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Aviendha afirmava que deveria dormir na tenda com ele para dar continuidade às aulas sobre os modos e costumes Aiel, já que Rand passava um bocado dos dias na companhia dos chefes. Ambos sabiam que era mentira, embora ele não imaginasse o que as Sábias pensavam que a mulher descobriria daquela maneira. De vez em quando, ela soltava pequenos grunhidos ao puxar alguma peça de roupa e resmungava sozinha.

Para abafar os ruídos e fazê-lo parar de pensar no que eles significavam, Rand disse:

— Fiquei impressionado com o casamento de Melaine. Bael realmente não sabia de nada até ela e Dorindha falarem com ele?

— Claro que não — respondeu Aviendha, com desdém, fazendo uma pausa para o que Rand achou que fosse uma meia sendo tirada. — Por que ele deveria saber antes que Melaine depositasse a grinalda nupcial aos seus pés e o pedisse em casamento? — Ela gargalhou abruptamente. — Melaine quase enlouqueceu Dorindha procurando flores de segade para a grinalda. São incomuns aqui, tão perto da Muralha do Dragão.

— Isso tem algum significado especial? As flores de segade? — Tinham sido as flores que ele havia mandado para Aviendha, flores pelas quais ela nunca agradecera.

— Que ela tem personalidade forte e pretende continuar assim. — Mais uma pausa, quebrada por resmungos. — Se ela tivesse usado folhas ou flores de raiz-doce, significaria uma personalidade doce. Gota-da-manhã significaria que ela é submissa, e… São flores demais para listar. Eu levaria dias para ensinar todas as combinações, e você não precisa saber. Sua esposa não será uma Aiel. Você pertence a Elayne.

Rand quase olhou para Aviendha quando ela disse “submissa”. Não conseguia conceber uma palavra menos provável para descrever qualquer mulher Aiel. Provavelmente significa que ela avisaria antes de apunhalar.

A voz dela soara mais do que um pouco abafada ao fim da frase. Aviendha estava puxando a blusa pela cabeça, percebeu. Rand desejou que as lamparinas estivessem apagadas. Não, isso teria piorado as coisas. Em todo caso, passara por isso todas as noites desde Rhuidean, e a cada noite ficava pior. Precisava acabar com aquilo. Dali em diante, a mulher iria dormir com as Sábias, onde era o lugar dela. Aprenderia o que pudesse com Aviendha, mas só quando pudesse. Já fazia quinze noites que pensava exatamente a mesma coisa.

Tentou afastar as imagens da cabeça.

— Aquela parte do fim. Depois que os juramentos foram feitos. — Logo depois que meia dúzia de Sábias deram suas bênçãos, cem parentes de sangue de Melaine correram para cercá-la, todos carregando lanças. Uma centena de parentes de sangue de Bael havia se juntado a ele, que precisara abrir caminho para alcançá-la. Claro que ninguém velara o rosto e tudo fazia parte dos costumes, mas ainda assim, nos dois lados, sangue havia sido derramado. — Alguns minutos antes, Melaine estava fazendo juras de amor, mas, quando ele se aproximou, ela lutou feito um gato-selvagem encurralado. — Se Dorindha não tivesse socado a mulher nas costelas, Rand achava que Bael jamais teria conseguido jogá-la no ombro e levá-la embora. — Ele ainda manca e está com o olho roxo.

— E ela deveria ter se comportado feito uma fracote? — perguntou Aviendha, sonolenta. — Ele precisava saber o valor dela. Melaine não era só um enfeite para ele colocar na bolsa. — Ela bocejou, e Rand a ouviu se aconchegar melhor nos lençóis.

— O que significa “ensinar um homem a cantar”? — Os Aiel não cantavam, não depois de terem idade suficiente para pegar em uma lança, a não ser por cantos de guerra e lamúrias para os mortos.

— Está pensando em Mat Cauthon? — Ela riu. — Às vezes, um homem abre mão da lança por uma Donzela.

— Você está inventando. Nunca ouvi falar disso.

— Bem, não é exatamente abrir mão da lança. — A voz dela sugeria que já estava quase adormecendo. — Às vezes, um homem deseja uma Donzela que não vai abrir mão da lança por ele, aí dá um jeito de virar seu gai’shain. Um tolo, é claro. Donzela nenhuma olharia para um gai’shain como o homem esperaria. Ele tem que trabalhar muito e ficar quieto no lugar dele, e a primeira providência que tomam é fazê-lo aprender a cantar para distrair as irmãs-de-lança enquanto elas comem. “Ela vai ensiná-lo a cantar.” É isso que as Donzelas dizem quando um homem se faz de bobo com uma das irmãs-de-lança.

Os Aiel eram um povo muito peculiar.

— Aviendha? — Ele tinha dito que não voltaria a lhe perguntar aquilo. Lan dissera que era uma peça Kandori, uma padronagem chamada de flocos de neve. Provavelmente saqueada durante algum ataque no norte. — Quem lhe deu esse colar?

— Ganhei de uma pessoa próxima, Rand al’Thor. Viajamos muito hoje, e você vai nos fazer começar cedo amanhã. Durma bem e acorde amanhã, Rand al’Thor. — Só um Aiel desejaria boa-noite esperando que a pessoa não morresse durante o sono.

Montando uma proteção bem menor, mas muito mais intricada, em seus sonhos Rand canalizou para apagar as luzes e tentou dormir. Uma pessoa próxima. Os Reyn tinham vindo do norte. Mas ela já estava com o colar em Rhuidean. Por que ele se importava? A respiração lenta de Aviendha soava alta no ouvido de Rand, até que ele dormiu e teve um sonho confuso em que Min e Elayne o ajudavam a jogar Aviendha — que usava apenas aquele colar — em seu ombro, enquanto ela batia na cabeça dele com uma grinalda de flores de segade.

22

Pássaros na noite

Deitado de bruços em meio aos cobertores, de olhos fechados, Mat se deleitava com os polegares de Melindhra descendo por suas costas. Não havia nada tão bom quanto uma massagem após um longo dia de montaria. Bem, até havia, mas, naquele momento, ele se daria por satisfeito com os polegares dela.

— Você é bem musculoso para um homem tão baixo, Matrim Cauthon.

Ele abriu um dos olhos e a encarou; ela estava montada em sua cintura. Melindhra deixara o fogo duas vezes mais forte que o necessário, e suor lhe escorria pelo corpo. O cabelo liso e bem curto, exceto por aquele rabo de cavalo Aiel à nuca, estava grudado à cabeça.

— Se me acha baixo demais, sempre pode ir atrás de outra pessoa.

— Você não é baixo demais para o meu gosto. — Ela gargalhou, bagunçando seu cabelo. Era mais comprido que o dela. — E é bonitinho. Relaxe. Nada disto vai adiantar se você ficar tenso.

Mat grunhiu e tornou a fechar os olhos. Bonitinho? Luz! E baixo. Só uma Aiel poderia chamá-lo de baixo. Em todas as outras terras onde já tinha estado, era mais alto que a maioria dos homens, ainda que nem sempre por muito. Lembrava-se de ser alto, mais alto que Rand, quando cavalgara contra Artur Asa-de-gavião. E, ao lutar ao lado de Maecine contra os Aelgari, era um palmo mais baixo do que agora. Havia conversado com Lan, dizendo que ouvira uns nomes por alto. O Guardião lhe contara que Maecine fora rei de Eharon, uma das Dez Nações — essa parte Mat já sabia —, uns quatrocentos ou quinhentos anos antes das Guerras dos Trollocs. Lan duvidava que até a Ajah Marrom soubesse mais que aquilo. Muito se perdera nas Guerras dos Trollocs, e mais ainda na Guerra dos Cem Anos. Aquelas eram as lembranças mais antiga e mais recente que haviam sido plantadas em sua cabeça. Nada depois de Artur Paendrag Tanreall, e nada antes de Maecine de Eharon.

— Está com frio? — indagou Melindhra, incrédula. — Você tremeu. — Ela saiu de cima dele, e Mat escutou quando a mulher colocou mais lenha no fogo. Havia bastante madeira ali para ser queimada. A Aiel lhe deu um forte tapa no traseiro quando voltou a subir e murmurou: — Bela musculatura.