– Parem, ele não deve ser ferido! Foi a Senhora Catelyn que nos enviou, uma troca de cativos, ele está sob a minha proteção... – Rorge bateu outra vez nele, arrancando-lhe o ar dos pulmões. Brienne mergulhou em busca da espada que estava sob as águas do riacho, mas os Saltimbancos caíram sobre ela antes que conseguisse alcançar a arma. Forte como era, foram precisos quatro para espancá-la até deixá-la submissa.
No fim, o rosto da moça ficou tão inchado e ensanguentado quanto o de Jaime devia estar, e tinham quebrado dois de seus dentes. Isso em nada contribuiu para melhorar sua aparência. Tropeçando e sangrando, os dois prisioneiros foram arrastados pela floresta até os cavalos, com Brienne mancando do ferimento na coxa que Jaime lhe causara no riacho. Ele sentiu pena da garota. Não tinha dúvidas de que Brienne perderia a virgindade naquela noite. Aquele canalha sem nariz iria possuí-la com certeza, e era provável que alguns dos outros também esperassem a sua vez.
O dornês amarrou-os costas com costas em cima do cavalo de tração de Brienne, enquanto os outros Saltimbancos despiam Cleos Frey até a pele e dividiam entre si as suas posses. Rorge ganhou o sobretudo manchado de sangue, com seus orgulhosos quartos Lannister e Frey. As flechas tinham aberto buracos tanto nos leões como nas torres.
– Espero que esteja satisfeita, garota – murmurou Jaime a Brienne. Tossiu e cuspiu um punhado de sangue. – Se tivesse me armado, nunca teríamos sido capturados. – Ela não respondeu. É uma cadela teimosa que nem uma mula, pensou. Mas valente, sim. Não podia negar isso. – Quando acamparmos para a noite, você será estuprada, e mais de uma vez – preveniu-a. – Seria sensato não resistir. Se resistir, perderá mais do que alguns dentes.
Sentiu as costas de Brienne retesarem contra as suas.
– Seria isso que você faria, se fosse uma mulher?
Se eu fosse uma mulher, seria Cersei.
– Se eu fosse uma mulher, iria obrigá-los a me matar. Mas não sou. – Jaime induziu o cavalo deles a trote. – Urswyck! Uma palavrinha!
O mercenário cadavérico com o manto de couro esfarrapado puxou as rédeas por um momento, e depois pôs-se a seu lado.
– O que quer de mim, sor? E tenha cuidado com a língua, senão voltarei a dar um corretivo em você.
– Ouro – disse Jaime. – Gosta de ouro?
Urswyck estudou-o através de olhos avermelhados.
– Tem os seus usos, confesso.
Jaime dirigiu a Urswyck um sorriso astuto.
– Todo o ouro em Rochedo Casterly. Por que deixar que seja o bode quem se beneficiará dele? Por que não nos leva a Porto Real e recolhe você mesmo o meu resgate? O dela também, se quiser. Uma donzela disse-me que chamam Tarth de Ilha Safira. – A mulher contorceu-se ao ouvir aquilo, mas nada disse.
– Toma-me por um vira-casaca?
– É claro. Que outra coisa seria?
Urswyck pesou a proposta durante meio segundo.
– Porto Real fica muito longe, e seu pai está lá. Lorde Tywin pode nutrir ressentimentos por nós, por termos vendido Harrenhal ao Lorde Bolton.
Ele é mais esperto do que parece. Jaime tinha acalentado a esperança de enforcar o desgraçado assim que seus bolsos estivessem repletos de ouro.
– Deixe o meu pai comigo. Arranjo um perdão régio por quaisquer crimes que tenha cometido. Arranjo um grau de cavaleiro para você.
– Sor Urswyck – disse o homem, saboreando o som. – Como a minha querida esposa ficaria orgulhosa de ouvir isso. Se ao menos eu não a tivesse matado. – Suspirou. – Então, e o bravo Lorde Vargo?
– Deverei cantar um verso de “As chuvas de Castamere” para você? O bode não será assim tão bravo quando meu pai puser as mãos nele.
– E como ele fará tal coisa? Serão os braços de seu pai tão compridos que conseguem passar por cima das muralhas de Harrenhal e arrancar-nos de lá?
– Se for necessário. – A monstruosa loucura do Rei Harren já tinha caído antes, e poderia voltar a cair. – É tão estúpido que acredita que o bode pode vencer o leão?
Urswyck debruçou-se e deu-lhe um tabefe indolente no rosto. A pura insolência casual do gesto foi pior do que o golpe em si. Ele não tem medo de mim, compreendeu Jaime, com um arrepio.
– Já ouvi o bastante, Regicida. Teria de ser realmente um grande idiota para acreditar nas promessas de um perjuro como você. – Esporeou o cavalo e galopou vivamente em frente.
Aerys, pensou Jaime com ressentimento. Acaba sempre chegando em Aerys. Balançava com os movimentos do cavalo, desejando uma espada. Duas espadas seria ainda melhor. Uma para a garota e uma para mim. Morreríamos, mas levaríamos metade deles para o inferno conosco.
– Por que lhe disse que Tarth era a Ilha Safira? – murmurou Brienne quando Urswyck não podia mais ouvi-la. – É provável que pense que meu pai é rico em pedras preciosas...
– É melhor que reze para que ele pense assim.
– Todas as palavras que você diz são mentiras, Regicida? Tarth é chamada de Ilha Safira devido ao azul de suas águas.
– Grite um pouco mais alto, garota, acho que Urswyck não ouviu. Quanto mais depressa souberem o pouco que vale de resgate, mais depressa o estupro começa. Todos os homens que aqui estão irão montar em você, mas que importa? Basta fechar os olhos, abrir as pernas e fingir que todos eles são Lorde Renly.
Misericordiosamente, aquilo fechou a boca dela durante algum tempo.
O dia tinha quase chegado ao fim quando encontraram Vargo Hoat, que saqueava um pequeno septo com mais uma dúzia de seus Bravos Companheiros. As janelas de vitral tinham sido quebradas e os deuses de madeira esculpida arrastados para a luz do sol. O mais gordo dothraki que Jaime vira na vida estava sentado sobre o peito da Mãe quando se aproximaram, arrancando seus olhos de calcedônia com a ponta da faca. Ali perto, um septão magricela e perdendo o cabelo pendia, de pernas para o ar, de um galho de um grande castanheiro. Três dos Bravos Companheiros estavam usando seu cadáver como alvo de tiro com arco. Um deles devia ser bom; o morto tinha flechas espetadas em ambos os olhos.
Quando os mercenários viram Urswyck e os prisioneiros, soou um grito em meia dúzia de línguas. O bode estava sentado junto a uma fogueira, comendo uma ave meio assada que tinha num espeto, com gordura e sangue escorrendo por seus dedos e sua longa barba filamentosa. Limpou as mãos na túnica e levantou-se.
– Regifida – babou. – Vofê é meu catifo.
– Senhor, sou Brienne de Tarth – gritou a garota. – A Senhora Catelyn Stark ordenou-me que entregasse Sor Jaime ao irmão dele em Porto Real.
O bode lançou-lhe um olhar desinteressado.
– Filenfiem-na.
– Escute-me – rogou Brienne enquanto Rorge cortava as cordas que a ligavam a Jaime –, em nome do Rei no Norte, o rei que você serve, por favor, escute...
Rorge arrastou-a de cima do cavalo e começou a chutá-la.
– Veja se não quebra nenhum osso – gritou-lhe Urswyck. – A cadela com cara de cavalo vale o próprio peso em safiras.
O dornês Timeon e um ibbenês malcheiroso puxaram Jaime de cima da sela e empurraram-no rudemente na direção da fogueira. Não lhe teria sido difícil agarrar num dos punhos de suas espadas enquanto o maltratavam, mas os mercenários eram muitos e Jaime continuava acorrentado. Poderia abater um ou dois, mas no fim morreria por isso. Jaime ainda não estava pronto para morrer, especialmente por alguém como Brienne de Tarth.
– Efte é um dia effelente – disse Vargo Hoat. Em seu pescoço havia uma corrente de moedas interligadas, moedas de todas as formas e tamanhos, cunhadas e esculpidas, ostentando retratos de reis, feiticeiros, deuses e demônios, e de todos os tipos de animais fantasiosos.
Moedas de todas as terras onde lutou, recordou Jaime. A cobiça era a chave para aquele homem. Se ele mudou de lado uma vez, pode mudar de novo.