foi a força com que cerrou os punhos.
Robb lançou a Edmure um frio olhar.
– Quer me transformar num mentiroso além de um assassino, tio?
– Não precisamos falar nenhuma falsidade. Basta não dizer nada. Enterramos os rapazes e permanecemos em silêncio até o fim da guerra. Willem era filho de Sor Kevan Lannister e sobrinho de Lorde Tywin. Tion era filho da Senhora Genna, e um Frey. Temos também de manter a notícia longe das Gêmeas, até...
– ... até conseguirmos trazer os assassinados de volta à vida? – disse Brynden Peixe Negro em tom cortante. – A verdade fugiu com os Karstark, Edmure. É tarde demais para esses jogos.
– Devo a seus pais a verdade – disse Robb. – E a justiça. Também lhes devo isso. – Fitou a coroa, o brilho escuro do bronze, o círculo de espadas de ferro. – Lorde Rickard desafiou-me. Traiu-me. Não tenho escolha a não ser condená-lo. Só os deuses sabem o que fará a infantaria Karstark que está com Roose Bolton quando lhes chegar a notícia de que executei seu suserano por traição. Bolton precisa ser prevenido.
– O herdeiro de Lorde Karstark também estava em Harrenhal – recordou-lhe Sor Brynden. – O filho mais velho, aquele que os Lannister capturaram no Ramo Verde.
– Harrion. Chama-se Harrion. – Robb soltou uma gargalhada amarga. – Um rei faz bem em conhecer o nome de seus inimigos, não acha?
Peixe Negro lançou-lhe um olhar astuto.
– Sabe disso com certeza? Que isso fará do jovem Karstark seu inimigo?
– O que mais poderá acontecer? Estou prestes a matar o pai dele, não é provável que me agradeça.
– Pode agradecer. Há filhos que odeiam os pais, e com um só golpe estará transformando-o no Senhor de Karhold.
Robb balançou a cabeça.
– Mesmo se Harrion fosse esse tipo de homem, nunca poderia perdoar abertamente o homem que matou seu pai. Seus próprios homens iriam se voltar contra ele. Estamos falando de nortenhos, tio. O Norte tem memória.
– Então perdoe-o – sugeriu Edmure Tully.
Robb fitou-o com franca incredulidade.
Sob aquele olhar, o rosto de Edmure corou.
– Poupe sua vida, quero dizer. Não gosto mais da ideia do que você, senhor. Ele também matou homens meus. O pobre Delp tinha acabado de se recuperar do ferimento que Sor Jaime lhe infligiu. Karstark deve ser punido, certamente. Mantenha-o acorrentado.
– Um refém? – disse Catelyn. Poderia ser melhor...
– Sim, um refém! – o irmão tomou a sua reflexão por concordância. – Diga ao filho que, desde que permaneça leal, o pai não será maltratado. Caso contrário... agora não temos esperança de reconquistar os Frey, nem que eu me oferecesse para casar com todas as filhas de Lorde Walder e transportasse sua liteira. Se também perdermos os Karstark, que esperança nos restará?
– Que esperança... – Robb suspirou, afastou os cabelos dos olhos e disse: – Nada nos chegou de Sor Rodrik no norte, nenhuma resposta veio de Walder Frey à nossa nova oferta, recebemos apenas silêncio do Ninho da Águia. – Apelou à mãe. – Sua irmã não nos responderá nunca? Quantas vezes terei de lhe escrever? Não quero acreditar que nenhuma das aves chegou até ela.
Catelyn percebeu que o filho queria ser confortado; queria que ela lhe dissesse que tudo ficaria bem. Mas seu rei precisava da verdade.
– As aves chegaram ao Ninho da Águia. Embora ela possa lhe dizer que não, se alguma vez chegarem a falar do assunto. Não espere ajuda desse lado, Robb. Lysa nunca foi corajosa. Quando éramos meninas, ela fugia e escondia-se sempre que fazia algo errado. Talvez pensasse que o senhor nosso pai esqueceria de se zangar com ela caso não fosse capaz de encontrá-la. Agora é a mesma coisa. Ela fugiu de Porto Real por medo, para o lugar mais seguro que conhece, e recolhe-se em sua montanha com a esperança de que todos a esqueçam.