Egwene gostaria de saber por que a Aes Sedai estava tão preocupada com aquele carroção em particular. Talvez ninguém mais tivesse percebido que Moiraine prestava mais atenção a ele do que a todos os outros somados, mas Egwene percebera. Provavelmente não saberia o motivo tão cedo. Apesar de Moiraine ter passado a tratá-la de igual para igual, a novidade ainda era uma mudança pouco garantida, conforme Egwene percebera ao fazer a pergunta, no coração da passagem, e ouvir como resposta que sua imaginação era vívida demais e que, se ela tinha tempo de espionar a Aes Sedai, talvez Moiraine devesse falar com as Sábias sobre intensificar seu treinamento. Egwene se desculpara profusamente, claro, e sua polidez pareceu funcionar. Amys e as demais não estavam ocupando suas noites mais do que antes.
Cerca de uma centena de Far Dareis Mai das Taardad viajavam ao lado dela na estrada, movendo-se com tranquilidade, os véus pendurados, mas prontos para serem usados, as aljavas cheias na cintura. Algumas carregavam os arcos curvados, as flechas encaixadas, enquanto outras os mantinham presos às costas, lanças e broquéis balançando de modo ritmado conforme corriam. Atrás delas, uma dúzia de gai’shain em seus roupões brancos conduziam mulas de carga e se esforçavam para acompanhar o ritmo. Um deles usava preto, não branco. De todos, Isendre era a que trabalhava mais pesado. Egwene reconheceu Adelin e outras duas ou três que haviam montado guarda na tenda de Rand na noite do ataque. Além das armas, cada uma segurava uma boneca, uma boneca feita de modo grosseiro vestindo saia e blusa brancas. O rosto das Donzelas parecia ainda mais pétreo que o habitual, tentando fingir que não estavam carregando aquilo.
Egwene não sabia qual era o motivo das bonecas. Aquelas Donzelas tinham ido ver Bair e Amys assim que o turno de guarda na tenda de Rand havia acabado e passaram um bom tempo na companhia das Sábias. Na manhã seguinte, enquanto o acampamento ainda estava despertando em meio ao cinza que precedia a alvorada, elas começaram a confeccionar aquelas bonecas. Egwene não pudera perguntar, claro, mas comentara o assunto com uma delas, uma Tomanelle ruiva do ramo Serai chamada Maira, e a mulher dissera que a finalidade era lembrá-la de que não era mais criança. Seu tom de voz deixara claro que ela não queria conversar. Uma das Donzelas carregando a boneca não tinha mais que dezesseis anos, mas Maira tinha pelo menos a mesma idade que Adelin. Não fazia muito sentido, e isso era frustrante. Toda vez que Egwene pensava entender os costumes Aiel, algo lhe provava o contrário.
A contragosto, os olhos de Egwene foram novamente atraídos para a entrada da passagem. As fileiras de estacas ainda estavam lá, quase invisíveis, estendendo-se ao longo das encostas íngremes das montanhas, exceto onde os Aiel haviam chutado e derrubado algumas delas. Couladin deixara mais uma mensagem: homens e mulheres empalados ao longo do caminho, deixados mortos ali por sete dias. As altas muralhas cinzentas de Selean estavam cravadas nas montanhas à direita da passagem, e nada era visível acima delas. Moiraine afirmara que o local era apenas uma sombra de sua antiga glória, ainda que fosse uma cidade de tamanho considerável, bem maior que Taien. No entanto, nada restara — e nenhum sobrevivente, exceto pelos que os Shaido levaram, embora alguns habitantes da cidade provavelmente tivessem fugido para outro lugar que considerassem seguro. Havia fazendas naquelas colinas. A maior parte do leste de Cairhien fora abandonada depois da Guerra dos Aiel, mas uma cidade precisava de fazendas para prover comida. Chaminés com listras de fuligem despontavam de paredes enegrecidas de casas de fazenda feitas de pedra. Aqui e ali, algumas vigas queimadas permaneciam de pé sobre um estábulo tombado, um estábulo e uma casa da fazenda haviam desabado por conta do calor. A colina por onde guiava Bruma fora uma pastagem para ovelhas. Perto da cerca, ao pé da colina, moscas ainda zumbiam sobre os refugos de um açougue. Não restava um só animal nas pastagens, nenhuma galinha ciscando no quintal do estábulo. As plantações pareciam palha queimada.
Couladin e os Shaido eram Aiel. Mas Aviendha, Bair, Amys, Melaine e Rhuarc, que dissera que Egwene lembrava uma de suas filhas, também. Todos ficaram indignados com os empalamentos, mas ainda pareciam pensar que aquilo era só um pouco pior do que o que os Assassinos da Árvore mereciam. A única forma de realmente entender os Aiel talvez fosse nascer Aiel.
Egwene lançou um último olhar para a cidade destruída, então desceu cavalgando devagar até a rústica cerca de pedra e saiu pelo portão, inclinando-se, por força do hábito, para reapertar a tira de couro cru. Segundo Moiraine, a grande ironia era que o povo de Selean poderia muito bem ter apoiado Couladin. Nas instáveis correntes do Daes Dae’mar, quando comparassem um invasor Aiel com o homem que enviara os tairenos a Cairhien, não importando o motivo, era difícil prever qual teria sido a decisão, caso Couladin lhes tivesse dado oportunidade de escolha.
Ela cavalgou ao longo da larga estrada até alcançar Rand, naquele dia trajando seu casaco vermelho, e se juntou a Aviendha, Amys e trinta ou mais Sábias que mal conhecia, tirando as outras duas Andarilhas dos Sonhos, todas seguindo a curta distância. Mat, com seu chapéu e sua lança de cabo negro, e Jasin Natael, com a harpa no estojo de couro pendurada às costas e o estandarte carmesim tremulando com a brisa, também cavalgavam, mas Aiel apressados ultrapassavam o grupo pelos dois lados, já que Rand ia à frente com seu garanhão malhado enquanto conversava com os chefes de clã. Com ou sem saias, as Sábias teriam dado conta de acompanhar o ritmo das colunas que os ultrapassavam, caso não estivessem grudadas em Rand feito seiva de pinheiro. Elas mal olharam para Egwene, olhos e ouvidos concentrados no Car’a’carn e nos sete chefes.
— … e quem quer que nos siga depois de Timolan — ia dizendo Rand, em um tom de voz firme — precisa receber a mesma mensagem. — Cães de Pedra deixados de vigia em Taien haviam retornado para relatar que os Miagoma entraram na passagem um dia depois. — Vim para impedir que Couladin despoje esta terra, não para saqueá-la.
— Uma mensagem difícil — afirmou Bael —, e para nós também, caso esteja dizendo que não podemos pegar o quinto.
Han e os demais, inclusive Rhuarc, assentiram.
— Eu lhes concedo o quinto. — Rand não aumentou o tom de voz, mas, subitamente, suas palavras eram pregos bem cravados. — Mas alimentos não serão levados como parte do quinto. Vamos viver do que conseguirmos encontrar na natureza, caçarmos ou comprarmos, caso alguém esteja vendendo comida, até eu ter como fazer os tairenos incrementarem o que estão trazendo de Tear. Se algum homem pegar uma moeda a mais que o quinto ou um pedaço de pão sem pagar, caso incendeie até mesmo uma cabana só por ela pertencer a um dos Assassinos da Árvore, ou mate alguém que não está tentando matá-lo, vou mandar enforcar, seja quem for.
— É complicado dizer isso aos clãs — afirmou Dhearic, quase tão pétreo quanto Rand. — Vim para seguir Aquele Que Vem Com a Aurora, não para dar colo a quebradores de juramentos. — Bael e Jheran abriram a boca como se fossem concordar, mas um notou a reação do outro e ambos tornaram a cerrar os dentes.