Dany sabia que seu rosto estava corado, mas na escuridão Irri certamente não conseguiria ver. Sem uma palavra, a aia pôs uma mão num seio dela e depois debruçou-se para tomar um mamilo na boca. A outra mão deslocou-se ao longo da suave curva da sua barriga, através do montículo de finos pelos prateados, e começou a trabalhar entre as coxas de Dany. Não passaram mais do que alguns momentos antes que as suas pernas se contorcessem, seus seios se elevassem e todo o seu corpo estremecesse. Então gritou. Ou talvez tivesse sido Drogon. Irri não chegou a dizer nada, limitou-se a enrolar-se e a voltar ao sono no momento em que o ato foi concluído.
No dia seguinte, tudo aquilo tinha parecido um sonho. E o que tinha Sor Jorah a ver com o assunto? É Drogo que eu desejo, o meu sol e estrelas, recordou Dany a si mesma. Não Irri, e não Sor Jorah, apenas Drogo. Mas Drogo estava morto. Julgara que aqueles sentimentos tivessem morrido com ele, ali no deserto vermelho, mas um beijo traiçoeiro os havia trazido de volta à vida sem que ela soubesse como. Ele nunca devia ter me beijado. Ousou demais, e eu deixei. Não pode nunca voltar a acontecer. Fez uma expressão sombria com a boca e sacudiu a cabeça, e a sineta em sua trança tilintou suavemente.
Mais perto da baía, a cidade apresentava uma aparência mais agradável. As grandes pirâmides de tijolo margeavam a costa, a maior tinha cento e vinte metros de altura. Todo tipo de árvores, trepadeiras e flores cresciam em seus largos terraços, e os ventos que rodopiavam em volta delas cheiravam a verde e a perfume. Outra harpia gigantesca erguia-se sobre o portão, esta era feita de argila vermelha cozida, e visivelmente se desfazia, não lhe restando mais do que um toco onde antes estivera a cauda de escorpião. A corrente que segurava com as garras de barro era ferro-velho, repleto de ferrugem. Mas, perto da água, estava mais fresco. O bater das ondas contra os pilares corroídos produzia um som curiosamente calmante.
Aggo ajudou Dany a descer da liteira. Belwas, o Forte, estava sentado num alto pilar, comendo um grande pedaço de carne assada.
– Cachorro – disse ele em tom alegre quando viu Dany. – Bom cachorro em Astapor, pequena rainha. Comer? – ofereceu com um sorriso gorduroso.
– É gentil de sua parte, Belwas, mas não. – Dany tinha comido cachorro em outros lugares, em outros tempos, mas naquele momento tudo em que conseguia pensar era nos Imaculados e em seus estúpidos filhotes. Passou rapidamente pelo enorme eunuco e subiu a prancha até o convés do Balerion.
Sor Jorah Mormont estava à sua espera.
– Vossa Graça – disse, baixando a cabeça. – Os feitores vieram e foram embora. Três, com uma dúzia de escribas e outros tantos escravos para os transportes. Percorreram cada centímetro de nossos porões e tomaram nota de tudo que possuímos. – Acompanhou-a até o fundo. – Quantos homens eles têm à venda?
– Nenhum. – Seria com Mormont que estava zangada, ou com aquela cidade e o seu obstinado calor, seus fedores, suores e tijolos em ruína? – Vendem eunucos, não homens. Eunucos feitos de tijolo, como o resto de Astapor. Devo comprar oito mil eunucos de tijolo com olhos mortos que nunca se movem, que matam bebês de peito por causa de um chapéu com um espigão e estrangulam os próprios cães? Nem sequer têm nomes. Portanto não os chame de homens, sor.
– Khaleesi – disse ele, surpreendido com a sua fúria –, os Imaculados são escolhidos ainda garotos e treinados...
– Já ouvi tudo que quero ouvir a respeito do treino. – Dany sentiu lágrimas jorrando de seus olhos, súbitas e indesejadas. Sua mão saltou e atingiu com força o rosto de Sor Jorah. Era isso ou gritar.
Mormont tocou a bochecha que ela havia estapeado.
– Se desagradei à minha rainha...
– Desagradou. Desagradou-me muito, sor. Se fosse meu cavaleiro leal, nunca teria me trazido a esta vil pocilga. – Se fosse meu leal cavaleiro, nunca teria me beijado, ou olhado meus seios como fez, ou...
– Às ordens de Vossa Graça. Direi ao Capitão Groleo que se prepare para zarpar na maré da noite, rumo a uma pocilga menos vil.
– Não – disse Dany. Groleo observava-os do castelo de proa, e sua tripulação também assistia. Barba-Branca, seus companheiros de sangue, Jhiqui, todos tinham parado o que estavam fazendo ao ouvir a bofetada. – Quero zarpar agora, e não na maré, quero navegar para longe e depressa e não olhar para trás. Mas não posso, não é? Há oito mil eunucos de tijolo à venda, e tenho que arranjar uma maneira de comprá-los. – E com aquilo o deixou e foi para baixo.
Atrás da porta de madeira esculpida da cabine do capitão, seus dragões estavam inquietos. Drogon ergueu a cabeça e soltou um grito, com fumaça clara saindo de suas narinas, e Viserion voou para ela e tentou se empoleirar em seu ombro, como fazia quando era menor.
– Não – disse Dany, tentando afastá-lo com suavidade. – Agora é grande demais para isso, querido. – Mas o dragão enrolou a sua cauda branca e dourada em volta de um braço e enterrou garras negras no tecido de sua manga, agarrando-se bem. Impotente, Dany afundou-se na grande cadeira de couro de Groleo, aos risinhos
– Estiveram agitados enquanto esteve fora, khaleesi – disse-lhe Irri. – Viserion arrancou lascas da porta com as garras, vê? E Drogon tentou escapar quando os feitores vieram vê-los. Quando agarrei sua cauda para detê-lo, ele se virou e me mordeu. – Mostrou a Dany as marcas dos dentes do dragão em sua mão.
– Algum deles tentou libertar-se pelo fogo? – isso era o que mais assustava Dany.
– Não, khaleesi. Drogon soltou seu fogo, mas para o ar. Os negociantes de escravos tiveram medo de se aproximar dele.
Beijou a mão de Irri no local onde Drogon a mordera.
– Sinto muito que ele a tenha machucado. Os dragões não foram feitos para ficar trancados numa pequena cabine de navio.
– Nisso, os dragões são como os cavalos – disse Irri. – E também como os cavaleiros. Os cavalos relincham lá embaixo, khaleesi, e dão coices nas paredes de madeira. Eu ouço. E Jhiqui diz que as velhas e os pequenos também gritam quando não está aqui. Não gostam desta carroça de água. Não gostam do negro mar salgado.
– Eu sei – disse Dany. – Sei mesmo.
– A minha khaleesi está triste?
– Sim – admitiu Dany. Triste e perdida.
– Deverei dar prazer à khaleesi?
Dany afastou-se dela.
– Não. Irri, não precisa fazer isso. O que aconteceu naquela noite, quando você acordou... não é escrava de cama, eu libertei-a, lembra? Você...
– Sou aia da Mãe de Dragões – disse a moça. – É uma grande honra dar prazer à minha khaleesi.
– Eu não quero – insistiu Dany. – Não quero. – Virou-se num movimento brusco. – Agora deixe-me. Quero ficar sozinha. Para pensar.
A escuridão tinha começado a cair sobre as águas da Baía dos Escravos quando Dany voltou ao convés. Parou junto à amurada e olhou para Astapor. Daqui parece quase bela, pensou. As estrelas estavam aparecendo, no céu, e as lanternas de seda também, na terra, tal como a tradutora de Kraznys prometera. As pirâmides de tijolo tremeluziam com a luz. Mas embaixo está escuro, nas ruas, praças e arenas de luta. E onde a escuridão é maior é nas casernas, onde algum garotinho está dando restos de comida a um cachorro que lhe deram quando roubaram sua virilidade.
Houve um passo suave atrás dela.
– Khaleesi. – A voz dele. – Posso falar com franqueza?
Dany não se virou. Não conseguia suportar olhá-lo naquele momento. Se o fizesse, poderia voltar a estapeá-lo. Ou chorar. Ou beijá-lo. E não chegar a saber o que era certo, o que era errado e o que era uma loucura.