Mat apertou os joelhos nos flancos de Pips e o conduziu para mais perto. Ele era um cavaleiro mediano, mas, às vezes, quando estava distraído, cavalgava como se tivesse nascido no lombo de um cavalo.
— Isso o surpreende? — perguntou Mat. — Depois de tudo que ele já fez? Couladin trapacearia nos dados até contra a própria mãe.
Os homens o encararam com expressões neutras, olhos feito pedras azuis. De muitas maneiras, os Aiel eram o ji’e’toh. E o que quer que Couladin fosse, aos olhos daqueles homens, ainda era Aiel. Ramos acima de clãs, clãs acima de forasteiros, Aiel acima de aguacentos.
Algumas das Donzelas se juntaram a eles: Enaila, Jolien, Adelin e a rija Sulin, com seus cabelos brancos, senhora do teto das Donzelas em Rhuidean. Ela dissera às Donzelas que ficaram que escolhessem uma substituta, e agora liderava as Donzelas que ali estavam. Todas sentiram o clima tenso e não disseram nada, as pontas das lanças pacientemente apoiadas no chão. Um Aiel calmo fazia até uma pedra parecer agitada.
Lan quebrou o silêncio.
— Se Couladin espera que você o siga, deve ter deixado uma surpresa em algum ponto da passagem. Cem homens dariam conta de proteger algumas daquelas passagens apertadas contra um exército inteiro. Imagine mil…
— Então vamos acampar aqui — anunciou Rand. — Enviaremos patrulheiros na frente, para garantir que o caminho esteja livre. Duadhe Mahdi’in?
— Buscadores das Águas — concordou Dhearic, soando contente. Aquela fora a sua sociedade, antes de ele se tornar chefe de clã.
Sulin e as outras Donzelas encararam Rand, impassíveis, enquanto o chefe dos Reyn descia a encosta. Ele escolhera patrulheiros de outras sociedades nos últimos três dias, quando começara a temer pelo que poderia encontrar à frente, e tinha a sensação de que as Donzelas sabiam que não era só uma questão de dar vez aos outros. Tentou ignorar os olhares. O de Sulin era especialmente difícil de evitar — a mulher poderia enfiar um prego na parede com aqueles olhos azul-claros.
— Rhuarc, assim que os sobreviventes forem encontrados, alimente-os. E garanta que sejam bem-tratados. Nós os levaremos conosco. — O olhar de Rand foi atraído pela muralha da cidade. Alguns Aiel já estavam usando seus arcos curvos para matar os corvos. Às vezes, Criaturas da Sombra utilizavam corvos e outros animais que se alimentavam da morte como espiões. Os Aiel os chamavam de Olhos da Sombra. Os bichos mal interrompiam seu banquete frenético até serem atravessados por uma flecha, mas um homem sábio não se arriscava com corvos ou ratos. — E cuide para que os mortos sejam enterrados. — Ao menos naquele assunto, o certo e o necessário eram iguais.
21
Uma lâmina de presente
O acampamento começou a ser montado às pressas na entrada do Passo de Jangai, afastado de Taien, estendendo-se pelas colinas ao redor, entre os esparsos arbustos espinhentos, chegando a subir as encostas das montanhas. Não que desse para enxergar muita coisa além do que havia dentro da passagem. As tendas Aiel se misturavam tão bem com o solo pedregoso que era possível não vê-las mesmo que se soubesse onde estavam e o que procurar. Nas colinas, os Aiel acampavam por clãs, mas ali na passagem se agruparam por sociedade. A maioria era de Donzelas, mas as sociedades masculinas também tinham enviado representantes, uns cinquenta de cada, que espalhavam suas tendas bem acima das ruínas de Taien, em acampamentos ligeiramente separados. Todos entendiam, ou achavam que entendiam, o fato de as Donzelas carregarem a honra de Rand, mas todas as sociedades desejavam proteger o Car’a’carn.
Moiraine — acompanhada por Lan, claro — desceu para supervisionar a acomodação dos carroções de Kadere, logo abaixo da cidade. A Aes Sedai se preocupava com o que havia naqueles carroções quase tanto quanto com Rand. Os condutores resmungavam impropérios a respeito do cheiro da cidade e evitavam olhar enquanto os Aiel arrancavam os corpos da muralha. Mas, após aqueles meses no Deserto, pareciam apreciar a proximidade até mesmo dos restos de algo que enxergavam como civilização.
Gai’shain montava as tendas das Sábias — as de Amys, Bair e Melaine — abaixo da cidade, nos dois lados da trilha desbotada que descia das colinas. Rand tinha certeza de que elas diriam que haviam escolhido o local para ficarem ao alcance dele e das incontáveis dezenas de Sábias mais embaixo, mas não achava que fosse coincidência que qualquer pessoa subindo as colinas para ir falar com ele teria que passar por dentro ou ao lado do acampamento delas para poder alcançá-lo. Ficou um pouco surpreso ao ver Melaine orientando as figuras nos roupões brancos. Apenas três noites antes, ela se casara com Bael, em uma cerimônia que a tornara esposa dele e irmã-primeira da outra esposa do homem, Dorindha. Aparentemente, essa parte fora tão importante quanto o próprio casamento. Aviendha ficara chocada — ou talvez irritada — com a surpresa de Rand.
Quando Egwene chegou montada na égua cinzenta, com Aviendha na garupa, as saias compridas puxadas até acima dos joelhos, as duas pareciam um par, apesar da cor de pele diferente e de Aviendha ser alta o bastante para olhar por cima do ombro de Egwene sem esticar o pescoço, cada uma usando apenas um bracelete de marfim e um colar. O trabalho de remover os corpos enforcados mal havia começado. A maior parte dos corvos já estava morta no chão, montes de penas negras se espalhando por todo lado, e o restante do bando tinha voado, mas abutres empanturrados demais para alçar voo ainda bamboleavam em meio às cinzas dentro das muralhas da cidade.
Rand queria poder evitar que as duas mulheres vissem a cena, mas, para sua surpresa, nenhuma delas saiu correndo para esvaziar o estômago. Bem, ele de fato não esperara algo do tipo por parte de Aviendha, que já vira e lidara com a morte com alguma frequência, e cujo rosto se manteve neutro. Mas não esperara a compaixão pura nos olhos de Egwene enquanto observava os cadáveres inchados sendo trazidos para baixo.
A garota guiou Bruma para junto de Jeade’en e se inclinou para tocar o braço de Rand.
— Eu sinto muito, Rand. Não tinha como você ter evitado isso.
— Eu sei — respondeu ele.
Rand nem sabia que existia uma cidade ali até Rhuarc mencioná-la por acaso, cinco dias antes — todas as reuniões com os chefes só tratavam da possibilidade de conseguirem cobrir mais distância por dia e do que Couladin faria quando atravessasse Passo de Jangai — e, àquela altura, os Shaido já haviam terminado o trabalho ali e ido embora. Rand já estava cansado de se xingar de idiota.
— Bem, é só para você se lembrar. A culpa não foi sua. — Egwene cutucou Bruma com os calcanhares e começou a falar com Aviendha antes de estar longe demais para ser ouvida. — Estou contente por Rand estar encarando tudo isso tão bem. Ele tem o hábito de se sentir culpado por coisas que não tem como controlar.
— Os homens sempre acreditam que têm o controle de tudo que está ao redor deles — retrucou Aviendha. — Quando se dão conta de que não é bem assim, acham que falharam, em vez de aprender uma verdade bem simples que as mulheres já conhecem.
Egwene deu risada.
— Esta é a verdade pura e simples. Assim que vi aquela pobre gente, achei que fôssemos encontrá-lo vomitando em algum canto.
— O estômago dele é tão sensível assim? Eu…
As vozes das duas foram sumindo à medida que a égua se afastava a passos lentos. Rand se endireitou na sela, ruborizando. Estava se comportando feito um idiota, tentando escutar a conversa delas. Mas isso não o impediu de franzir o cenho na direção das costas de ambas. Só assumia responsabilidade pelo que lhe cabia, mesmo que só em sua opinião. Só pelas coisas pelas quais podia fazer algo a respeito. Não gostava que elas estivessem falando sobre ele, fosse pelas costas ou bem debaixo do nariz. Só a Luz sabia o que estariam dizendo.