A Senhora Smallwood deu as boas-vindas aos fora da lei com bastante gentileza, embora lhes tenha dado um sermão por arrastarem uma garotinha pela guerra. Ficou mais irada ainda quando Limo deixou escapar que Arya era bem-nascida.
– Quem vestiu a pobre criança com esses farrapos dos Bolton? – exigiu saber. – Esse símbolo... há muitos homens que a enforcariam em meio segundo por usar um homem esfolado no peito. – Arya foi prontamente levada para cima, forçada a entrar numa banheira, e mergulhada em água escaldante. As aias da Senhora Smallwood esfregaram-na com tanta força que Arya se sentiu como se elas a estivessem esfolando. Até derramaram uma coisa qualquer com um fedor adocicado de flores.
E depois, insistiram para que se vestisse com coisas de menina, meias marrons de lã, uma combinação leve de linho e, por cima disso, um vestido verde-claro com bolotas bordadas em fio castanho por todo o corpete, e mais bolotas ao longo da bainha da saia.
– Minha tia-avó é septã num convento em Vilavelha – disse a Senhora Smallwood enquanto as mulheres atavam o vestido ao longo das costas de Arya. – Mandei minha filha para lá quando a guerra começou. Quando voltar, certamente já estará grande demais para usar essas coisas. Gosta de dançar, filha? A minha Carellen é uma ótima dançarina. Também canta lindamente. O que é que você gosta de fazer?
Arya arrastou os pés nas esteiras.
– Trabalhos de agulha.
– São muito relaxantes, não são?
– Bem – disse Arya –, da maneira como eu os faço, não.
– Não? Sempre os achei relaxantes. Os deuses oferecem a cada uma de nós pequenos dons e talentos, e é sua intenção que os usemos, diz sempre a minha tia. Qualquer ato pode ser uma prece, se for desempenhado tão bem quanto formos capazes. Não é um pensamento adorável? Lembre-se dele da próxima vez que trabalhar com a agulha. Trabalha todos os dias?
– Trabalhava até perder a Agulha. A nova não é tão boa.
– Em tempos como estes, todos temos de nos arranjar o melhor possível. – A Senhora Smallwood ajeitou o corpete do vestido. – Agora já parece uma jovem senhora como deve ser.
Não sou uma senhora, Arya quis lhe dizer, sou uma loba.
– Não sei quem você é, filha – disse a mulher –, e talvez ainda bem que não saiba. Alguém importante, temo. – Alisou o colarinho de Arya. – Em tempos como estes, é melhor ser insignificante. Bem que gostaria de poder ficar com você aqui. Mas não seria seguro. Tenho muralhas, mas homens insuficientes para defendê-las. – Suspirou.
O jantar estava sendo servido no salão quando Arya entrou, toda lavada, penteada e vestida. Gendry deu uma olhada e riu tanto que o vinho saiu por seu nariz, até que Harwin lhe deu uma forte palmada na orelha. A refeição foi simples, mas nutritiva; carneiro e cogumelos, pão escuro, purê de ervilhas e maçãs cozidas com queijo amarelo. Depois da refeição e de os criados terem sido mandados embora, Barba-Verde baixou a voz para perguntar se sua senhoria teria notícias do senhor do relâmpago.
– Notícias? – ela sorriu. – Estiveram aqui não faz nem quinze dias. Eles e mais uma dúzia, pastoreando ovelhas. Quase não acreditei nos meus olhos. Thoros deu-me três em agradecimento. Comemos uma esta noite.
– Thoros pastoreando ovelhas? – Anguy soltou uma gargalhada.
– Admito que foi uma estranha visão, mas Thoros afirmou que, sendo sacerdote, sabia como cuidar de um rebanho.
– Sim, e como tosquiá-lo também – gracejou Limo Manto Limão.
– Alguém podia fazer disso uma canção, e das boas. – Tom fez vibrar uma corda em sua harpa.
A Senhora Smallwood lançou-lhe um olhar fulminante.
– Talvez alguém que não rime bombom com Dondarrion. Ou que não toque “Oh, deite minha doce menina na relva” para todas as amas de leite do condado, deixando duas delas com grandes barrigas.
– Foi “Deixe-me beber a sua beleza” – disse defensivamente Tom – e as amas de leite sempre ficam felizes por ouvi-la. Tal como uma certa senhora de elevado nascimento de que eu bem me lembro. Toco para agradar.
As narinas dela dilataram-se.
– As terras fluviais estão cheias de donzelas a quem agradou, todas elas bebendo chá de tanásia. Seria de se imaginar que um homem com a sua idade já soubesse como não derramar a semente em suas barrigas. Daqui a pouco, os homens vão chamá-lo de Tom Sete-Filhos.
– Acontece – disse Tom – que já passei de sete há muitos anos. E que belos rapazes são, com vozes belas como a do rouxinol. – Era claro que o assunto não lhe interessava.
– Sua senhoria disse para onde se dirigia, senhora? – perguntou Harwin.
– Lorde Beric nunca divulga seus planos, mas reina a fome perto do Septo de Pedra e do Bosque de Três Dinheiros. Eu iria procurá-lo aí. – Bebeu um gole de vinho. – É melhor que saiba que também tive visitantes menos agradáveis. Uma matilha de lobos veio uivar em volta de meus portões, achando que eu poderia ter aqui o Jaime Lannister.
Tom parou de dedilhar a harpa.
– Então é verdade? O Regicida anda de novo à solta?
A Senhora Smallwood deu-lhe um olhar de escárnio.
– Não me parece que andariam à caça dele se estivesse acorrentado por baixo de Correrrio.
– O que foi que a senhora lhes disse? – perguntou Jack Sortudo.
– Ora, que Sor Jaime estava nu na minha cama, mas que o tinha deixado exausto demais para descer. Um deles teve o desplante de me chamar de mentirosa, portanto pusemo-los para andar com uma meia dúzia de dardos. Acho que seguiram para Volta de Fundonegro.
Arya agitou-se impacientemente no banco.
– Que nortenhos eram esses que vieram à procura do Regicida?
A Senhora Smallwood pareceu surpreendida por ela intervir.
– Não me disseram os nomes, filha, mas vinham vestidos de preto, com um sol branco no peito.
Um sol branco sobre negro era o símbolo de Lorde Karstark, pensou Arya. Aqueles eram homens de Robb. Perguntou a si mesma se ainda andariam por perto. Se conseguisse escapulir dos fora da lei e encontrá-los, talvez a levassem à mãe em Correrrio...
– Disseram como foi que o Lannister conseguiu escapar? – perguntou Limo.
– Disseram – disse a Senhora Smallwood. – Não que eu acredite numa palavra sequer. Afirmaram que a Senhora Catelyn o libertou.
Aquilo surpreendeu tanto Tom que ele estourou uma corda.
– Até parece – disse ele. – Isso é uma loucura.
Não é verdade, pensou Arya. Não pode ser verdade.
– Pensei o mesmo – disse a Senhora Smallwood.
Foi então que Harwyn se lembrou de Arya.
– Esta conversa não é para os seus ouvidos, senhora.
– Não, eu quero ouvir.
Os fora da lei mostraram-se inflexíveis.
– Vá embora, esquilinho magricela – disse Barba-Verde. – Seja uma boa senhorinha e vá brincar no pátio enquanto nós conversamos.
Arya saiu a passos largos, zangada, e teria batido a porta se não fosse tão pesada. A escuridão havia caído sobre o Solar de Bolotas. Algumas tochas ardiam ao longo das muralhas, mas era tudo. Os portões do pequeno castelo encontravam-se fechados e trancados. Sabia que prometera a Harwin que não tentaria fugir novamente, mas isso tinha sido antes de começarem a contar mentiras sobre sua mãe.
– Arya? – Gendry tinha seguido a menina para fora. – A Senhora Smallwood disse que havia uma forja. Quer ir dar uma olhada?