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"Hombre, mas não queres ter novos amigos portugueses?"

"Eu quero é o pandeiro do Juanito, porra."

Quando Francisco regressou à Legião, na Primavera de 1937, foi já para ingressar promovido a legionário de primeira classe na 27.a companhia da VII Bandera, para onde também fora transferido Juanito. A unidade defendia as relativamente calmas linhas da frente Madrid-Toledo e a tranquilidade apenas seria interrompida em Fevereiro. Nessa altura, o regimento integrou as cinco brigadas nacionalistas que atacaram a estrada de Valência e cruzaram o rio Jarama, enfrentando forte oposição republicana.

A batalha do Jarama revelou-se a mais violenta do ano e a VII Bandera foi a unidade nacionalista mais sacrificada, sofrendo mais de uma centena de baixas, incluindo a de Juanito, atingido no antebraço por um estilhaço de granada. As perdas acabaram por ser tantas que, pelo final do mês, o regimento

teve de ser substituído e Francisco regressou à relativa apatia da tranquila linha Madrid-Toledo, o sítio ideal para lamber feridas e restabelecer forças.

As coisas só voltaram a aquecer no ano que agora acabara, quando a VII Bandera fora sucessivamente envolvida nas batalhas de Teruel, Aragão, do Levante e do Ebro, sempre com os nacionalistas a acabarem por impor a sua força. Com 1938 a terminar, o inimigo encontrava-se reduzido a Madrid, à Catalunha e a Valência. Sentindo a vitória à distância de um derradeiro empurrão, as forças nacionalistas iniciaram, apenas uma semana antes, a campanha da Catalunha, empenhando trezentos mil homens contra cento e quarenta mil republicanos. Francisco estava convencido de que vencer a guerra se tornara nesta altura uma mera questão de tempo.

Algumas coisas tinham entretanto mudado na Legião Estrangeira. O corpo já não se limitava às seis banderas do início da guerra, tendo sido alargado para dezoito regimentos. Mas, apesar do aumento significativo de efectivos, Francisco apercebeu-se de que a influência da sua força no conjunto das operações nacionalistas foi diminuindo com o tempo. Tomou gradualmente consciência de que isso se devia ao aparecimento de um novo exército nacionalista, formado por voluntários e homens recrutados à força. Quando o conflito eclodiu, em 1936, os nacionalistas quase só dependiam dos legionários e dos marroquinos. Mas agora, três anos volvidos, já não era bem assim. Por outro lado, as operações iniciais provocaram muitas baixas às depauperadas fileiras de legionários, eliminando os homens mais experientes e bem treinados. Francisco e Juanito tornaram-se raridades; tinham apenas vinte e um anos de idade e já eram veteranos.

Apesar disso, a Legião Estrangeira permaneceu uma tropa de choque, usada nas situações mais difíceis. O comando

parecia encontrar-lhe utilidade nos confrontos renhidos, mas Francisco tinha noção de que essas missões lhes eram atribuídas também para cultivar a lenda da Legião; era preciso cimentar essa mística, a mística dos legionários, e, por arrastamento, a mística de Francisco Franco, o antigo comandante da Legião Estrangeira, o agora chefe supremo das forças nacionalistas, el jefe, a encarnação espanhola de il Duce e do Fúhrer, o homem providencial que travaria o comunismo e salvaria a Espanha e o catolicismo. El Caudillo.

II

Os enjoos de Joana começaram ao segundo dia de 1939. Viviam nessa altura numa velha casa rústica de dois andares, erguida com blocos de xisto e coberta de colmo. Em cima existia um quarto, uma sala e a cozinha, onde o escano servia de assento e mesa; em baixo ficava a adega, o cortelho dos porcos e o celeiro, vazio pois o casal não planeava dedicar-se à agricultura.

Nessa tarde fria de Janeiro, Luís chegou a casa e deu com a mulher estendida no sofá, pálida como leite, um lenço amarelo pousado na cabeça, as cortinas fechadas para a protegerem da luz.

"Joana, o que tens tu?", perguntou ele, preocupado.

"Nada, nada."

Luís aproximou-se e ajoelhou-se diante do sofá, a mão a acariciar a fronte da mulher.

"Nada, não. Pareces debilitada."

"Não é nada, já te disse. São só uns enjoos."

"Uns enjoos? Que tipo de enjoos?"

"Sei lá! São uns enjoos. Sinto-me infareada. Deixa-me estar aqui, não me arrelies. Eu já me ponho boa."

Luís afagou o queixo e observou-a, pensativo. Os olhos desceram-lhe do rosto para os seios, avaliando-os, e depois mais para baixo.

"Estarás grávida?"

A hipótese fez Joana abraçar o ventre num gesto instintivo de protecção.

"Tu achas, Luís?", perguntou.

Fitaram-se mutuamente, esperando contra a esperança.

"Bem... os enjoos são um sintoma de gravidez." Baixou o olhar de novo para o ventre dela e assumiu uma expressão interrogativa. "Há quanto tempo não... enfim..."

"Há dois meses. Mas isso não quer dizer nada, sabes que eu sou muito irregular."

O marido ergueu-se e deu-lhe a mão.

"Anda, vamos ao Fernando."

O veterinário ajudou a mulher a descer as escadas de pedra e acomodou-a entre almofadas e uma grossa manta na carroça que guardava à porta do celeiro. Foi buscar Relâmpago, o cavalo que o capitão Branco arranjara maneira de lhe ser vendido, e atrelou-o à carroça.

Com dois estalidos e um "uga!" veemente, convenceu o belo cavalo a pôr-se em marcha e a carroça começou a rodar aos solavancos pelo caminho de pedras e poças e lama. Já daquela forma tinha por várias vezes percorrido a estrada sinuosa que bordejava as margens escarpadas do Baceiro e do Tuela, atravessando os prados alcatifados de verdura entre Vinhais e Bragança para transportar animais doentes ou rações especiais. Dessa vez, porém, a carga era a própria mulher e o filho que talvez ela lhe trouxesse.

O delegado de saúde preparava-se para sair do hospital civil quando Relâmpago se imobilizou à porta das urgências e Luís saltou da carroça.

"Olá, Fernando, dás-me aqui uma ajudinha?"

"O que se passa?"

O veterinário dirigiu-se para a traseira da carroça.

"É a Joana", disse, estendendo o braço para ajudar a mulher a descer. "Acho que está grávida."

O doutor Fernando Leite era o seu velho amigo da Escola Superior de Veterinária. Depois de terminar o curso de Veterinária havia concluído que o que queria mesmo era ser médico, pelo que pedira equivalências e terminara Medicina no Porto. Uma vez completado o curso, fora de imediato colocado como delegado de saúde de Vinhais, uma terriola acima de Bragança, perto da fronteira galega, onde viera encontrar Luís, que tinha ido ocupar o lugar de veterinário quando ali chegara três anos antes, vindo de Penafiel.

O médico conduziu o casal pelos corredores ainda a cheirarem a novo do hospital acabado de construir, sempre a espreitar a paciente pelo canto do olho.

"É verdade que o senhor doutor se vai embora no final do ano?", perguntou Joana, que não se habituara a tratar o velho amigo do marido por tu nem pelo nome próprio.

"Verdadíssimo!", retorquiu o médico. "Fui promovido e vou dirigir o Hospital de Bragança."

"Isso é que é uma ascensão rápida", observou Luís. "Já viste, Fernando? Terminaste o curso há dois anos, foste colocado aqui em Vinhais e... pimba!, já estás de malas aviadas para ser director de um hospital!"

"Tens razão, tenho sorte."

"Sorte?", exclamou Joana. "Isto é um azar, senhor doutor!"

"Não diga isso! Ser director do Hospital de Bragança é uma grande honra..."