– Sim – disse Catelyn –, mas o senhor meu esposo ensinou aos filhos que matar nunca deve ser fácil.
– Oh. – A Rainha Jeyne umedeceu os lábios. – Robb não comeu o dia inteiro. Mandei que Rollam lhe levasse um bom jantar, costelas de javali com cebolas cozidas e cerveja, mas nem tocou no prato. Passou a manhã inteira escrevendo uma carta e disse-me para não incomodá-lo, mas quando a carta ficou pronta, queimou-a. Agora está sentado, olhando uns mapas. Perguntei-lhe o que procurava, mas não me respondeu. Acho que nem sequer me ouviu. Nem quis mudar de roupa. Passou o dia inteiro molhado e ensanguentado. Eu quero ser uma boa esposa para ele, quero mesmo, mas não sei como ajudar. Não sei como animá-lo ou reconfortá-lo. Não sei de que precisa. Por favor, senhora, é a mãe dele, diga-me o que devo fazer.
Diga-me o que devo fazer. Catelyn poderia fazer a mesma pergunta, se seu pai estivesse em condições de responder. Mas Lorde Hoster tinha partido, ou estava perto disso. O seu Ned também. E também Bran e Rickon, e a mãe, e Brandon, há tanto tempo. Só lhe restava Robb, Robb e a esperança que se desvanecia de recuperar as filhas.
– Às vezes – disse Catelyn lentamente –, a melhor coisa que podemos fazer é nada. Quando cheguei a Winterfell, sentia-me magoada sempre que Ned ia ao bosque sagrado e lá se sentava sob a árvore-coração. Sabia que parte de sua alma estava naquela árvore, uma parte que eu nunca partilharia. Mas rapidamente percebi que sem essa parte ele não teria sido Ned. Jeyne, filha, você casou com o Norte, tal como eu fiz... e no Norte os invernos chegam. – Tentou sorrir. – Seja paciente. Seja compreensiva. Ele a ama e precisa de você, e voltará para você bem depressa. Talvez nesta mesma noite. Procure estar lá quando ele fizer isso. É tudo que posso lhe dizer.
A jovem rainha escutou, arrebatada.
– Estarei – disse, quando Catelyn terminou. – Estarei lá. – Pôs-se em pé. – Devia voltar. Ele pode ter sentido a minha falta. Verei. Mas se ainda estiver com os seus mapas, serei paciente.
– Faça isso – disse Catelyn, mas quando a garota chegou à porta, lembrou-se de mais uma coisa. – Jeyne – chamou-a –, há algo mais que Robb precisa de você, embora ele próprio talvez não saiba ainda. Um rei precisa de um herdeiro.
A garota sorriu ao ouvir aquilo.
– Minha mãe diz o mesmo. Ela faz uma poção para mim, com ervas, leite e cerveja, para ajudar a me tornar fértil. Bebo todas as manhãs. Disse a Robb que tenho certeza de que vou lhe dar gêmeos. Um Eddard e um Brandon. Ele gostou da ideia, acho eu. Nós... nós tentamos quase todos os dias, senhora. Certos dias duas vezes ou mais. – A garota corou de uma forma encantadora. – Vou esperar um bebê em breve, prometo. Rezo à nossa Mãe no Céu todas as noites.
– Muito bem. Juntarei também as minhas preces. Aos velhos deuses e aos novos.
Depois que a garota saiu, Catelyn voltou para junto do pai e alisou os finos cabelos brancos por cima da testa.
– Um Eddard e um Brandon – suspirou em voz baixa. – E talvez, a seu tempo, um Hoster. Gostaria disso? – ele não respondeu, mas ela nunca tinha esperado que respondesse. Enquanto o som da chuva no telhado se misturava com a respiração do pai, pensou em Jeyne. A garota realmente parecia ter bom coração, como Robb dissera. E boas ancas, o que pode vir a ser mais importante.
Jaime
Há dois dias de viagem, para ambos os lados da estrada do rei, entraram numa larga faixa de destruição, quilômetros de campos e pomares enegrecidos, onde os troncos de árvores mortas se projetavam para o ar como postes de arqueiro. As pontes também estavam queimadas, e os riachos seguiam cheios pelas chuvas do outono, de modo que tinham de patrulhar as margens em busca de vaus. As noites estremeciam com os uivos dos lobos, mas não viam ninguém.
Em Lagoa da Donzela, o salmão vermelho de Lorde Mooton ainda flutuava sobre o castelo em sua colina, mas as muralhas da vila encontravam-se desertas, os portões, derrubados, metade das casas e lojas, incendiada ou saqueada. Não viram nenhum ser vivo exceto um punhado de cães selvagens, que escapuliram ao ouvir sua aproximação. A lagoa que deu à vila seu nome, onde a lenda dizia que Florian, o Bobo, pela primeira vez vislumbrara Jonquil banhando-se com as irmãs, estava de tal maneira repleta de cadáveres em decomposição que a água se tranformara numa sopa escura, de cor cinza-esverdeada.
Jaime deu uma olhada e começou a cantar.
– Cinco donzelas havia numa lagoa de nascente...
– O que está fazendo? – quis saber Brienne.
– Estou cantando “Seis donzelas na lagoa”, certamente já ouviu a canção. E que donzelinhas tímidas elas eram. Muito parecidas com você. Embora um tanto mais belas, aposto.
– Silêncio – disse a moça, com um olhar que sugeria que adoraria deixá-lo flutuando na lagoa entre os cadáveres.
– Por favor, Jaime – suplicou o primo Cleos. – Lorde Mooton está juramentado a Correrrio, não queremos atrai-lo para fora de seu castelo. E pode haver outros inimigos escondidos nas ruínas...
– Inimigos dela ou nossos? Não são os mesmos, primo. Tenho um forte desejo de ver se a garota sabe usar aquela espada que transporta.
– Se não ficar em silêncio, não me deixa escolha a não ser amordaçá-lo, Regicida.
– Desacorrente minhas mãos, e eu brincarei de mudo até chegarmos a Porto Real. O que poderia ser mais justo do que isso, garota?
– Brienne! Meu nome é Brienne! – três corvos levantaram voo, assustados pelo ruído.
– Não quer tomar um banho, Brienne? – soltou uma gargalhada. – É uma donzela, e ali está a lagoa. Eu lavo suas costas. – Costumava esfregar as costas de Cersei, quando éramos crianças no Rochedo Casterly.
A garota virou a cabeça do cavalo e afastou-se a trote. Jaime e Sor Cleos seguiram-na para fora das cinzas de Lagoa da Donzela. Um quilômetro e meio adiante, o verde começou a voltar ao mundo. Jaime sentiu-se satisfeito. As terras queimadas faziam-lhe lembrar Aerys em excesso.
– Ela está seguindo a estrada de Valdocaso – murmurou Sor Cleos. – Seria mais seguro seguir pela costa.
– Mais seguro, mas mais lento. Eu sou favorável a Valdocaso, primo. Para falar a verdade, sua companhia aborrece-me. – Pode ser meio Lannister, mas não tem nada a ver com a minha irmã.
Nunca tinha conseguido suportar estar muito tempo separado de sua gêmea. Até quando crianças, costumavam enfiar-se nas camas um do outro e dormir de braços entrelaçados. Até no ventre. Muito antes de a irmã florescer ou do advento de sua própria masculinidade, tinham visto éguas e garanhões nos campos e cães e cadelas nos canis e brincado de fazer o mesmo. Uma vez, a aia da mãe pegou-os no ato... não se lembrava bem do que estavam fazendo, mas, fosse o que fosse, havia horrorizado a Senhora Joanna. Ela mandou a aia embora, mudou o quarto de Jaime para o outro lado de Rochedo Casterly, colocou um guarda à porta do de Cersei e disse-lhes que não podiam voltar a fazer aquilo nunca mais, caso contrário não teria alternativa e seria obrigada a contar ao senhor pai deles. Mas não precisariam ter medo. Aquilo fora um pouco antes de ela morrer ao dar à luz Tyrion. Jaime quase nem se lembrava do rosto da mãe.
Stannis Baratheon e os Stark talvez lhe tivessem feito um favor. Tinham espalhado a sua história de incesto por todos os Sete Reinos, portanto nada mais havia a esconder. Por que não devo me casar abertamente com Cersei e dividir a cama com ela todas as noites? Os dragões sempre se casavam com as irmãs. Septões, senhores e povo tinham fechado os olhos aos Targaryen durante centenas de anos, que fizessem o mesmo com a Casa Lannister. Certamente devastaria a pretensão de Joffrey ao trono, mas no fim das contas tinham sido as espadas que conquistaram o Trono de Ferro para Robert, e espadas também podiam manter Joffrey lá, independente de que semente havia lhe dado origem. Poderíamos casá-lo com Myrcella, depois de enviarmos Sansa Stark de volta à mãe. Isso mostraria ao reino que os Lannister estão acima das leis deles, tal como os deuses e os Targaryen.