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– O Bom Mestre Kraznys pergunta, não são magníficos? – a garota falava bem o Idioma Comum, para alguém que nunca estivera em Westeros. Com não mais de dez anos, tinha o rosto redondo e achatado, pele morena e olhos dourados de Naath. Chamavam seu povo de Povo Pacífico. Todos eram unânimes em afirmar que davam os melhores escravos.

– Podem ser adequados para as minhas necessidades – respondeu Dany. Tinha sido sugestão de Sor Jorah que ela falasse apenas em dothraki e no Idioma Comum enquanto estivesse em Astapor. O meu urso é mais esperto do que parece. – Fale-me de seu treinamento.

– Eles agradam à mulher westerosi, mas ela não os elogia, para manter o preço baixo – disse a tradutora ao seu dono. – Quer saber como foram treinados.

Kraznys mo Nakloz inclinou a cabeça. Aquele senhor de escravos cheirava como se tivesse tomado banho em framboesas, e sua protuberante barba vermelha e negra brilhava de óleo. Os seios dele são maiores do que os meus, refletiu Dany. Via-os através da seda verde-marinho do tokar debruado de ouro que ele trazia enrolado em volta do corpo e por cima de um ombro. A mão esquerda mantinha o tokar no lugar ao caminhar, enquanto a direita empunhava um curto chicote de couro.

– Todos os porcos westerosi são assim tão ignorantes? – protestou. – O mundo inteiro sabe que os Imaculados são mestres de lança, escudo e espada curta. – Dirigiu a Dany um largo sorriso. – Diga-lhe o que quer saber, escrava, e depressa. O dia está quente.

Isso, pelo menos, não é mentira nenhuma. Um par de jovens escravas encontrava-se atrás deles, segurando por cima de suas cabeças um toldo de seda riscado, mas, mesmo à sombra, Dany sentia-se um pouco tonta, e Kraznys transpirava abundantemente. A Praça do Orgulho cozia ao sol desde o nascer do dia. Dany conseguia sentir o calor dos tijolos vermelhos sob os pés mesmo através do solado de suas sandálias. Ondas de calor erguiam-se desses tijolos, estremecendo o ar e fazendo com que as pirâmides de degraus de Astapor que se erguiam ao redor da praça quase parecessem fazer parte de um sonho.

Se os Imaculados sentiam o calor, não mostravam qualquer sinal disso. Eles mesmos podiam ser feitos de tijolo, julgando pelo modo como estão ali. Um milhar tinha sido trazido das casernas para a sua inspeção; alinhados em dez formações de cem homens perante a fonte e a sua grande harpia de bronze, estavam rigidamente em sentido, com os olhos de pedra fixos à frente. Nada vestiam além de panos de linho branco atados na altura dos rins e elmos cônicos de bronze rematados por um espigão afiado com trinta centímetros de altura. Kraznys ordenara-lhes que apoiassem as lanças e os escudos no chão e despissem os cintos de espadas e as túnicas acolchoadas, para que a Rainha de Westeros pudesse inspecionar melhor a rigidez esguia de seus corpos.

– São escolhidos ainda jovens, pelo tamanho, rapidez e força – disse-lhe a escrava. – Iniciam o treinamento aos cinco anos. Treinam todos os dias, da alvorada ao pôr do sol, até dominarem a espada curta, o escudo e as três lanças. O treino é muito rigoroso, Vossa Graça. Só um garoto em três sobrevive a ele. Isso todos sabem. Entre os Imaculados diz-se que no dia em que ganham seu capacete de espigão o pior ficou para trás, pois nenhum dever que for atribuído a eles poderá ser tão duro quanto o treinamento.

Kraznys mo Nakloz, supostamente, não falava o Idioma Comum, mas balançava a cabeça enquanto escutava e de vez em quando empurrava a escrava com a ponta do chicote.

– Diga-lhe que aqueles estão ali em pé há um dia e uma noite, sem comida nem água. Diga-lhe que ficarão ali até caírem se eu lhes ordenar que o façam, e que quando novecentos e noventa e nove tiverem caído e morrido sobre os tijolos, o último ainda estará ali e não se moverá até que a própria morte o reclame. É assim a coragem deles. Diga-lhe isso.

– Eu chamo isso de loucura, não de coragem – disse Arstan Barba-Branca quando a solene pequena escriba terminou. Bateu com a ponta de seu bastão de madeira nos tijolos, tap tap, como que para afirmar seu descontentamento. O velho não quisera viajar até Astapor; tampouco era favorável à compra daquele exército de escravos. Uma rainha devia escutar todos os lados antes de tomar uma decisão. Era por isso que Dany o havia trazido consigo até a Praça do Orgulho, não para mantê-la em segurança. Seus companheiros de sangue fariam isso suficientemente bem. Deixara Sor Jorah Mormont a bordo do Balerion para proteger seu povo e seus dragões. Muito a contragosto, havia prendido os dragões no porão. Deixá-los voar livremente sobre a cidade era perigoso demais; o mundo estava repleto de homens que os matariam de bom grado por nenhum outro motivo além de poder se autodenominar matador de dragões.

– O que disse o velho fedorento? – perguntou o feitor à tradutora. Quando ela lhe disse, ele sorriu e falou: – Informe os selvagens de que chamamos isso de obediência. Outros podem ser mais fortes, mais rápidos ou maiores do que os Imaculados. Alguns, poucos, podem até igualar a sua perícia com a espada, a lança e o escudo. Mas em nenhum lugar entre os mares encontrarão alguém mais obediente.

– As ovelhas são obedientes – disse Arstan quando as palavras foram traduzidas. Ele também sabia algum valiriano, embora não tanto quanto Dany, mas, assim como ela, fingia ignorância.

Kraznys mo Nakloz mostrou seus grandes dentes brancos quando aquilo lhe foi transmitido.

– Uma palavra minha e aquelas ovelhas derramam as velhas tripas fedorentas dele nos tijolos – disse ele –, mas não lhe diga isso. Diga-lhes que estas criaturas são mais cães do que ovelhas. Eles comem cão ou cavalo lá nos Sete Reinos?

– Preferem porcos e vacas, excelência.

– Carne de vaca. Pfuá. Comida para selvagens que não se lavam.

Ignorando-os, Dany percorreu lentamente a fileira de soldados escravos. As mulheres seguiram-na de perto com o toldo de seda, para mantê-la à sombra, mas os mil homens à sua frente não desfrutavam de tal proteção. Mais da metade possuía pele acobreada e olhos amendoados dos dothraki e dos lhazarenos, mas Dany também viu nas fileiras homens das Cidades Livres, bem como qarthenos de pele clara, ilhéus de verão com rosto de ébano, e outros cuja origem não era capaz de adivinhar. E alguns tinham pele do mesmo tom de âmbar de Kraznys mo Nakloz, e os cabelos rijos vermelhos e negros que identificavam o antigo povo de Ghis, aqueles que chamavam a si mesmos de filhos da harpia. Até vendem os seus. Não a devia ter surpreendido. Os dothraki faziam o mesmo, quando khalasar se encontrava com khalasar no mar de erva.

Alguns dos soldados eram altos e outros, baixos. Dany calculou que as idades oscilariam entre os catorze e os vinte anos. Os rostos eram lisos, e os olhos todos iguais, fossem negros, castanhos, azuis, cinza ou ambarinos. São como um único homem, pensou, até se lembrar de que não eram homens coisa nenhuma. Os Imaculados eram eunucos, todos eles.

– Por que os cortam? – perguntou a Kraznys através da escrava. – Sempre ouvi dizer que homens inteiros são mais fortes do que eunucos.

– Um eunuco cortado ainda novo nunca terá a força bruta de um de seus cavaleiros westerosi, é verdade – disse Kraznys mo Nakloz quando a pergunta lhe foi colocada. – Um touro também é forte, mas touros morrem todos os dias nas arenas de luta. Uma menina de nove anos matou um há três dias na Arena de Jothiel. Os Imaculados têm algo melhor do que a força, diga-lhe. Têm disciplina. Lutamos à maneira do Velho Império, sim. São as legiões marchantes da Velha Ghis regressadas, absolutamente obedientes, absolutamente leais, e totalmente desprovidas de medo.