— Olha o que estava aqui antes da gente — disse Aviendha, enquanto Rand entregava as rédeas de Jeade’en a uma gai’shain de rosto tranquilo.
Aviendha tinha nas mãos uma cobra marrom já morta, da grossura do antebraço dele e com mais de três passadas de comprimento. A cobra-sangue era chamada assim por conta do efeito de sua picada, que transformava o sangue em geleia em minutos. A menos que ele estivesse enganado, o corte certeiro em cima da cabeça do bicho fora feito pela adaga de Aviendha. Adelin e as outras Donzelas olhavam com aprovação.
— Você parou para pensar que poderia ter sido picada? — perguntou ele. — Chegou a pensar em usar o Poder, em vez de uma maldita adaga? Por que não deu um beijo nela primeiro? Com certeza chegou perto o bastante para isso.
Ela se empertigou, os grandes olhos verdes quase fazendo o frio da noite chegar mais cedo.
— As Sábias dizem que não é bom usar o Poder com muita frequência. — As palavras contidas foram tão frias quanto seus olhos. — Elas dizem que é possível segurar Poder demais e se machucar. — Com um leve franzir de cenho, ela acrescentou, mais para si mesma do que para ele: — Apesar de eu ainda nem ter chegado perto do meu limite. Tenho certeza.
Balançando a cabeça, ele se abaixou e entrou na tenda. A mulher não lhe daria ouvidos.
Mal tinha se acomodado em uma almofada de seda próxima da fogueira ainda apagada quando ela entrou. Sem a cobra-sangue, ainda bem, mas carregando cautelosamente um objeto longo enrolado em grossas camadas de um cobertor com listras cinzas.
— Você estava preocupado comigo — afirmou ela, com voz neutra. Não havia expressão alguma em seu rosto.
— Claro que não — mentiu ele. Tola. Ainda vai acabar morrendo por não ter o senso de ser cuidadosa quando necessário. — Me preocuparia do mesmo jeito com qualquer pessoa. Não quero ver ninguém picado por uma cobra-sangue.
Por um momento, ela o encarou com desconfiança, depois assentiu rapidamente.
— Bom. Contanto que você não suponha nada a meu respeito. — Colocando o cobertor enrolado aos pés de Rand, ela se pôs de cócoras no outro lado da fogueira, na frente dele. — Você não aceitou a fivela como cancelamento da dívida entre nós…
— Não existe dívida, Aviendha. — Rand pensou que ela tinha se esquecido daquilo. Ela continuou falando como se ele nem tivesse aberto a boca.
— …mas talvez isto a cancele.
Rand suspirou e pegou o cobertor listrado — mas com cautela, já que ela o segurara com muito mais desconforto do que o fizera com a maldita cobra, que manuseara como se fosse um pedaço de pano —, desenrolou-o e ficou de queixo caído. O que havia dentro era uma espada, a bainha tão incrustada de rubis e pedras-da-lua que era difícil enxergar o ouro, exceto pelo ponto entalhado com um sol nascente e seus raios. O punho de marfim, longo o bastante para duas mãos, tinha outro sol nascente incrustado em ouro. Com rubis e pedras-da-lua, o pomo era maciço, e mais pedras criavam uma massa sólida ao longo do guarda-mão. Não fora feita para uso, apenas para ser vista. Para ser contemplada.
— Isto deve ter custado… Aviendha, como você conseguiu comprar isso aqui?
— Custou pouco — respondeu ela, tão na defensiva que a mentira ficou óbvia.
— Uma espada. Como você arrumou uma espada? Como qualquer Aiel arrumou uma espada? Não me diga que Kadere tinha escondido isto nos carroções dele.
— Eu a trouxe em um cobertor. — Ela soou mais nervosa do que quando falara sobre o preço. — Até Bair falou que não teria problema, desde que eu não chegasse a encostar nela. — Aviendha deu de ombros, desconfortável, mexendo e remexendo no xale. — Era a espada do assassino da árvore. De Laman. Foi tirada do corpo dele como prova de que estava morto, já que a cabeça não poderia ser trazida tão longe. Desde então, passou de mão em mão, para rapazes ou Donzelas tolas que queriam possuir a prova da morte dele. Só que todos logo começavam a pensar no que tinha nas mãos e a vendiam para outro tolo. O preço diminuiu bastante desde que foi vendida pela primeira vez. Nenhum Aiel colocaria as mãos nela, nem mesmo para remover as pedras.
— Bom, é muito bonita — disse ele, tão diplomaticamente quanto possível. Só um bufão carregaria algo tão chamativo. E aquele punho de marfim perderia a firmeza em uma mão escorregadia de suor ou sangue. — Mas não posso aceitar…
Ele se interrompeu ao desnudar umas poucas polegadas da lâmina, por força do hábito, para examinar o fio. Gravada no aço brilhante havia uma garça, símbolo de um mestre espadachim. Ele já tivera nas mãos uma espada com aquela marca. Teve um estalo, e poderia apostar que aquela lâmina era igual àquela outra espada, igual à lâmina com a marca do corvo na lança de Mat — um metal forjado com o Poder e que nunca se quebraria ou precisaria ser afiado. A maior parte das espadas dos mestres espadachins não passava de cópias daquelas. Lan poderia confirmar, mas Rand já tinha certeza.
Retirando a bainha, ele se inclinou para pousá-la à frente da mulher.
— Vou aceitar a lâmina como cancelamento da dívida, Aviendha. — Era comprida e levemente curvada, com fio único. — Só a lâmina. Você também pode levar o punho de volta. — Rand poderia mandar fazer um punho e uma bainha nova em Cairhien. Talvez um dos sobreviventes de Taien fosse um cuteleiro decente.
Com olhos arregalados, Aviendha alternou o olhar entre a bainha e Rand, boquiaberta, pela primeira vez mostrando espanto diante dele.
— Mas estas gemas valem muito, muito mais do que eu… Está tentando me deixar novamente em dívida com você, Rand al’Thor.
— Nada disso. — Se aquela lâmina permanecera intocada e imaculada dentro da bainha por mais de vinte anos, tinha que ser o que ele pensava que fosse. — Eu não aceitei a bainha, então ela foi sua o tempo todo. — Lançando para o ar uma das almofadas de seda, Rand executou a versão sentada da forma chamada Vento Fraco Aumentando. Choveram penas quando a lâmina a fatiou com perfeição. — E também não aceito o punho, então ele também é seu. Se teve algum lucro, o mérito é seu.
Em vez de parecer feliz com boa sorte — ele suspeitava que ela tivesse dado tudo o que tinha pela espada, e provavelmente recuperado cem vezes o valor ou até mais só com a bainha —, em vez de aparentar satisfeita, ou de agradecê-lo, Aviendha fitou as penas com um olhar tão indignado quanto qualquer dona de casa de Dois Rios faria ao ver seu chão todo sujo. Inflexível, ela bateu palma, e uma das gai’shain apareceu, ajoelhando-se imediatamente para limpar a bagunça.
— A tenda é minha — declarou Rand, enfático. Aviendha bufou para ele, imitando Egwene à perfeição. Aquelas duas, definitivamente, estavam passando tempo demais juntas.
Quando o jantar foi servido, já estava totalmente escuro. Comeram fatias de pão claro e um ensopado picante, com feijões, pimentões secos e pedaços de uma carne quase branca. Rand apenas sorriu para ela ao saber que se tratava da cobra-sangue. Já comera cobra e coisas piores desde que fora para o Deserto. Gara, o lagarto venenoso, era o pior de todos, na opinião dele. Não pelo gosto, que era bem parecido com frango, mas porque era um lagarto. Às vezes achava que devia ter mais seres venenosos — serpentes, lagartos, aranhas, plantas — no Deserto do que em todo o resto do mundo.
Aviendha pareceu decepcionada por ele não ter cuspido o ensopado com uma careta de nojo, embora às vezes fosse difícil dizer o que ela estava sentindo. Em certas ocasiões, a mulher parecia se divertir muito em deixá-lo desconcertado. Se Rand estivesse tentando fingir que era um Aiel, teria pensado que ela estava tentando provar que ele não era.
Cansado e querendo ir dormir, ele apenas tirou o casaco e as botas antes de rastejar para debaixo dos cobertores e virar as costas para Aviendha. Os homens e as mulheres Aiel podiam tomar banhos de vapor juntos, mas uma curta estada em Shienar, onde se fazia algo muito parecido, convencera-o de que não tinha nascido para aquele tipo de coisa. Não sem ficar com o rosto tão vermelho que poderia morrer. Tentou não prestar atenção no farfalhar de Aviendha se despindo debaixo dos próprios cobertores. Ao menos ela tinha certo pudor, mas, mesmo assim, por via das dúvidas, ele se manteve de costas.