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Logo uma extraordinária e insistente polidez tomou conta do grupo e, segundos depois, pareciam ter atingido um consenso. Uma nova vibração espalhou-se pela nave. Slartibartfast saiu da sala de vidro.

― Bistromática ― disse. ― O maior poder computacional conhecido nos domínios da paraciência. Venham comigo até a Sala de Ilusões Informacionais.

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Slartibartfast passou e eles o seguiram, perplexos.

Capítulo 7

O Propulsor Bistromático é um novo e maravilhoso método de cruzar vastas distâncias interestelares sem todo o perigo envolvido em ficar mexendo com Fatores de Improbabilidade.

A Bistromática em si é apenas uma nova e revolucionária forma de entender o comportamento dos números. Assim como Einstein observou que o tempo não era absoluto, mas algo que dependia do movimento de um observador no espaço, e que o espaço não era absoluto, mas dependia do movimento do observador no tempo, hoje sabemos que os números não são absolutos, mas dependem do movimento do observador nos restaurantes. O primeiro número não-absoluto é o número de pessoas para quem a mesa está

reservada. Ele irá variar no decorrer das primeiras três ligações para o restaurante e depois não apresentará nenhuma relação aparente com o número de pessoas que realmente estarão presentes, ou com o número de pessoas que irão se juntar a elas depois do show, partida, festa, filme, ou ainda com o número de pessoas que irão embora ao ver quem mais apareceu por lá.

O segundo número não-absoluto é a hora real de chegada. Este numero é hoje conhecido como um dos mais bizarros conceitos matemáticos, uma reciproversexclusão, um número cuja existência só pode ser definida como sendo qualquer outra coisa diferente de si mesmo. Em outras palavras, a hora real de chegada é o único momento no tempo no qual é

impossível que qualquer participante do grupo chegue de fato. A recíproversexclusão tem, atualmente, um papel vital em diversos campos da matemática, incluindo a estatística e contabilidade, além de fazer parte das equações básicas usadas na engenharia dos campos de Problema de Outra Pessoa.

O terceiro e mais misterioso não-absolutismo de todos diz respeito à relação entre o número de itens na conta, o valor de cada item e o número de pessoas na mesa, assim como quanto cada uma delas está disposta a pagar. (O número de pessoas que trouxeram algum dinheiro é apenas um subfenômeno desse campo.)

As assombrosas discrepâncias que costumavam ocorrer nesse ponto passaram décadas sem ser estudadas simplesmente porque ninguém as levou a sério. No passado, as pessoas diziam que essas coisas eram causadas pela educação, falta de educação, avareza, desejo de aparecer, emotividade ou simplesmente porque já era tarde, e tudo era esquecido na manhã seguinte.

Nunca foram feitos testes em laboratório, é claro, porque nada disso acontecia nos laboratórios ― pelo menos não em laboratórios de boa reputação. Foi apenas com o surgimento dos computadores de bolso que a espantosa verdade finalmente se tornou evidente. Era a seguinte: Os números escritos em contas de restaurantes dentro dos confins de restaurantes não seguem as mesmas leis que os números escritos em qualquer outro tipo de papel em outros lugares do Universo. Esse fato singelo causou enorme alvoroço no mundo científico. Foi uma revolução completa. Realizaram-se tantas conferências matemáticas em bons restaurantes que as mentes mais brilhantes de toda uma geração morreram de obesidade e doenças cardíacas, retardando os progressos da matemática em alguns anos.

Aos poucos, contudo, as implicações dessa idéia começaram a ser entendidas. No início a coisa toda era muito radical, muito doidona, o tipo de coisa que faria uma pessoa

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normal dizer: "Sim, claro, exatamente o que eu teria dito." Então inventaram algumas frases como "Frameworks de Subjetividade Interativa" e, a partir daí, as pessoas relaxaram e puderam levar adiante a teoria.

Os pequenos grupos de monges que começaram a se reunir nos principais institutos de pesquisa entoando estranhos cânticos dizendo que o Universo era apenas um produto de sua própria imaginação e acabaram recebendo verbas para pesquisa teatral e foram embora.

Capítulo 8

Nas viagens espaciais, vocês sabem ― disse Slartibartfast, enquanto mexia em alguns instrumentos na Sala de Ilusões Informacionais ―, nas viagens espaciais... Parou e deu uma olhada em volta.

A Sala de Ilusões Informacionais era um alívio para os olhos após as monstruosidades da área central de computação. Não havia nada lá. Nenhuma informação, nenhuma ilusão ― apenas eles, as paredes brancas e alguns pequenos instrumentos que deveriam aparentemente ser ligados em algo que Slartibartfast não conseguia encontrar.

― Sim? ― perguntou Arthur. Ele captou o sentido de urgência de Slartibartfast, mas não tinha idéia do que fazer com ele.

― Sim o quê? ― perguntou o velho.

― O que você estava dizendo? Slartibartfast encarou-o.

― Os números ― disse então ― são terríveis. ― Continuou procurando algo. Arthur concordou, com um ar de sabedoria. Depois de algum tempo percebeu que aquilo não o levaria a lugar algum e decidiu que deveria dizer "o quê?" novamente.

― Nas viagens espaciais ― repetiu Slartibartfast ― todos os números são terríveis. Arthur assentiu novamente, olhando em volta para ver se Ford o ajudava, mas Ford estava praticando a arte de ficar ranzinza e se saindo muito bem nisso.

― Estava apenas tentando evitar que você se desse ao trabalho de me perguntar por que todos os cálculos da nave estavam sendo feitos no talão de um garçom ― disse Slartibartfast finalmente, com um suspiro. Arthur não entendeu.

― Por que ― perguntou ele ― todos os cálculos da nave estavam sendo feitos no talão de...

Parou.

Slartibartfast retrucou:

― Porque nas viagens espaciais todos os números são terríveis. Percebeu que não estava conseguindo se fazer entender.

― Preste atenção ― disse. ― No talonário de um garçom, os números mudam o tempo todo. Você já deve ter percebido.

― Bem...

― No talonário de um garçom ― continuou Slartibartfast ―, realidade e irrealidade colidem em um nível tão fundamental que as duas se fundem e qualquer coisa se torna possível, dentro de certos parâmetros.

― Quais?

― E impossível dizer ― disse Slartibartfast. ― Este é um deles. Estranho, mas verdadeiro. Pelo menos eu acho que é estranho ― acrescentou ― e me garantiram que é

verdadeiro.

Ele finalmente localizou na parede o orifício que estava Procurando e inseriu o instrumento que segurava.

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― Não tenham medo ― disse, e subitamente ele mesmo pareceu se assustar com o instrumento, pulando para trás ―, é que...

Não ouviram o que ele disse porque naquele momento a nave piscou e sumiu ao redor deles e uma astronave de combate do tamanho de uma cidade industrial surgiu cortando a na direção deles, disparando seus lasers estelares.

Capítulo 9

Outro mundo, outro dia, outro amanhecer. O primeiro tênue raio de luz matinal apareceu sem alarde.

Muitos bilhões de trilhões de toneladas de núcleos de hidrogênio superaquecidos explodindo se levantaram aos poucos sobre o horizonte e conseguiram parecer pequenos, frios e ligeiramente úmidos.

Há um momento em cada amanhecer no qual a luz parece flutuar e tudo parece mágico. A criação prende a respiração.

O momento passou sem incidentes, como habitualmente ocorre em Squornshellous Zeta.

A névoa aderia à superfície dos pântanos, acinzentando as nissáceas e borrando os altos juncos. Pairava estática como uma respiração presa.