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— Nós… Eu… falhei — disse Adelin. — Deveríamos ter estado aqui quando o Draghkar apareceu. Em vez disso, saímos correndo feito crianças para dançar as lanças.

— E o que eu devo fazer com estas lanças? — perguntou Rand.

— O que quiser, Car’a’carn. Estamos prontas e não iremos resistir — respondeu Adelin, sem hesitar.

Rand balançou a cabeça. Malditos Aiel com seu maldito ji’e’toh.

— Fiquem com elas e voltem a proteger minha tenda. Está bem? Vão. — As mulheres se entreolharam antes de começarem a obedecer, mas de modo tão relutante quanto haviam se aproximado dele de início. — E uma de vocês trate de dizer a Aviendha que vou entrar assim que voltar — completou ele. Não iria passar a noite inteira do lado de fora se perguntando se era seguro ou não voltar para a tenda. Saiu a passos firmes, o chão pedregoso bem duro sob os pés.

A tenda de Asmodean não ficava muito longe da dele. Não se ouvira um som sequer vindo dela. Rand tratou de abrir a aba e se abaixou para entrar. Asmodean estava sentado no escuro, mordendo o lábio. O homem se encolheu quando Rand surgiu, e não lhe deu chance para falar.

— Você não esperava que eu participasse da luta, esperava? Eu senti os Draghkar, mas você podia dar conta deles, e deu. Eu nunca gostei de Draghkar. Nunca deveríamos ter feito esses bichos. Têm menos cérebro que um Trolloc. Dê uma ordem e, ainda assim, eles às vezes matam o que estiver mais perto. Se eu tivesse saído, se tivesse feito alguma coisa… E se alguém percebesse? E se eles se dessem conta de que não tinha como ser você canalizando? Eu…

— Bom para você que não tenha saído — interrompeu Rand, sentando-se de pernas cruzadas no escuro. — Se eu tivesse sentido você canalizando lá fora hoje à noite, poderia tê-lo matado.

A gargalhada do outro homem foi vacilante.

— Também pensei nisso.

— Foi Sammael quem enviou o ataque de hoje. Os Trollocs e os Amigos das Trevas, pelo menos.

— Não é do feitio de Sammael desperdiçar homens — disse Asmodean lentamente. — Mas ele veria dez mil mortos, ou dez vezes mais que isso, se achasse que o preço vale a pena. Talvez um dos outros queira que você pense que foi ele. Mesmo que os Aiel tivessem feito prisioneiros… Trollocs não pensam em muita coisa além de matar, e Amigos das Trevas acreditam no que lhes dizem.

— Foi ele. Uma vez, Sammael usou o mesmo método para tentar me fazer atacá-lo, em Serendahar. — Ah, Luz! O pensamento flutuou pela superfície do Vazio. Eu disse “me”. Rand nem sabia onde ficara Serendahar, ou de nada do que acabara de dizer. As palavras haviam simplesmente saído.

— Eu nunca soube disso — disse Asmodean, hesitante, após um longo silêncio.

— O que eu quero saber é: por quê?

Rand escolheu as palavras com cuidado, torcendo para que todas fossem suas. Ele se recordava do rosto de Sammael, um homem… Não é minha. Essa lembrança não é minha… um homem compacto com uma barba loura cerrada. Asmodean descrevera todos os Abandonados, mas Rand sabia que aquela imagem não era fruto da descrição. Sammael sempre quisera ser mais alto, e se ressentia de que o Poder não fosse capaz de mudar sua altura. Asmodean nunca lhe dissera isso.

— Pelo que você me contou, ele não ia querer me enfrentar, a menos que tivesse certeza da vitória, e talvez nem assim. Você disse que era provável que ele me deixasse para o Tenebroso, se possível. Então por que agora Sammael tem certeza de que vai vencer, caso eu decida ir atrás dele?

Discutiram a questão no escuro por horas, sem chegar a nenhuma conclusão. Asmodean pensava que havia sido um dos outros, esperando jogar Rand contra Sammael e se livrar de um deles ou de ambos. Ao menos foi o que Asmodean disse que achava. Rand sentia os olhos escuros do homem em si, ponderando. Aquele lapso fora grande demais para ser consertado.

Quando finalmente retornou para a própria tenda, Adelin e as doze Donzelas ficaram de pé de um pulo, todas dizendo juntas que Egwene tinha ido embora e que Aviendha dormira havia muito, que estava com raiva dele, que ambas estavam. As mulheres deram tantos conselhos diferentes sobre como lidar com a raiva das garotas, todos ao mesmo tempo, que Rand não entendeu nenhum. Por fim, ficaram em silêncio, entreolhando-se, até Adelin se pronunciar.

— Precisamos conversar sobre hoje à noite. Sobre o que fizemos e o que deixamos de fazer. Nós…

— Não foi nada — disse ele —, e, se tivesse sido, estaria perdoado e esquecido. Agora eu gostaria de ter algumas horas de sono. Se quiserem discutir isso, vão falar com Amys ou Bair. Tenho certeza de que elas vão entender melhor do que eu o que vocês esperam. — Surpreendentemente, aquilo as fez se calar e permitiu que ele entrasse.

Aviendha estava enrolada nos lençóis, com uma das pernas, magra e despida, para fora. Rand tentou não olhar. A garota deixara uma lamparina acesa. Agradecido, ele entrou debaixo dos próprios cobertores e canalizou para apagar a luz antes de soltar saidin. Desta vez, sonhou com Aviendha lançando fogo, só que ela não o lançava em um Draghkar, e Sammael estava sentado ao lado dela, gargalhando.

23

“Eu lhes concedo o quinto”

Conduzindo Bruma pelo topo gramado de uma colina, Egwene observava a massa de Aiel descendo de Passo de Jangai. A sela havia tornado a puxar suas saias acima do joelho, mas agora ela já quase não percebia. Não tinha como ficar se preocupando com aquilo a cada minuto. E estava de meias. Não era como se estivesse com as pernas à mostra.

Os Aiel afluíam abaixo dela, trotando em colunas, organizados por clã, ramo e sociedade. Milhares e milhares, com seus cavalos e mulas de carga e os gai’shain, que cuidavam dos acampamentos enquanto o restante lutava; a multidão estendia-se por uma milha, sem contar os outros na passagem ou já à frente, fora de vista. Mesmo sem famílias, parecia uma nação em marcha. O Caminho da Seda fora uma estrada naquele ponto, com boas cinquenta passadas de largura e pavimentada com grandes pedras brancas, atravessando colinas para se manter plana. Só era possível ter vislumbres da estrada em meio à massa de Aiel, embora eles parecessem preferir andar na grama, mas muitas das pedras do pavimento tinham se erguido em uma das pontas ou afundado em outra. Fazia mais de vinte anos que apenas as carroças dos fazendeiros locais e um punhado de carroções trafegava por ali.

Era surpreendente voltar a ver árvores — árvores de verdade, imensos carvalhos e folhas-de-couro em meio a verdadeiros matagais, em vez de uma ou outra forma atrofiada e retorcida pelo vento. Além disso, uma grama alta se balançava ao vento ao longo das colinas. Havia uma floresta de verdade ao norte, e nuvens no céu, tênues e altas, mas nuvens. O ar parecia abençoadamente fresco depois do Deserto, e úmido, apesar das folhas marrons e das grandes trilhas também marrons em meio aos gramados indicarem que, na realidade, talvez estivesse mais quente e seco do que o normal para aquela época do ano. Ainda assim, a área rural de Cairhien era um paraíso exuberante se comparada com o outro lado da Muralha do Dragão.

Um pequeno regato serpenteava rumo ao norte sob uma ponte quase plana, cercado pelo barro seco de um leito mais largo. O rio Gaelin ficava a poucas milhas de distância naquela direção. Egwene se perguntou o que os Aiel pensariam daquele rio. Já vira Aiel perto de um rio. A diminuta faixa d’água marcava uma pausa no constante fluxo de pessoas, já que homens e Donzelas paravam para observá-la, maravilhados, antes de fazer a travessia.

Os carroções de Kadere ribombavam pela estrada, as longas parelhas de mulas trabalhando duro, mas ainda assim sendo ultrapassados pelos Aiel. Haviam levado quatro dias para atravessar as curvas e voltas de Passo de Jangai, e Rand pretendia avançar o máximo possível em Cairhien nas poucas horas de luz que ainda restavam. Moiraine e Lan viajavam com os carroções. Não à frente do grupo, nem mesmo na casinha branca sobre rodas que era o vagão de Kadere, mas ao lado do segundo carroção, onde o ter’angreal em forma de batente de porta, coberto por uma tela, criava uma corcova acima do restante da carga. Parte dos objetos estava cuidadosamente embalada ou acondicionada em caixas ou barris que Kadere levara para o Deserto repletos de seus produtos, e o resto estava simplesmente enfiado em qualquer lugar que coubesse, formas incomuns de metal e vidro, uma cadeira vermelha de cristal, duas estátuas de um homem e uma mulher nus, do tamanho de crianças, hastes de osso e marfim e estranhos materiais negros em vários comprimentos e espessuras. Toda a sorte de objetos, incluindo alguns que Egwene mal era capaz de começar a descrever. Moiraine fizera uso de cada polegada disponível em todos os carroções.