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"Será que me podem explicar?", insistiu Francisco.

Amélia ajeitou o cobertor.

"Eu e o Luís continuamos a ser namorados", disse, sem se atrever a olhar para o irmão adoptivo.

"O que se passou é que o Tino nos viu juntos ontem à noite."

"Onde?"

Amélia corou de vergonha e encolheu-se na cama, como se tentasse desaparecer por entre os lençóis.

"No curral."

"E depois?"

"Viu-nos e... e foi-se logo embora."

"Não disse nada?"

"Não. Viu-nos e foi-se embora."

Fez-se um silêncio embaraçado.

"E a mana?"

"A Joana? Não sabe de nada. Ninguém sabe de nada. Só nós os três."

Francisco olhou para a porta trancada.

"Só nós os três mais o Tino."

Luís abanou a cabeça e respirou fundo.

"Só nós os três, mais o Tino, e a mulher do Tino, e a sogra do Tino, e os pais do Tino, e os filhos do Tino e toda a gente da quinta. O que quer dizer que amanhã já toda Castelo de Paiva sabe. E

depois de amanhã já toda Penafiel sabe."

"Não", disse Francisco.

"Como assim, não?"

"A família do Tino não está cá."

"Ai não?"

"Foi ontem para Penafiel por causa da feira de São Martinho."

"O Tino está sozinho?", admirou-se Luís. "Não acredito. Deve ter ficado cá alguém, não se iam todos embora..."

"Foram todos para Penafiel", repetiu Francisco. "A feira de São Martinho é um grande acontecimento cá na terra, de maneira que a família do Tino foi para lá."

"Fazer o quê?"

"Foram vender regueifas e o vinho que restou das vindimas do ano passado."

"E o Tino? Porque ficou ele cá?"

"Tinha umas coisas para arranjar." Contraiu a boca e arqueou as sobrancelhas, para sublinhar a frase seguinte. "As vedações da pocilga."

"Ah."

Isso explicava a presença do caseiro no curral na noite anterior.

"Tens a certeza que ele ainda não contou a ninguém?", perguntou Amélia.

"Sim. Não está cá ninguém para contar."

"Pode ter contado aos vizinhos", disse Luís.

"Quais vizinhos? Foram todos para a feira de São Martinho."

"Todos, não acredito."

Francisco encolheu os ombros.

"Mesmo que tenham ficado alguns, o Tino ainda não saiu da quinta esta manhã. Portanto, não contou a ninguém."

Amélia e Luís suspiraram, aliviados.

"Quando é que essa feira acaba?"

"Começa hoje e acaba depois de amanhã."

Luís fez as contas.

"Portanto, temos dois ou três dias."

"Não", retorquiu Francisco. "Só algumas horas."

"Porquê?"

"Porque o Tino vai esta tarde para Penafiel."

Mal acabou de ouvir esta informação da boca de Francisco, Luís ergueu-se de um salto e abriu a porta do quarto.

"Vamos", disse, subitamente cheio de energia. "Não há tempo a perder."

"Vamos onde?"

"Falar com ele, claro."

XIX

A Primavera chegara, mas não sorria. O céu apresentava-se coberto por um tecto metálico, parecia prata líquida, e mesmo a verdura da encosta desmaiara sob a luz pálida da manhã. O dia nascera anémico e frio, influenciado pela nortada que atravessava o rio e agitava as árvores e os arbustos, o farfalhar inquieto a adensar o ambiente lúgubre da quinta. Ninguém diria que estavam em Abril.

Deram com o caseiro a aparelhar a mula à carroça. Os garrafões de tinto verde acumulavam-se na carga; eram os restos da vindima que iam ser vendidos na feira.

"Senhor Constantino", chamou Luís, aproximando-se a passos largos. "Dá-me licença?"

O caseiro voltou-se e mirou-o, desconfiado. Tinha um cigarro no canto da boca e mudou-o para o outro canto quando viu Francisco e Amélia a aproximarem-se também.

Estreitou os olhos e focou o seu interlocutor.

"Faça o favor de dizer, senhor capitão."

"Não sou capitão", corrigiu Luís. "Sou alferes."

"Sim, senhor capitão."

Luís fitou-o, subitamente embaraçado. Nos olhos do caseiro fixara-se certamente a cena com que se deparara na noite anterior no curral, e o alferes veterinário tinha isso bem presente na mente.

Por onde poderia começar a conversa?

"Oiça", disse. "O senhor... enfim, como hei-de dizer? O senhor esteve ontem no... no curral, não é verdade?"

"Estive sim, senhor capitão."

Luís olhou para trás, inseguro, como se buscasse apoio de Francisco e Amélia, e voltou a encarar o caseiro.

"O que eu... que nós queremos saber é se... enfim, se o senhor tenciona... quer dizer, queremos saber se o senhor vai... vai contar a alguém aquilo que viu."

O caseiro voltou-lhe as costas e puxou uma correia com força, para garantir que ela estava solidamente apertada. Feito isto, encarou de novo Luís. Aspirou fundo o cigarro e libertou devagar uma nuvem acinzentada.

"Direi o que tiver de dizer a quem tiver de dizer, senhor capitão."

Luís passou a mão pela testa, limpando as gotas de suor que lhe começavam a escorrer do couro cabeludo.

"Oiça, se o senhor disser alguma coisa, vai ser... vai criar muitos problemas. O senhor não quer criar problemas, pois não?"

"Não quero não, senhor capitão."

Acendeu-se uma luz de esperança.

"Então... então está ver que... enfim, se contar alguma coisa, cria-se um problema, não é?"

"Isso não sei, senhor capitão."

"Não sabe como? Então não vê que, se contar o que viu, se cria um grande problema?"

"Eu acho que não, senhor capitão."

"Então o que pensa você que vai acontecer se contar?"

"Resolve-se um problema, senhor capitão."

Fitou o caseiro com uma expressão interrogativa. Seria o homem parvo ou estaria a gozar com ele?

"O que quer dizer com isso?"

O homem mudou o cigarro de um canto para o outro da boca apenas com um rápido movimento dos lábios.

"Quero dizer que o senhor capitão Branco tem um problema, mas não sabe que o tem", disse, lançando um olhar hostil na direcção de Amélia. "Quando eu lhe contar, fica a saber a verdade e pode assim resolver o seu problema."

"Mas, oiça, ele não precisa de saber nada", insistiu Luís, vendo a conversa virar numa direcção que não lhe agradava. "Garanto-lhe que não se vai passar mais nada semelhante a... àquilo que o senhor viu no curral."

"Isso já não sei, senhor capitão."

"Mas sei eu. Aquilo não volta a acontecer, garanto-lhe. E se o senhor for contar ao capitão...

cria-se um grande problema."

"Talvez sim, mas não será um problema meu, senhor capitão."

Luís suspirou. O homem era casmurro. Daria muito trabalho demovê-lo da ideia.

"Será um problema para toda a gente. Não se esqueça de que o senhor capitão Branco e a dona Amélia têm filhos. Eles vão sofrer com a sua atitude."

"Não serei eu quem os fará sofrer", retorquiu o caseiro, num tom indiferente. "Será quem anda a fazer coisas que não devia fazer e que são contra as leis de Deus."

Ainda por cima um beato, concluiu Luís. Pela conversa, percebeu que assim não iria lá. Tinha de recorrer à sua última

cartada, a mais forte de todas. Pôs a mão no bolso, retirou a carteira e extraiu uma nota.

"Dou-lhe vinte escudos", disse, estendendo-lhe a nota. "Por vinte escudos, e a minha promessa de que isto não voltará a acontecer, peço-lhe o seu silêncio."