"Já não confiam na Legião, caraças. Tudo por causa destes putos novos, uns pandeiros a combater. Com uns mariconços assim, já ninguém quer a Legião para a porrada."
"Isto já não é o que era, caray!"
"Lembras-te do assalto a Badajoz? Ah, aquilo é que foi uma coisa em grande, hem? A malta a carregar a peito descoberto sobre a porta da Trinidad sob uma chuva de balas."
Suspirou. "Estes maricas que agora andam na Legião não têm tomates para fazer uma coisa dessas, caraças. Até já precisamos dos macarrões para nos ajudarem..."
"Que importa!", devolveu Juanito. "Já estou farto disto..."
"Não interessa! A Legião é a Legião! Nós somos os piores gajos que por aqui andam, ouviste? Não há tipos mais maus nem mais brutos do que nós, porra! Se estes putos novos, estes meninos da mamã, se eles não arreganham as beiças e mostram os dentes, qualquer dia as pessoas cruzam-se com um
legionário na rua e... e não se borram de medo!" Deu uma palmada no joelho. "Porra, isso não pode ser!" "Cofio! Estás cada vez mais louco, Paço!" "Não me chames Paço. Estou a avisar-te..."
O tenente Gutierrez largou-os perto de Bellpuig, onde se juntaram à sua unidade. Decorriam os preparativos para o ataque à povoação e era preciso o apoio das metralhadoras.
Francisco foi destacado para um campo de milho, onde alguns milicianos se tinham entrincheirado para travar o avanço dos nacionalistas. O português passou a tarde toda a metralhar os redutos republicanos cavados na terra, mas, ao anoitecer, e depois de uma carga dos legionários, os combates cessaram. Os milicianos sobreviventes foram arrebanhados e atirados para o curral de uma casa de campo das redondezas, tendo Francisco recebido ordens para os guardar.
Ali ficou para além do crepúsculo. Já noite cerrada, viu um vulto aproximar-se com uma lanterna na mão. Pegou na Mauser de sentinela e apontou-a à figura sombria.
"Alto! Quem vem lá?"
"Soy yo, hombre."
O clarão da lanterna deixou-lhe adivinhar o rosto macilento do oficial que nessa manhã o fora buscar à ponte do rio Segre.
"Ah, meu tenente!"
Endireitou-se e fez continência. O tenente Gutierrez cum-primentou-o com um aceno da cabeça e olhou para a porta do curral.
"Bueno, vou fazer a triagem."
"Sim, meu tenente", devolveu Francisco, destrancando o ferrolho e abrindo a porta.
O oficial fez menção de entrar, mas hesitou e parou. Inclinou-se para o lado e murmurou à sentinela portuguesa.
"Prepara-te, hem?"
"Preparo-me para quê, meu tenente?"
"Vou identificar os patriotas que foram obrigados a lutar pelos rojos e os duvidosos. Os outros ficam contigo, entendes?"
"Ficam aqui no curral?"
"Sim, bombre. Para tratares deles."
"Ah." Fez um ar intrigado. "E o que devo fazer com eles, meu tenente?"
"Ora, ora", riu-se Gutierrez. "Fuzila-os, claro."
O oficial deu-lhe uma palmada nas costas, virou a lanterna para a frente e entrou-no curral.
Por mais que Francisco se admirasse, a verdade é que não foi chamado a participar em nenhuma grande batalha no avanço das colunas nacionalistas pela Catalunha. Tudo o que encontrava pela frente não passava de escaramuças, recontros na estrada ou no campo, operações de limpeza, bombardeamentos de povoações, tiroteios esporádicos e assaltos de baioneta a pequenos redutos de milicianos.
"Já viste isto?", chegou a dizer a Juanito quando as operações se aproximaram de Bellpuig.
"Ainda não nos chamaram para fazer nada de jeito!"
"Mejor ast, no?"
"É melhor para maricôncios como tu, porra. Eu cá aborreço-me de morte."
Francisco limpava a sua velha Hotcbkiss; o óleo faltava-lhe e recorria agora à sua própria saliva.
"Para que andas tu sempre a limpar a ametralladora, bombre?"
"Ora! Para estar operacional."
"Mas tu próprio o disseste: já não nos metem em grandes operações."
O rosto do brutamontes português abriu-se num sorriso grotesco e os olhos cintilaram-lhe.
"Há sempre os fuzilamentos."
Em poucos dias os legionários ultrapassaram Bellpuig e chegaram a Montblanc, cruzaram o rio Ebro e entraram em Tarragona, tocando no Mediterrâneo. Não havia dúvidas, a resistência republicana desmoronava-se como um baralho de cartas; bastavam pequenos empurrões e era logo desbaratada.
Uma das grandes vantagens destes avanços, na perspectiva de Francisco, era o acesso a mulheres novas; havia muitas viúvas de rojos por toda a parte. Mas já nem estas violações, a que antes se dedicava com afinco nas pausas dos combates, o satisfaziam.
A culpa era de Rosa.
Durante um ano, o português habituara-se a possuir à força as namoradas e mulheres dos republicanos presos ou abatidos, até ao dia em que, em Getafe, nos arredores de Madrid, se cruzou com Rosa Fuentes, uma mulher morena e roliça, na casa dos vinte anos, viúva de um operário fuzilado três meses antes por milicianos da Falange. Francisco apanhou-a na rua, à noite, e arrastou-a à força para o seu boleto, onde a violou da forma habitual, com ameaças e estaladas, a receita do costume para as amansar e fazer cooperar.
Na noite seguinte, porém, quando regressava do turno, o legionário deu com a mesma mulher à sua espera à porta da casinha do boleto.
"Então?", admirou-se. "Não te chegou ontem?"
A mulher baixou a cabeça e quase fez beicinho.
"Não sejas bruto."
Francisco riu-se.
"Está bem, podes ficar descansada que hoje não me apetece nova dose. Mas, diz-me, o que estás aqui a fazer?"
"Chamo-me Rosa."
"Hmm... Rosa, é? O que estás aqui a fazer, Rosa?"
Ela soergueu os olhos e mirou-o com uma expressão de desafio.
"Não me queres?"
Francisco hesitou, surpreendido, mas apenas por um instante. Julgando compreender, soltou uma gargalhada.
"Precisas de dinheiro?" Abanou a cabeça. "Estás com azar, espanholita. Já te disse que hoje não estou para aí virado, venho muito cansado. Além do mais, já não pago por mulheres, sabes? Pego no que há por aí e sirvo-me."
Rosa fez um ar ofendido.
"Quem te falou em dinheiro? Achas que sou alguma puta?"
O português hesitou, desconcertado.
"Não queres dinheiro? Então o que queres tu?"
Rosa deixou a pergunta pairar no ar por momentos, como se esperasse que o silêncio respondesse por ela. Mas, pela cara de Francisco, era evidente que ele não tinha entendido, tornava-se necessário explicar-lho.
"Não me desejas?", insistiu, quase num sussurro inaudível.
"Desculpa?"
Ela endireitou o rosto bolachudo e cravou os olhos nele.
"Escolhi-te a ti, tonto."
Foi a primeira mulher que se entregou a Francisco de livre vontade. Até ali, o legionário habituara-se a pagar pelo sexo ou a forçar a mulher de um rojo que por azar se cruzasse com ele na fua. Nunca lhe tinha ocorrido que havia mulheres que se lhe
poderiam oferecer voluntariamente. Sabia que algumas o faziam, claro; tinha o exemplo de Amélia em relação a Luís, mas acreditava que só o faziam aos outros, não a ele. Não imaginava que o pudessem fazer a ele, que se oferecessem a ele, a ele, a ele que era tão feio e tão bruto e tão mau, a ele, o enjeitado, a besta, o gorila. O monstro.
E, no entanto, ali estava ela, a ardente Rosa Fuentes, abraçando-o com intensidade, acariciando-lhe as costas, bei-jando-lhe os lábios, digladiando-se com a língua, abrindo-lhe o calor do ventre, mergulhando a boca na sua erecção, cheia de iniciativa, submetendo-se-lhe com prazer, suspirando e gemendo, soltando ais e obscenidades em castelhano, vagindo descontroladamente no auge da entrega.