– Se quiser. – Não tinha mais nada para fazer.
– Esse Thoros – disse Gendry enquanto passavam pelos canis – é o mesmo Thoros que vivia no castelo em Porto Real? Um sacerdote vermelho, gordo, com a cabeça raspada?
– Acho que sim. – Que se lembrasse, Arya nunca tinha falado com Thoros em Porto Real, mas sabia quem ele era. Ele e Jalabhar Xho tinham sido as personagens mais coloridas na corte de Robert, e Thoros era também um grande amigo do rei.
– Ele não vai se lembrar de mim, mas costumava vir à nossa forja. – A dos Smallwood já não era usada havia algum tempo, embora o ferreiro tivesse pendurado as ferramentas ordenadamente na parede. Gendry acendeu uma vela e apoiou-a na bigorna enquanto pegava um par de tenazes. – Meu mestre o repreendia sempre por causa das espadas em chamas. Não eram modos de tratar bom aço, dizia ele, mas esse Thoros nunca usava bom aço. Limitava-se a mergulhar uma espada barata qualquer em fogovivo e incendiava-a. Era só um truque de alquimista, dizia meu mestre, mas assustava os cavalos e alguns dos cavaleiros mais verdes.
Arya contraiu a testa, tentando recordar se o pai alguma vez falara em Thoros.
– Ele não é muito sacerdotal, não é?
– Não – admitiu Gendry. – Meistre Mott dizia que Thoros até conseguia beber mais do que o Rei Robert. Eram farinha do mesmo saco, disse-me ele, ambos glutões e bêbados.
– Não devia chamar o rei de bêbado. – O Rei Robert talvez costumasse beber muito, mas fora amigo do pai de Arya.
– Estava falando de Thoros. – Gendry estendeu as tenazes como que para agarrar o rosto dela, mas Arya afastou-as com uma pancada. – Ele gostava de banquetes e torneios, por isso é que o Rei Robert era tão amigo dele. E era um homem de coragem. Quando as muralhas de Pyke ruíram, foi o primeiro a atravessar a brecha. Lutou com uma de suas espadas flamejantes, incendiando homens de ferro a cada golpe.
– Gostaria de ter uma espada flamejante. – Arya conseguia se lembrar de montes de gente em que gostaria de atear fogo.
– É só um truque, já lhe disse. O fogovivo estraga o aço. Meu mestre vendia a Thoros uma espada nova depois de cada torneio. E tinham sempre uma discussão sobre o preço. – Gendry voltou a pendurar as tenazes e pegou o martelo pesado. – Mestre Mott dizia que era hora de eu fazer a minha primeira espada longa. Deu-me um belo pedaço de aço, e eu sabia exatamente que forma queria dar à lâmina. Mas o Yoren veio e levou-me para a Patrulha da Noite.
– Ainda pode fazer espadas, se quiser – disse Arya. – Pode fazê-las para o meu irmão Robb, quando chegarmos a Correrrio.
– Correrrio. – Gendry apoiou o martelo e olhou-a. – Você agora parece diferente. Como uma menina de verdade.
– Pareço um carvalho, com todas estas bolotas estúpidas.
– Mas bonito. Um carvalho bonito. – Aproximou-se um passo e farejou-a. – Até cheira bem, para variar.
– Você, não. Você fede. – Arya empurrou-o contra a bigorna e tentou fugir, mas Gendry segurou-a pelo braço. Ela enfiou um pé entre as suas pernas e passou-lhe uma rasteira, mas ele puxou-a ao cair, e rolaram pelo chão da forja. Ele era muito forte, mas ela era mais rápida. Todas as vezes que ele tentava dominá-la, ela libertava-se com uma contorção e dava um murro nele. Gendry limitava-se a rir dos golpes, e isso deixava-a furiosa. Por fim, ele pegou ambos os pulsos dela com uma mão e começou a fazer-lhe cócegas com a outra, e Arya enfiou o joelho entre as pernas dele e libertou-se. Ambos estavam cobertos de sujeira, e o estúpido vestido de bolotas tinha uma manga rasgada.
– Aposto que agora já não estou tão bonita – gritou ela.
Tom estava cantando quando voltaram ao salão.
Harwin deu um olhar de relance para eles e estourou em gargalhadas, e Anguy deu um de seus estúpidos sorrisos sardentos e disse:
– Temos certeza de que esta é uma senhora bem-nascida?
Limo Manto Limão deu um cascudo na cabeça de Gendry.
– Se quer lutar, lute comigo! Ela é uma menina, e tem metade de sua idade! Mantenha essas mãos longe dela, ouviu?
– Fui eu que comecei – disse Arya. – Gendry estava só conversando.
– Deixe o moço, Limo – disse Harwin. – Foi mesmo ela quem começou, não duvido. Era a mesma coisa em Winterfell.
Tom piscou o olho para ela e cantou:
– Não tenho trajes de folhas – disse a Senhora Smallwood, com um pequeno sorriso simpático –, mas Carellen deixou aqui mais alguns vestidos que podem servir. Venha, filha, vamos lá em cima ver o que encontramos.
Foi ainda pior do que antes; a Senhora Smallwood insistiu que Arya tomasse outro banho, e também que cortasse e escovasse os cabelos; o vestido em que a enfiou daquela vez era de uma cor parecida com lilás, e decorado com pequenas perolazinhas. A única coisa boa era ser tão delicado que ninguém podia esperar que Arya montasse a cavalo com ele. Por isso, na manhã seguinte, enquanto quebravam o jejum, a Senhora Smallwood deu-lhe calções, cinto e túnica para vestir, e um gibão marrom de pele de veado com rebites de ferro.
– Eram coisas de meu filho – disse ela. – Morreu com sete anos.
– Lamento, senhora. – Arya subitamente sentiu-se envergonhada e com pena dela. – Também lamento ter rasgado o vestido das bolotas. Era bonito.
– Sim, filha. E você também é. Seja corajosa.
Daenerys
No centro da Praça do Orgulho havia uma fonte de tijolo vermelho cujas águas cheiravam a enxofre, e no meio da fonte erguia-se uma monstruosa harpia feita de bronze martelado. Empinava-se até seis metros de altura. Tinha rosto de mulher, com cabelos dourados, olhos de marfim e dentes pontiagudos também de marfim. A água jorrava amarela de seus seios pesados. Mas, no lugar dos braços, possuía as asas de um morcego ou dragão; suas pernas eram as de uma águia, e atrás tinha a cauda enrolada e venenosa de um escorpião.
A harpia de Ghis, pensou Dany. A Velha Ghis caíra havia cinco mil anos, se bem se lembrava; suas legiões foram despedaçadas pelo poderio da jovem Valíria; suas muralhas de tijolo, arrasadas; suas ruas e seus edifícios, transformados em cinzas e brasas por fogo de dragão; os campos, semeados com sal, enxofre e crânios. Os deuses de Ghis estavam mortos, e seu povo também; aqueles astapori eram mestiços, dizia Sor Jorah. Até a língua ghiscari estava quase completamente esquecida; as cidades escravagistas falavam o Alto Valiriano de seus conquistadores, ou aquilo em que o tinham transformado.
Mas o símbolo do Velho Império ainda resistia ali, embora aquele monstro de bronze tivesse uma pesada corrente pendurada das garras, com uma algema aberta em cada extremidade. A harpia de Ghis tinha um relâmpago nas garras. Esta é a harpia de Astapor.
– Diga à prostituta westerosi para baixar os olhos – resmungou o senhor de escravos Kraznys mo Nakloz para a jovem escrava que falava por ele. – Eu negocio carne, não metal. O bronze não está à venda. Diga-lhe para olhar para os soldados. Até os fracos olhos púrpuras de uma selvagem do poente são certamente capazes de ver como as minhas criaturas são magníficas.
O Alto Valiriano de Kraznys era tortuoso e carregado com o rosnado característico de Ghis e temperado aqui e ali com palavras de calão de feitor. Dany compreendia-o bastante bem, mas sorriu e olhou sem expressão para a escrava, como quem se interroga sobre o que ele teria dito.