– Só a cantei daquela vez – protestou Tom. – E quem disse que a canção era sobre ele? Era sobre um peixe.
– Um peixe murcho – disse Anguy, rindo.
Arya não queria saber sobre o que eram as estúpidas canções de Tom. Virou-se para Harwin.
– O que ele quis dizer com aquilo do resgate?
– Temos uma grande falta de cavalos, senhora. E também de armaduras. Espadas, escudos, lanças. Tudo aquilo que as moedas podem comprar. Sim, e sementes para plantar. O inverno está chegando, lembra? – tocou-lhe sob o queixo. – Não será a primeira cativa de elevado nascimento que resgatamos. Nem a última, espero eu.
Arya sabia que aquilo era verdade. Os cavaleiros andavam sempre sendo capturados e resgatados, e às vezes as mulheres também. Mas e se Robb não quiser pagar o preço deles? Ela não era nenhum cavaleiro famoso, e era de esperar que os reis colocassem o reino à frente das irmãs. E a senhora sua mãe, o que diria? Ainda a quereria de volta, depois de todas as coisas que havia feito? Arya mordeu o lábio e desejou saber.
No dia seguinte chegaram a um local chamado Coração Alto, um monte tão elevado que de seu cume parecia a Arya que era possível ver metade do mundo. Em volta desse cume havia um anel de enormes tocos brancos, tudo que restava de um círculo de majestosos represeiros. Arya e Gendry caminharam em volta do monte para contá-los. Havia trinta e um, e alguns eram tão largos que poderiam tê-los usado como cama.
O Coração Alto fora sagrado para os filhos da floresta, contou-lhe Tom Sete-Cordas, e parte de sua magia permanecia no local.
– Nenhum mal pode acontecer àqueles que aqui dormem – disse o cantor.
Arya pensou que devia ser verdade; o monte era tão alto e as terras que o cercavam eram tão planas que nenhum inimigo poderia se aproximar sem ser visto.
Tom disse-lhe que o povo das redondezas evitava o lugar; dizia-se que estava assombrado pelos fantasmas dos filhos da floresta que tinham morrido ali quando o rei ândalo chamado Errog, o Fratricida, derrubou o seu bosque. Arya sabia algo sobre os filhos da floresta e também sobre os ândalos, mas fantasmas não a assustavam. Quando era pequena, costumava esconder-se nas criptas de Winterfell e brincava de entra-no-meu-castelo e de monstros entre os reis de pedra sentados em seus tronos.
Mesmo assim, seus cabelos da nuca se arrepiaram naquela noite. Estava dormindo, mas a tempestade acordou-a. O vento arrancou a manta de cima dela e soprou-a, rodopiando, para os arbustos. Quando foi atrás dela, ouviu vozes.
Junto às brasas da fogueira, viu Tom, Limo e Barba-Verde conversando com uma mulherzinha minúscula, uns trinta centímetros mais baixa do que Arya e mais velha do que a Velha Ama, toda corcunda e enrugada, apoiada em uma bengala nodosa e negra. Seus cabelos brancos quase chegavam ao chão de tão longos e esvoaçavam em volta de sua cabeça como uma nuvem quando o vento soprava. A pele era ainda mais branca, da cor do leite, e pareceu a Arya que seus olhos eram vermelhos, embora fosse difícil ter certeza do meio dos arbustos.
– Os velhos deuses movimentam-se e não querem me deixar dormir – ouviu a mulher dizer. – Sonhei ver uma sombra com um coração em chamas matando um veado dourado, sim. Sonhei com um homem sem rosto, à espera numa ponte que oscilava e balançava. Em seu ombro estava empoleirado um corvo afogado, com algas penduradas nas asas. Sonhei com um rio rugindo e uma mulher que era um peixe. Estava à deriva, morta, com lágrimas vermelhas nas faces, mas quando seus olhos se abriram, oh, acordei aterrorizada. Tudo isso sonhei, e mais ainda. Têm presentes para mim, para me pagar pelos sonhos?
– Sonhos – resmungou Limo Manto Limão –, de que servem os sonhos? Mulheres-peixe e corvos afogados. Eu também tive um sonho na noite passada. Estava beijando uma moça de taberna que conheci. Vai me pagar por isso, velha?
– A moça está morta – sibilou a mulher. – Só os vermes podem beijá-la agora. – E depois disse a Tom Sete-Cordas: – Quero a minha canção, caso contrário quero vocês fora daqui.
E assim o cantor tocou para ela, uma canção muito suave e triste, mas Arya só ouviu fragmentos das palavras, embora a melodia lhe fosse vagamente familiar. Sansa iria reconhecê-la, aposto. A irmã conhecia todas as canções, e até sabia tocar um pouco, e cantava com toda a doçura. Tudo que eu consegui alguma vez fazer foi gritar as palavras.
Na manhã seguinte, não se via a pequena mulher branca em lugar algum. Enquanto selavam os cavalos, Arya perguntou a Tom Sete-Cordas se os filhos da floresta ainda habitavam o Coração Alto. O cantor soltou um risinho.
– Você a viu, foi?
– Era um fantasma?
– Os fantasmas reclamam de como as suas articulações rangem? Não, ela é só uma velha anã. Mas é estranha, e tem olhos diabólicos. E sabe coisas que não devia saber, e às vezes nos diz se gosta de nosso aspecto.
– Ela gostou do seu aspecto? – perguntou Arya de modo duvidoso.
O cantor riu.
– Pelo menos gostou do meu som. Mas obriga-me a cantar sempre a mesma maldita canção. Não é ruim, veja bem, mas conheço outras que são igualmente boas. – Balançou a cabeça. – O que importa é que agora temos o cheiro. Aposto que em breve irá ver Thoros e o senhor do relâmpago.
– Se são homens deles, por que se escondem de vocês?
Tom Sete-Cordas rolou os olhos ao ouvir aquilo, mas Harwin deu-lhe uma resposta.
– Eu não chamaria isso de esconder, senhora, mas é verdade, Lorde Beric desloca-se muito e raramente revela seus planos. Assim, ninguém pode traí-lo. A essa altura, nós, os homens que lhe prestamos juramento, devemos ser centenas, talvez milhares, mas não seria bom se andássemos todos atrás dele. Deixaríamos os campos nus para nos alimentarmos, ou seríamos massacrados numa batalha por alguma tropa maior. Da maneira como estamos espalhados em pequenos bandos, podemos atacar uma dúzia de locais ao mesmo tempo, e partir para qualquer outro antes que eles saibam o que aconteceu. E quando um de nós é pego e levado a interrogatório, bem, não lhes pode dizer onde encontrar Lorde Beric, façam eles o que fizerem. – Hesitou. – Sabe o que significa ser levado a interrogatório?
Arya assentiu com a cabeça.
– Chamavam isso de fazer cócegas. O Polliver, o Raff e os outros. – Contou-lhes tudo sobre a aldeia nas margens do Olho de Deus onde ela e Gendry tinham sido capturados e sobre as perguntas que Cócegas fazia. “Há ouro escondido na aldeia?”, era sempre como começava. “Prata, pedras preciosas? Há comida? Onde está Lorde Beric? Quais dos habitantes da aldeia o ajudaram? Para onde foi? Quantos homens estavam com ele? Quantos cavaleiros? Quantos arqueiros? Quantos estavam montados? Como estavam armados? Quantos feridos? Para onde disse que foram?” Só de pensar naquilo conseguia ouvir de novo os gritos, e sentir o fedor de sangue, merda e carne queimada. – Ele fazia sempre as mesmas perguntas – disse solenemente aos fora da lei –, mas todos os dias mudava a forma de fazer cócegas.
– Nenhuma criança devia ser obrigada a aguentar isso – disse Harwin quando ela terminou. – Ouvimos dizer que a Montanha perdeu metade de seus homens no Moinho de Pedra. Pode ser que esse Cócegas agora esteja flutuando Ramo Vermelho abaixo, com peixes mordiscando sua cara. Se não, bem, é mais um crime pelo qual hão de responder. Ouvi sua senhoria dizer que esta guerra começou quando a Mão lhe ordenou que levasse a justiça do rei a Gregor Clegane, e é assim que pretende que termine. – Deu-lhe uma palmadinha de encorajamento no ombro. – É melhor que monte, senhora. É um longo dia de viagem até o Solar de Bolotas, mas quando terminarmos teremos um teto sobre nossa cabeça e sopa quente na barriga.
E foi um longo dia de viagem, mas ao anoitecer vadearam um riacho e chegaram ao Solar de Bolotas, com suas muralhas exteriores de pedra e a grande fortaleza de carvalho. Seu senhor andava longe, lutando na companhia do senhor dele, Lorde Vance, e deixara os portões do castelo fechados e trancados em sua ausência. Mas a senhora sua esposa era uma velha amiga de Tom Sete-Cordas, e Anguy dizia que um dia tinham sido amantes. Anguy viajava com frequência ao lado de Arya; de todos, era quem mais se aproximava de sua idade, salvo Gendry, e contava-lhe histórias engraçadas sobre a Marca de Dorne. Mas nunca a enganou. Ele não é meu amigo. Só fica por perto para me vigiar e certificar-se de que não voltarei a fugir. Bem, Arya também sabia vigiar. Syrio Forel ensinara-lhe a fazer isso.