Escolheram um canto onde era guardada a palha e deitaram-se ali, envolvendo-se um no outro.
Ainda tiritavam de frio, mas o calor dos corpos apertados foi crescendo ao ritmo dos beijos e das carícias e logo Amélia começou a sentir os lábios a arder. Tremiam ainda, mas já de antecipação, os corpos famintos, a carne voraz, os sentidos despertos. Luís lambeu-lhe a boca, os ouvidos, o ventre, lambeu-a com gula e avidez; tentou adiar o momento o mais possível até que se tornou impossível adiar mais e, com os gestos bruscos dos possessos, virou-lhe o corpo, assentou-a de gatas e entrou nela.
Os gemidos de Amélia irromperam pelo curral, misturados com o grunhido dos suínos; os porcos agitavam-se de um lado da cerca, os amantes bailavam do outro lado, animais uns e outros.
As mãos dela agarravam-se à madeira enquanto o corpo balouçava ao ritmo das pancadas de Luís, ele arfando e ela vagindo. Sentindo aproximar-se o ponto para além do qual não se conseguiria controlar mais, Luís interrompeu os movimentos e recuou.
Foi o suficiente para recuperar algum controlo. Já mais recomposto, deitou-se de costas sobre a palha e fez-lhe sinal de que se sentasse em cima dele. Amélia obedeceu e montou-o, enterrando-se com um suspiro. Começou a subir e a descer, primeiro devagar, depois mais depressa, os gemidos acompanhando o ritmo dos movimentos.
"Quem está aí?"
Os amantes paralisaram, horrorizados.
Olharam em redor, atarantados, procurando identificar a direcção de onde vinha a voz. Viram um clarão azulado cair-lhes em cima e uma mão a segurar um candeeiro a petróleo. A luz bruxuleante bailava como um pêndulo, projectando sombras em movimento pelo curral e banhando de perfil os traços rudes e gastos de um homem que os observava embasbacado, o canto dos olhos sulcado de rugas, os dentes apodrecidos intervalados por buracos negros.
Era Tino, o caseiro.
XVIII
O corpo compacto e grosseiro de Francisco cruzou a ombreira da porta da copa e imobilizou-se diante da mesa do pequeno-almoço. Luís parecia alheado de tudo, os olhos fixos para além da janela, perdidos num horizonte longínquo. Joana afadigava-se a dar de comer aos sobrinhos, parecia uma andorinha a esvoaçar no meio das crias.
"A Amélia?", perguntou Francisco.
"Ainda não se levantou", esclareceu a irmã, remexendo energicamente o copo de leite.
"Porquê?"
"Está mal disposta." Pegou no copo e estendeu-o à pequena Rosinha. "Anda, já tirei as natas. Podes beber."
Francisco deu meia-volta e desapareceu no corredor.
As crianças na copa agitavam-se, inquietas; queriam ir lá para fora brincar e o pequeno-almoço era um ritual que as enervava. A mãe conseguia mantê-las sob controlo, mas, sem Amélia ali, as coisas eram diferentes. A tia exercia menos
autoridade e os pequenos aproveitavam para montar na copa um verdadeiro circo.
" Luís, podias ajudar", queixou-se Joana, incapaz de dar resposta a todas aquelas solicitações.
O marido parecia vidrado na janela, entregue aos seus pensamentos, e estremeceu ao perceber-se interpelado.
"Hã?"
"Olha lá, estás a dormir ou quê? Ajuda-me! Isto está um pandemónio, valha-me Deus."
"Que queres que eu faça?"
A mulher indicou o sobrinho mais velho, que dava saltos frenéticos e guinchava como um cabrito junto à porta da cozinha.
"Então não vês o estado em que se encontra o António? Olha para aquilo! O diabo do rapaz foi ali às natas e despejou-as na cabeça!"
Luís observou a criança e constatou que, de facto, tinha uma pasta branca a pingar-lhe dos cabelos.
"Caramba, que porcaria!" Levantou-se, foi buscar um pano e esfregou-o na cabeça do pequeno.
"O António, o que é isto?"
"É neve! É neve!"
"Qual neve, qual carapuça! É uma nojeira, é o que é!"
"Eu quero neeeeeeve!"
"Vá, juizinho."
Pegou no pequeno e, apesar da resistência que ele mostrou, obrigou-o a sentar-se à mesinha da copa. Cortou uma fatia de regueifa e barrou-a com manteiga, entregando-a a António.
"Vamos, come!"
"Não quero!"
"Come, António."
"Não queeeeero!"
"Ó meu grandessíssimo teimoso!", rugiu, já impaciente. "Ou tu comes isto tudo, ou então..."
"Senhor Luís."
Luís virou a cabeça para trás e viu Francisco de novo parado à porta, dessa vez com os olhos postos nele. Aquela pose surpreendeu-o. Que se lembrasse, era a primeira vez que o troglodita lhe dirigia palavra por iniciativa própria.
"Sim?"
"A Amélia pede que o senhor vá lá ao quarto."
Luís franziu o sobrolho, olhou de relance para Joana, que continuava às voltas com o leite da pequerrucha, levantou-se e saiu da copa com Francisco no encalço. Percorreram ambos o corredor até chegarem diante do quarto de Amélia. Luís deu três toques leves na madeira e a voz de Amélia mandou-os entrar.
"Querias falar comigo?"
Com os olhos vermelhos de fadiga, Amélia mirou o amante e o irmão adoptivo e fez-lhes sinal de que se instalassem aos pés da cama.
"Fechem a porta e sentem-se aqui", ordenou.
Os dois homens obedeceram e acomodaram-se na cama, a porta do quarto já trancada.
"O que se passa?", perguntou Luís.
Amélia suspirou.
"Acho que não precisamos de fingir ao pé do Chico."
"O que queres dizer com isso?"
"O Chico é a única pessoa que sabe que namorámos em Bragança. Não te esqueças de que ele estava lá e assistiu a tudo."
Luís estreitou os lábios.
"Como poderia eu esquecer?", perguntou com sarcasmo, espreitando Francisco de soslaio. "E então?"
"Ele é uma pessoa de confiança."
O amante coçou a cabeça, indeciso.
"Achas mesmo?"
"Desde a morte da minha mãe que o Chico me é muito dedicado. Como te disse, ele sabe que fomos namorados e, como vês, nunca contou a ninguém. Isso prova alguma coisa, não prova?"
Luís assentiu.
"Está bem, é de confiança. Mas por que razão estás a metê--lo nisto?"
Amélia olhou para o irmão adoptivo.
"Conta-lhe, Chico."
O brutamontes pigarreou, desconfortável. Estava mais habituado a ouvir do que a falar.
"A pela manhã passei pelo Tino."
"E então?"
Francisco engoliu em seco.
"Disse que não tarda nada o patrão vai correr-nos a todos daqui para fora."
A frase atingiu Luís com brutalidade. A realidade impunha-se de um modo cru e não havia maneira de lhe escapar. Desde a noite anterior que ele e Amélia viviam numa aflição, tentando adivinhar quais as intenções do caseiro depois de os ter visto juntos no curral. Sabiam que a denúncia constituía uma forte probabilidade, mas enquanto permanecia uma mera hipótese era uma coisa. O cenário que se desenhava agora diante deles, porém, já não era uma simples probabilidade, tornara-se algo mais do que isso. Transformara-se em certeza.
"Ele explicou porquê?"
"Eu perguntei-lhe."
"E ele?"
Os olhos de Francisco saltaram para a irmã adoptiva.
"Riu-se e disse: «Pergunta à tua maninha.»"
301
Fez-se um curto silêncio.
"E tu?"
"E eu vim aqui perguntar."
Foi a vez de Luís e Amélia trocarem olhares. A conversa entre Francisco e Tino tinha sido curta, mas muito reveladora. Não restavam dúvidas de que em breve todos iriam ser confrontados com um grande problema. Era como uma bomba à espera do momento de detonar. Quando explodisse, sabiam que ninguém sairia ileso. Haveria consequências para Amélia e para o marido, haveria consequências para os filhos, haveria consequências para Francisco, haveria consequências para Joana e para Luís. A bem dizer, não era que Luís estivesse grandemente preocupado consigo mesmo. Não se envergonhava de nada e, para ser honesto, na sua perspectiva a denúncia tinha até a virtude de tornar transparente a sua relação com Amélia; quem sabe se não seria mesmo aberta a oportunidade de viverem juntos. Não era isso, pois, o que o preocupava. O verdadeiro problema estava nos estilhaços que atingiriam toda a gente à sua volta.