O Trolloc caiu com a garganta retalhada, e ele se viu encarando um Myrddraal que tinha acabado de matar dois Aiel que o atacaram ao mesmo tempo. O Meio-homem parecia um humano de pele branca como leite azedo usando uma armadura com escamas negras, feito uma cobra. E também se movia feito uma serpente, rápido e fluido, a capa negra como a noite permanecendo imóvel, não importava como ele se mexesse. E não tinha olhos. Onde seus olhos deveriam estar, havia apenas uma camada de pele tão branca quanto a de um cadáver.
Aquele olhar sem olhos se virou para Mat, que estremeceu, o medo penetrando seus ossos. “O olhar do Sem-olhos é o próprio medo”, diziam nas Terras da Fronteira, onde tinham experiência nisso, e até os Aiel admitiam que a encarada de um Myrddraal disparava arrepios pela espinha. Essa era a primeira arma da criatura. O Meio-homem avançou para ele em uma corrida fluida.
Com um urro, Mat correu para enfrentá-lo, a lança girando feito um bastão, investindo, sempre em movimento. A criatura manejava uma lâmina tão escura quanto a própria capa, uma espada talhada nas forjas de Thakan’dar, e, se aquilo o cortasse, Mat estaria praticamente morto — a não ser que Moiraine aparecesse rápido para Curá-lo. Mas só havia um modo infalível de derrotar um Desvanecido: um ataque brutal. Era preciso destruí-lo antes que ele o destruísse, e parar para pensar em se defender era uma boa forma de morrer. Mat não podia nem pensar na batalha enfurecida que o cercava.
A lâmina do Myrddraal cintilava feito a língua de uma serpente e movia-se feito um relâmpago, mas para contra-atacar as investidas de Mat. Quando o aço com a marca do corvo, forjado com o Poder, encontrava o metal oriundo de Thakan’dar, uma luz azul brilhava em torno deles e ouvia-se um crepitar como o de raios no céu.
De repente, o ataque cortante de Mat atingiu a carne. A espada negra e a mão pálida voaram para longe, e, na volta, o golpe rasgou a garganta do Myrddraal, mas Mat não parou. Uma investida no coração, um corte em um dos tendões atrás do joelho, depois no outro, tudo em rápida sucessão. Só então se afastou da coisa ainda se debatendo no chão, agitando-se com a única mão que restava e o toco de braço cortado, as feridas esguichando sangue negro. Meios-homens levavam um bom tempo para aceitar que estavam mortos. E não morriam completamente, a não ser com o sol se pondo.
Examinando o entorno, Mat percebeu que o ataque havia acabado. Quaisquer Amigos das Trevas ou Trollocs que não estivessem mortos haviam fugido. Ao menos ele não via ninguém de pé, exceto os Aiel. Alguns também tinham sucumbido. Mat arrancou um lenço do pescoço do cadáver de um Amigo das Trevas para limpar o sangue negro do Myrddraal da ponta de sua lança. Se demorasse a fazer isso, o sangue iria corroer o metal.
Aquele ataque noturno não fazia sentido. Pelos corpos que via ao luar, Trollocs e humanos, nenhum passara muito da primeira fileira de tendas. E sem números muito maiores, os inimigos não poderiam esperar fazer melhor que isso.
— O que foi aquilo que você gritou? Carai alguma coisa. Língua Antiga?
Mat se virou para olhar Melindhra. Ela baixara o véu, mas ainda não trajava um fiapo a mais do que a shoufa. Havia outras Donzelas por ali, homens também, usando tão pouco quanto e demonstrando o mesmo descaso, embora a maioria parecesse estar voltando para as tendas sem se demorar. Eles não tinham muito pudor, era isso. Nenhum pudor. Melindhra nem parecia sentir frio, apesar de a respiração soltar vapor. Mat estava tão suado quanto ela e, agora que não estava mais preocupado em lutar pela própria vida, se sentia congelando.
— Foi uma coisa que eu ouvi, certa vez — respondeu. — E gostei de como soa.
Carai an Caldazar! Pela honra da Águia Vermelha. O cântico de guerra de Manetheren. A maioria de suas lembranças eram de Manetheren. Algumas ele ganhara antes do batente retorcido. Moiraine dissera que era o Sangue Antigo surgindo. Contanto que não surgisse esguichando de suas veias, tudo bem.
Melindhra passou o braço em torno dos ombros de Mat enquanto ele rumava de volta para a tenda do casal.
— Vi você com o Mensageiro da Noite, Mat Cauthon. — Era um dos termos dos Aiel para os Myrddraal. — Você tem a altura que um homem precisa ter.
Sorrindo, ele envolveu a cintura dela, mas não conseguia tirar o ataque da cabeça. Queria — os pensamentos eram muito confusos em suas lembranças emprestadas —, mas não conseguia. Por que alguém deflagrara um ataque tão sem perspectivas? Só um tolo atacaria sem motivo uma força tão superior. Era esse pensamento que ele não conseguia afastar. Ninguém atacava sem motivo.
O piar dos pássaros fez Rand despertar imediatamente. Agarrando saidin, jogou os cobertores para o lado e saiu correndo sem nem vestir o casaco ou calçar as botas. A noite estava fria e iluminada pelo luar, sons distantes de batalha flutuavam das colinas abaixo da passagem. Em volta, Aiel se agitavam feito formigas apressadas, disparando pela noite até os pontos que poderiam ser atacados, ali na passagem. As proteções permaneceriam — Crias da Sombra na passagem disparariam o piar de um tentilhão — até que ele as desfizesse, de manhã, mas não havia razão para correr riscos tolos.
A passagem logo voltou a ficar tranquila, os gai’shain em suas tendas, proibidos de tocar em armas mesmo naquela situação, os outros Aiel a postos nos locais que talvez precisassem de defesa. Até Adelin e as outras Donzelas tinham partido, como se soubessem que Rand as deteria, caso esperassem. Ele ouvia alguns murmúrios vindos dos vagões perto das muralhas da cidade, mas nem os condutores nem Kadere deram as caras. Rand não esperava que dessem. Os sons distantes de batalha — homens berrando, gritando, morrendo — vinham de duas direções. Ambas abaixo, bem longe dele. Também havia pessoas do lado de fora das tendas das Sábias. Pareciam olhar na direção do confronto.
Um ataque lá embaixo não fazia sentido. Não eram os Miagoma, a menos que Timolan tivesse aceitado Crias da Sombra em seu clã, o que era tão provável quanto Mantos-brancos recrutando Trollocs. Rand se virou para a tenda e, mesmo envolto pelo Vazio, levou um susto.
Aviendha saíra para a luz do luar, um cobertor enrolado no corpo. Logo atrás dela havia um homem alto com um manto escuro. As sombras do luar perpassaram um rosto macilento, pálido demais, com olhos grandes demais. Um canto baixo se fez ouvir, e o manto se abriu — Rand percebeu que na verdade eram compridas asas coriáceas, como as de um morcego. Movendo-se como se hipnotizada, Aviendha caminhou para os braços da criatura.
Rand canalizou, e um fio de fogo devastador passou flamejando por ela, uma flecha de luz sólida que atingiu o Draghkar na cabeça. O efeito daquela corrente mais fina foi mais lento, mas não menos certeiro do que contra os Cães das Trevas. As cores da criatura se inverteram, o preto virando branco e o branco virando preto, até que ela se transformou em partículas brilhantes que se derreteram no ar.
Aviendha estremeceu quando o canto cessou, encarando as últimas partículas que desapareciam, e se virou para Rand, apertando o cobertor contra o corpo. Ela ergueu a mão, e um raio de fogo com a espessura da cabeça de Rand rugiu na direção dele.
Assustado mesmo dentro do Vazio, sem nem pensar em usar o Poder, ele se atirou no chão para fugir das chamas ondulantes. Elas feneceram logo depois.
— O que você está fazendo? — berrou Rand, tão furioso e chocado que o Vazio se rompeu e saidin sumiu de dentro dele. Esforçou-se para ficar de pé e caminhou com firmeza na direção dela. — Isto supera qualquer ingratidão de que eu já tenha ouvido falar! — Ia sacudi-la até fazer os dentes da mulher rangerem. — Acabei de salvar sua vida, caso não tenha percebido, e se ofendi algum maldito costume Aiel, não estou nem…!