"Elas estão a fumar!"
Luís encolheu os ombros, mantendo um ar indiferente, como se tudo aquilo fosse normal.
"E então?!"
"Mas... são mulheres!"
"São artistas", corrigiu-o.
"Está bem, são artistas. Mas não deixam de ser mulheres." Hesitou. "Ou deixam?"
"As artistas são diferentes. Não te esqueças de que este é o grupo das girls do Avenida.
Elas estão na vanguarda."
"Qual vanguarda? Agora uma mulher fingir-se de homem é vanguarda?"
"Pelos vistos é."
"Porra!", exclamou Fernando, abanando a cabeça. "Só falta vê-las a mijarem de pé!"
Os dois amigos retomaram a marcha e aproximaram-se do molhe de bailarinas. Quando viram os estranhos a caminhar na sua direcção, as raparigas calaram-se e olharam-nos com suspeição.
"Dá licença?", disse Luís a nenhuma em particular, tentando enfiar-se no meio do grupo para chegar à porta.
Contudo, elas mantiveram a fileira cerrada, bloqueando--lhe ostensivamente a passagem.
"O malandro, onde pensas que vais?", disparou uma delas, de cigarro entre os dedos e expressão altiva.
"Vou ali falar com uma amiga."
"Isso é o que dizem todos!"
As bailarinas riram-se.
"A sério", insistiu Luís, enrubescendo. "E a Margarida."
A do cigarro fez um sinal a uma das parceiras, que acto contínuo deu um passo atrás e meteu a cabeça pela porta.
"Ó Guida!"
Ouviu-se uma voz lá de dentro.
"O que é?"
"Estão aqui dois marialvas à tua procura!"
Uma cabeça loira-quase-branca apareceu de imediato à porta e abriu-se num sorriso quando reconheceu o homem que a olhava para lá da barreira de bailarinas.
"Luís!", exclamou com entusiasmo. Deitou-se sobre os ombros das colegas, esticou o pescoço e beijou-o nos lábios. "Entra!"
O rapaz olhou para o molhe de raparigas que lhe obstruía a passagem.
"Dão licença?"
"Olha lá, ó Guida", disse a do cigarro, sem se mexer. "Nós somos avançadas, mas não exageremos! Onde é que já se viu os homens entrarem assim nos camarins das raparigas?"
"O Paula, não sejas implicativa! Isto não são camarins nenhuns, como tu bem sabes. Que eu saiba, estamos a desmaquilhar-nos, não estamos a despir-nos."
"São camarins de maquillage e são de senhoras, é a mesma coisa! Os homens aqui não podem entrar, muito menos quando vêm com propósitos amorosos."
"Olha-me esta!", soltou Margarida, pondo as mãos nas ancas. "Se o meu namorado me quer visitar na maquillage, quem és tu para dizer que ele não pode entrar?"
"Não nos camarins onde estão todas as outras!" A do cigarro voltou as costas e soltou uma baforada de fumo, num gesto négligé, à grande diva. "Agora se arranjares um camarim só teu e o quiseres lá meter, é contigo..."
"Chiça, Guida!", zombou uma outra bailarina, os olhos a saltitarem entre Fernando e Luís.
"Aguentas com dois ao mesmo tempo?"
Risada no grupo.
"Sua ordinária!", devolveu Margarida, ofendida. "Sua... sua..."
Vendo a discussão subir inesperadamente de tom, Luís achou melhor intervir.
"Calma, calma!", pediu, erguendo as mãos num gesto pacificador. "Nós não vamos entrar, fiquem descansadas." Fixou Margarida, que tinha o cabelo loiro num desalinho.
"Olha, Guida, esperamos-te lá fora no café, está bem?"
"Qual deles?"
"O Lisboa."
Antes que ela dissesse mais alguma coisa, deram os dois meia volta e regressaram pelo mesmo caminho, agora com Luís atrás. Quando se sentiu suficientemente à distância, Fernando virou a cabeça e riu-se para o amigo.
"Que galinhas."
II
A rapariga de cabelo castanho curto e formas redondas entrou no Café Lisboa e estacou por um momento à porta enquanto varria a sala com o olhar. Voaram de imediato piropos e gracejos. "Olha a girl!", disse uma voz; "Belo naco!", adiantou outra; "Vem aqui ao papá", acrescentou uma terceira. Habituada já aos barulhentos ajuntamentos masculinos, cena comum depois dos espectáculos, quando os excitados machos se apinhavam nas tascas e cafés do parque para ver as girls saírem dos teatros, a corista ignorou as atenções com que os homens nesse instante ruidosamente a presenteavam e, depois de localizar Luís a uma mesa do canto, dirigiu-se-lhe com passo decidido, embora sempre meneando o corpo, consciente do efeito que produzia.
"Olá, querido!", lançou a desconhecida.
Os dois amigos petiscavam tremoços regados a imperial e Fernando estranhou a familiaridade com que a insinuante recém-chegada se dirigiu ao seu parceiro de mesa.
"Então, minha flor?", cumprimentou-a Luís.
A rapariga inclinou-se sobre ele, sentou-se-lhe ao colo, enlaçou-o com um braço e beijou-o nos lábios. Fernando observou a cena boquiaberto, os olhos arregalados, o copo da cerveja parado a caminho da boca. Não queria acreditar no que via; era já a segunda girl que se agarrava ao amigo no espaço de apenas meia hora. A segunda. Achou tudo aquilo inesperado e permaneceu um longo instante imóvel de pasmo, sem saber o que pensar.
Quando Luís descolou do beijo, fez um gesto na direcção do amigo, que por esta altura se remexia desconfortavelmente e olhava em todas as direcções excepto na dos seus dois companheiros de mesa.
"Apresento-te o Fernando."
Ela endireitou-se, afogueada, e lançou-lhe um sorriso rápido.
"Olá."
O rapaz levantou-se e estendeu-lhe a mão.
"Muito prazer."
A morena apenas lhe dedicou uma fugaz atenção. Girou o pescoço pelo café e fixou a atenção numa portinha lá ao fundo. Acto contínuo, deu um salto e largou o colo de Luís.
"Vou ali à casinha", anunciou, partindo em direcção ao quarto de banho. "Já venho."
Os dois amigos observaram-na a deslizar entre a multidão do café, o rabo a bambolear de um lado para o outro, incorrigivelmente provocadora, o corpo curvilíneo como uma viola. Parecia uma starlette a desfilar na passerelle. Dessa vez não se ouviram piropos, todos tinham visto que o homem dela também se encontrava no café e havia que respeitá-
lo; o que não os impediu, todavia, de a espreitar de esguelha com mal disfarçada avidez.
Só quando a corista se fechou no quarto de banho é que Fernando voltou a cara para o amigo.
"Nunca vi nenhum gajo como tu", exclamou. "É impressionante! Absolutamente incrível!"
Luís observou-o com orgulho dissimulado, fingindo-se desentendido.
"Que queres dizer com isso?"
"Que quero dizer?!" Fez um gesto em direcção ao quarto de banho das senhoras. "Olha lá, quem é aquela?"
"É a minha nova namorada."
"A tua nova...", interrompeu-se, incapaz de pronunciar a palavra. Abanou a cabeça. "Isto contado, ninguém acredita."
"O quê?"
Fernando engoliu um trago de imperial.
"Quando te conheci na faculdade arranjaste logo uma namorada." Suprimiu um arroto.
"Era a Luísa, não era?"
"Não, a Lulu foi a segunda. A primeira foi a São."
"Ah, pois. Despachaste primeiro a Conceição, depois a Luísa, depois a Deolinda. Ainda te vi com a Teresa..."
"A seguir à Deolinda foi a Belinha."
Fernando riu-se.
"Olha, essa escapou-me."
"Conheci-a num concurso da rainha da beleza das Sociedades de Recreio."
"Ah, bom." Desenhou pontinhos no ar. "Pronto, foi a Deolinda, depois essa Nelinha do concurso de beleza..."