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A janela do gabinete estava corrida, com cortinados carmesim; era sobretudo isso que conferia um ar lúgubre ao local, uma vez que a luz do dia não passava de um ténue clarão que penetrava pelas frinchas, fazendo com que as sombras parecessem espectros a despontar pelos cantos. Havia algumas estantes de livros e uma enorme mesa com várias cadeiras junto a uma parede do gabinete, certamente a mesa de reuniões.

"Quero que me façam um favor", disse o reitor de novo em tom macio, rompendo o silêncio pesado. "Fazem?"

Ambas disseram que sim com a cabeça, quase com fervor. Fariam tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir que se soltasse a ira que adivinhavam mal contida.

"Muito bem", exclamou ele. "Quero que me expliquem o que se passou no corredor."

As duas baixaram a cabeça, sem saber o que dizer. O que se passara era evidente para todos.

"Então?"

"Zangámo-nos", disse Amélia, timidamente.

"A sério?", perguntou ele, uma ponta de sarcasmo a trair-lhe a intenção do questionário.

"Zangaram-se, foi?" O tom roçava a teatralidade. Claramente, zombava delas. "Ai as marotas! Então e porquê?"

Mantiveram-se caladas. O modo como os comentários foram proferidos e a pergunta formulada tornara evidente que o reitor estava a tirar prazer daquela situação; sendo assim, pressentiram que nada ganhariam com explicações, a não ser talvez mais chacota.

"Quem é que começou?"

Silêncio.

"Mau! Perderam o pio? Não dizem nada?"

Mais silêncio.

O reitor suspirou pesadamente, como quem exprime um profundo desagrado. Empurrou a cadeira para trás com grande espalhafato, ergueu-se com enorme esforço e fez sinal com a cabeça em direcção à mesa de reuniões.

"Vão para ali", ordenou.

As duas raparigas obedeceram de imediato, sem perceber bem onde queria ele chegar. Pelo canto do olho viram-no inclinar-se diante da secretária, abrir uma gaveta, retirar de lá um objecto indefinido, aproximar-se com esse objecto na mão e arregaçar as mangas.

"Deitem-se sobre a mesa e levantem as saias."

Olharam-no, surpreendidas.

"Perdão?"

Acto contínuo, observaram o objecto que lhe bailava nas mãos e reconheceram-no. Um bastão.

O reitor tinha um bastão nas mãos e observava-as com um sorriso sem humor. O coração pulou-lhes no peito, descontrolado, e, o horror a turvar-lhes a visão, perceberam enfim o que lhes ia acontecer.

Iam ser sovadas.

"Deitem-se sobre a mesa!", vociferou o reitor, agastado por ter de repetir a ordem. "Vamos!"

"Mas... mas o senhor reitor não pode fazer isso", gaguejou Amélia, sem tirar os olhos do bastão.

"Nós não somos nenhumas..."

"Cale-se!", gritou o reitor. Parecia já fora de si. "Cale-se! Onde é que já se viu umas catraias como vocês dizerem-me a mim, a mim!, o que posso ou não posso fazer? Hã? Onde é que já se viu isto?" Apontou com fúria para a mesa. "Deitem-se

- imediatamente! Vão aprender que aqui há regras! Neste liceu não admito a bandalheira!

Deitem-se!"

Encurraladas, aterrorizadas, não querendo acreditar sequer no que lhes acontecia, interrogando-se sobre como tinham podido descer àquele ponto, obedeceram maquinalmente à ordem sem se atreverem a questionar mais nada e, de saias levantadas e as mãos assentes na madeira fria da grande mesa, expuseram as nádegas ao reitor.

Seguiu-se uma breve pausa. Ouviram-no a arfar pesadamente, como se procurasse domar a ira e controlar a besta que o possuía antes de a libertar de novo. Logo Amélia ouviu o zumbido soprado do bastão a cortar o ar, escutou a estalada a soar-lhe na pele, sentiu as nádegas incendiarem-se e gritou de dor e de humilhação.

A porta do quarto mantinha-se fechada desde que Amélia viera do liceu e dona Beatriz Rodrigues, Campos por um casamento que nem a morte desfaria, começava já a preocupar-se; não era hábito a filha isolar-se assim quando vinha do liceu, e muito menos ostentar aquele rosto fechado que lhe vislumbrara de fugida antes de ela se trancar no quarto.

"O bijou, o que tens tu?"

A filha não respondeu e dona Beatriz, estranhando o comportamento esquivo, bateu à porta do quarto. Amélia manteve-se silenciosa e a mãe, intrigada, sem saber o que pensar, encostou o ouvido à madeira; pareceu-lhe ouvir fungar e distinguiu um gemido baixo e abafado. Franziu o sobrolho, inquieta.

"Estás a chorar?", perguntou. "O que aconteceu, bijou}"

O gemido parou. Dona Beatriz bateu com insistência na Porta, algures entre preocupada e intrigada.

"Passa-se alguma coisa? Vamos, diz à mamã..."

Como Amélia insistia em não responder, dona Beatriz decidiu mudar de táctica.

Deixaria as coisas correrem e, quando a filha se destrancasse do quarto, trataria de apurar o que se passava. Não devia ser coisa grave, raciocinou, pois se o fosse já algo se saberia; era com certeza assunto de rapariga, nestas idades já se sabe como elas são, a filha tinha-se zangado com uma amiga ou não lhe havia corrido bem um qualquer exercício na escola.

Enfim, a seu tempo tudo se esclareceria; aquele arrufo não constituía decerto motivo para grandes ralações.

Procurando expulsar momentaneamente a filha do pensamento, dona Beatriz dirigiu-se à sala e foi acender a lareira. Mandou Francisco ao quintal buscar lenha e, quando ele voltou com a cesta cheia, deitou as achas no buraco enegrecido, acrescentou alguma carumba e lançou-lhe lume. A chama nasceu pequena, amarela e violácea, mas logo se espalhou, exalando uma quentura agradável que de imediato lhe aqueceu as palmas das mãos.

"Ó Amélia!"

A voz de rapariga era distante e vinha da rua. Dona Beatriz endireitou-se, interrogando-se se ouvira bem.

"Amélia!"

Definitivamente, alguém chamava pela filha.

"Quer que eu vá ver, senhora?", perguntou Francisco.

"Não, eu vou lá", disse ela. "Tu vais limpar o quintal."

Dona Beatriz saiu da sala em passo célere e foi à varanda do seu quarto, situada na parte da frente da casa. Abriu a portinhola de vidro e espreitou para a rua. Lá em baixo encontravam-se duas raparigas de bata escolar, as cabeças erguidas para a varanda.

"O que é? Que quereis?"

"A Amelinha, como vai?", perguntou uma delas, abraçando os cadernos ao peito.

"Botou-se no quarto. Porquê?"

"Ela está bem?"

Ali havia gato, percebeu dona Beatriz, relacionando as coisas. Não era normal a filha fechar-se no quarto e muito menos as amigas do liceu virem-lhe bater à porta a perguntar se ela se encontrava bem. Se queriam saber se Amélia ia bem é porque presumiam que podia estar mal. Mas mal de quê, santo Deus?

"Não, não anda muito bem", disse. "O que se passa?"

As raparigas mostraram-se desconcertadas com a pergunta.

"Ela não lhe contou?"

"Contou o quê? O que se passa?"

Lá em baixo, as duas entreolharam-se, algo embaraçadas.

"O que se passa?", insistiu dona Beatriz, a voz muito firme. "Que aconteceu?"

Uma delas levantou a cabeça e ganhou coragem.

"Foi o... o badigo."

"Qual badigo?"

"O... o gordo. O reitor."

"O que fez ele?"

"A Amélia e a Maria das Dores foram levadas ao gabinete dele."

Dona Beatriz arregalou os olhos com um ar surpreendido. Tudo aquilo era absoluta novidade para si.

"Ai sim? A Amélia foi ao gabinete do reitor? Porquê?"

"Nós achámos que era para lhes passar um batibardo. Ele tem fama de ser mau como o Facadas."

"Passaram um batibardo à Amélia? Mas o que fez a minha filha para merecer uma descompostura?"