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"Eu sei."

"Então o que fazemos?"

Luís pegou na mão dela e colou-a ao peito, comprimindo-a para que ela sentisse melhor as batidas do coração.

"Podemos não estar casados perante a lei, mas estamos casados perante nós próprios. Percebes?

A tua mãe roubou-nos tudo, mas não roubou o que sentimos um pelo outro. Os nossos corpos podem estar entregues a outros, mas a minha alma pertence-te e a tua alma pertence-me. Não há nada a fazer. Mesmo que o quiséssemos, não existe coisa alguma que possa alterar isso. Nós pertencemos um ao outro. Temos de aceitar o nosso destino."

"Sim, mas... e agora? O que fazemos?"

O amante olhou para a janela, como se a resposta estivesse para além dela.

"Porque não fugirmos?"

"Estás doido?"

"Sim, vamos fugir!"

"Então e os meus filhos? Então e a minha irmã? Então e o Mário? Achas que algum deles merece isso?" Amélia estremeceu.

"Além do mais, seria incapaz de me separar dos meus filhos. Isso está totalmente fora de questão."

Luís suspirou.

"Tens razão."

Um grande soluço pareceu quase estrangular Amélia.

"O que vai ser de nós, meu Deus? Como poderemos estar ao pé um do outro à frente... deles?"

Olhou-o. "Temos de deixar de nos ver."

"O que estás para aí a dizer?"

"Não nos podemos ver mais."

"Eras capaz disso?"

"Tem de ser, Luís. Não nos podemos ver um ao outro. Se estivermos juntos..."

"Tu eras mesmo capaz disso?

Ela calou-se por um momento, considerando essa possibilidade. Depois abanou a cabeça, os olhos quase desesperados.

"Não. Nunca."

Luís beijou-a com ternura na testa.

"Nem eu."

"Então o que fazemos?"

"Teremos de viver em segredo."

Amélia olhou-o interrogativamente.

"O que queres dizer com isso?"

"Aos olhos do mundo estamos casados com outros, aos nossos olhos estaremos casados um com o outro."

"O quê?"

"Seremos marido e mulher em segredo."

"Queres dizer... queres dizer que seremos amantes?"

"Vês alguma alternativa?"

"Nós? Amantes?" Pronunciou a palavra como se ela fosse maldita. "Mas isso é horrível!"

"Vês alguma alternativa?"

Ela manteve os olhos muito fixos nele, como se tentasse lê-lo, mas depois de um longo instante pestanejou e acabou por baixá-los, devagar, em rendição.

"Não."

"Então é o que seremos."

Os olhares entre Luís e Amélia tornaram-se diferentes, culpados quando Joana se encontrava presente, cúmplices quando se cruzavam a sós. Passaram a viver num desassossego miudinho, acossados por uma ambivalência dilacerante: temiam que alguém se apercebesse de algo, ansiavam por um novo ensejo de se juntarem em segredo. Começaram por tentar ser pacientes e aguardar tranquilamente a ocasião propícia, mas ela não surgiu de imediato e depressa ficaram inquietos.

Onde num momento prevalecia a paciência, passou a dominar a inquietação. Já em desespero, na manhã seguinte Luís tentou a todo o custo criar uma oportunidade.

"Ó António", disse, interpelando o filho mais velho de Amélia. "Gostaste ontem de ir ao rio?"

"Sim."

"Querias voltar?"

"Queria."

Luís olhou para a mulher.

"Se calhar fazia-vos bem dar o mesmo passeio, Joana. Os miúdos gostam e..."

"Ai, hoje não. Descer até ao rio foi agradável, mas a subida... ufa, custou-me muito."

"Olha que te fazia bem", insistiu o marido. "O ar é óptimo e vieste com magníficas cores."

"Pois, mas é uma grande estafa." Franziu o sobrolho. "Olha lá, porque nao vais tu?

A tentativa não resultou, mas Luís não se deu por vencido. Ao almoço, e enquanto saboreava um copo de verde branco caseiro, lançou uma nova sugestão: e que tal Joana levar as crianças a ver como se fazia leite e queijo? Havia uma vacaria ali em Castelo de Paiva, a uns quilómetros da Quinta de Pousada, e decerto que seria uma tarde bem passada.

Luís insistiu na sugestão, mas a mulher recusou liminarmente a ideia, alegando que queria passar a tarde a ler.

No primeiro instante em que, por momentos, Amélia o apanhou a sós na cozinha, logo depois do almoço, não escapou a uma repreensão.

"Tu estás maluco?", murmurou ela com muita intensidade, os olhos carregados.

"O que foi?"

"Tens de parar com essas sugestões despropositadas", disse Amélia, desviando a atenção para a porta de modo a assegurar-se de que ninguém vinha aí. "Se continuares a tentar mandá-la embora, ela vai acabar por perceber."

"Não percebe nada."

A amante apontou-lhe o dedo, como se o estivesse a avisar.

"A minha irmã pode ainda ser nova, mas não é parva. A partir de agora, bico calado, ouviste?"

Era evidente que Amélia tinha razão, mas não era isso que lhe resolvia o problema.

Desejava-a ardentemente e as coisas eram agravadas por aquela situação de se encontrar tão próximo e tão distante dela. Luís estava a ficar desesperado; sentia absoluta necessidade de estar a sós com a mulher que amava, mas não via modo de aparecer uma nova oportunidade. Assim não poderia ser, concluiu, já cego pelo desejo. Se não conseguia chegar a ela de uma maneira, teria de ser de outra. Aquela semana na Quinta de Pousada acabaria em breve e

talvez tão cedo não dispusessem de uma oportunidade como aquela.

Na noite do quarto para o quinto dia, quando todos dormiam a sono solto, levantou-se cuidadosamente da cama, deslizou em silêncio pelo corredor e entrou com muito cuidado no quarto de Amélia.

"És tu, Luís?"

Era a voz da amante. Amélia estava acordada e soergueu-se na cama, apoiada nos cotovelos.

"Chiu."

Luís debruçou-se sobre ela muito devagar, quase com medo de que a sua respiração fosse audível por toda a casa, e bei-jou-a com paixão. Depois envolveu-se no cobertor, deitou-se ao seu lado e mergulhou-lhe no corpo, mas de imediato imobilizaram-se os dois. A cama chiava muito, cada movimento era um guincho e decerto que todos haviam sido despertados pela chinfrineira aguda das molas e pelo ranger dorido da madeira.

Aguardaram um instante, a respiração suspensa, os dois muito alerta, quase a ouvirem os próprios corações, os olhos vidrados, ambos a tentarem detectar algum movimento na casa. Nada aconteceu, porém. Tudo permanecia calmo. Tranquilizado, Luís debruçou-se de novo sobre Amélia para a beijar, mas a cama voltou a chiar.

"Porra!", praguejou muito baixinho. "Isto faz uma barulheira inacreditável!"

"Não pode ser mais devagar?"

Luís tentou movimentar-se com maior cuidado, movendo o corpo muito lentamente, mas os guinchos recomeçaram; parecia que a cama fazia de propósito.

"E agora?", perguntou ele, percebendo que era impossível não fazer barulho. "O que fazemos?"

Amélia ficou um instante calada, a avaliar as opções.

"E se fôssemos lá para baixo?"

A sugestão deixou Luís espantado. A casa tinha dois pisos, é certo, mas só aquele onde eles se encontravam, o primeiro, era habitável.

"Como assim?"

"Vamos lá para baixo."

"Mas lá em baixo não há nada."

"Há o curral."

Atravessaram com muito cuidado o corredor, evitando as partes do soalho que rangiam, e abriram a porta exterior. O gelo da noite húmida envolveu-lhes os corpos num abraço arrepiante. A tremer de frio, desceram as escadas e, uma vez cá em baixo, meteram-se no curral, situado mesmo por baixo da cozinha. Chamavam-lhe curral, mas na verdade era mais uma pocilga e um galinheiro, uma vez que ali só havia porcos e galinhas. Pairava no ar um forte cheiro a animais e os suínos, sentindo o movimento, puseram-se a grunhir; mas ao menos estavam longe do piso residencial da casa e, pormenor igualmente relevante, o espaço apresentava-se relativamente quente.