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— Quem é esse Feran? — indagou Egwene. — Nunca ouvi você falar dele. Como ele é?

Franzindo o cenho às costas de Sorilea, mais do que parcialmente encoberta pelas Sábias agrupadas ao seu redor, Aviendha respondeu de modo vago.

— Ele é bem parecido com Rhuarc, só que mais jovem, mais alto e mais bonito, com o cabelo bem mais ruivo. Faz mais de um ano que vem tentando atrair o interesse de Enaila, mas acho mais fácil ela ensiná-lo a cantar do que abrir mão da lança.

— Não entendo. Você pretende dividi-lo com Enaila? — Ainda era estranho falar sobre aquilo de forma tão casual.

Aviendha tornou a tropeçar e a encarou.

— Dividir? Eu não quero nada com ele. É até bonito, mas ri feito uma mula zurrando e cutuca o ouvido.

— Mas, pelo modo como você falou com Sorilea, eu achei que… você gostava dele. Por que não disse a ela o que acabou de me dizer?

A risada contida da outra mulher soou amargurada.

— Egwene, se ela achasse que eu estava tentando recusar, ela própria iria confeccionar minha grinalda nupcial e arrastaria Feran e eu pelo pescoço para nos casarmos. Você já ouviu alguém dizer não para Sorilea? Você conseguiria?

Egwene abriu a boca para afirmar que, obviamente, conseguiria, mas voltou a fechá-la de imediato. Fazer Nynaeve recuar era uma coisa; tentar o mesmo com Sorilea era outra. Seria como se colocar no caminho de um deslizamento de terra e dizer a ele para parar.

Para mudar de assunto, ela disse:

— Vou falar com Amys e as outras para você. — Não que realmente achasse que, àquela altura, isso fosse dar algum resultado. A hora certa fora antes de aquilo tudo começar. Pelo menos Aviendha finalmente enxergava a impropriedade da situação. Talvez… — Se formos juntas falar com elas, tenho certeza de que vão ouvir.

— Não, Egwene. Eu tenho que obedecer às Sábias. O ji’e’toh exige isso. — Como se ela não estivesse pedindo a intercessão da amiga momentos antes. Como se não tivesse praticamente implorado para as Sábias não a obrigarem a dormir na tenda de Rand. — Mas por que a minha obrigação com as pessoas nunca é a que eu gostaria? Por que ela precisa ser algo que eu preferiria morrer a ter que fazer?

— Aviendha, ninguém vai obrigá-la a se casar ou a ter filhos. Nem Sorilea. — Egwene esperava que tivesse soado um pouco menos hesitante naquelas últimas palavras.

— Você não entende — respondeu a outra mulher, suavemente —, e eu não tenho como explicar.

Aviendha envolveu o corpo com o xale e não quis mais falar no assunto. Preferia conversar sobre as aulas, sobre se Couladin daria meia-volta e iniciaria um confronto, sobre como o casamento afetara Melaine, que parecia ter que se esforçar para ficar séria, ou sobre qualquer outra coisa, exceto sobre o que não podia ou não queria explicar.

24

Mensagem enviada

A terra mudou quando o sol começou a baixar. As colinas eram menores, os matagais, maiores. Era comum que cercas de pedra tombadas envolvendo o que um dia haviam sido plantações tivessem se tornado montes dos quais desabrochavam sebes selvagens, ou que agora contornassem longas sequências de carvalhos, folhas-de-couro e nogueiras, pinheiros e cajeputes, além de outras árvores que Egwene não conhecia. As poucas casas de fazenda estavam destelhadas, e árvores de dez ou quinze passadas de altura cresciam dentro delas, pequenas matas encapsuladas em muros de pedra, completas com pássaros gorjeando e esquilos de cauda preta. O riacho que às vezes surgia gerava tanta conversa entre os Aiel quanto as minúsculas florestas e a grama. Eles já haviam ouvido histórias das terras aguacentas, lido sobre elas em livros comprados de mercadores e mascates como Hadnan Kadere, mas poucos de fato os tinham visto desde a caçada a Laman. No entanto, os Aiel se adaptavam depressa. O marrom-acinzentado das tendas se misturava bem com as folhas mortas debaixo das árvores e com as ervas daninhas e a grama que estava morrendo. O acampamento se espalhava ao longo de milhas, marcado por milhares de pequenas fogueiras no anoitecer dourado.

Egwene ficou mais do que feliz por engatinhar para dentro de sua tenda tão logo os gai’shain terminaram de montá-la. No interior, as lamparinas estavam acesas, e um fogo diminuto ardia na fogueira. Ela desamarrou as botas macias e tirou-as junto com as meias de lã, esparramando-se nos brilhantes tapetes sobrepostos e movimentando os dedos dos pés. Gostaria de ter uma bacia d’água para colocá-los de molho. Não fingia ter tanta resistência quanto os Aiel, mas, se algumas horinhas de caminhada faziam seus pés parecerem ter o dobro do tamanho, era porque estava ficando cada vez mais mole. Claro, água não seria um problema, ali. Ou não deveria ser. Lembrou-se daquele regato meio seco — poderia tomar um banho decente de novo.

Cowinde, tímida e silenciosa em seus trajes brancos, lhe trouxe o jantar, um pouco daquele pão bem claro e achatado feito de farinha de zemai e, em uma tigela com listras vermelhas, um ensopado grosso que Egwene comeu mecanicamente, embora se sentisse mais cansada do que faminta. Reconheceu os feijões e os pimentões desidratados, mas não perguntou do que era aquela carne escura. Coelho, disse a si mesma com firmeza, e torceu para que fosse. Os Aiel comiam coisas que fariam seu cabelo encaracolar mais que o de Elayne. Podia apostar que Rand não conseguia nem olhar para o que vinham servindo. Homens sempre eram chatos para comer.

Assim que terminou o ensopado, esticou-se perto de uma lamparina de prata entalhada com um disco de prata polido que refletia e aumentava a luz. Sentira-se um pouco culpada ao ser dar conta de que a maioria dos Aiel não dispunha de nenhuma luz à noite que não fosse a de suas fogueiras. Tirando as Sábias e os chefes de clãs e ramos, poucos haviam trazido lamparinas ou óleo. Mas não fazia sentido ficar sentada na tênue luminosidade da fogueira quando podia ter luz adequada. Aquilo foi um lembrete: as noites ali não seriam muito diferentes dos dias no Deserto. A tenda já estava começando a ficar desconfortavelmente quente.

Egwene canalizou fluxos de Ar para abafar o fogo e enfiou as mãos nos alforjes em busca do desgastado livro com encadernação de couro que pegara emprestado de Aviendha. Tratava-se de um volume pequeno e grosso com linhas que se amontoavam em letrinhas difíceis de ler, exceto com boa luminosidade, mas de fácil portabilidade. Era intitulado A Chama, a Lâmina e o Coração, uma coleção de histórias sobre Birgitte e Gaidal Cain, Anselan e Barashelle, Rogosh Olho-de-águia e Dunsinin, e mais uma porção de casais. Aviendha afirmava gostar do livro por conta das aventuras e batalhas, e talvez fosse o caso, mas absolutamente todas as histórias também falavam do amor entre um homem e uma mulher. Egwene estava disposta a admitir que era daquilo que gostava, das tramas às vezes turbulentas e às vezes afetuosas de um amor eterno. Estava disposta a admitir para si mesma, pelo menos. Não era bem o tipo de diversão que uma mulher com qualquer juízo poderia confessar publicamente.

Na verdade, estava com menos vontade de ler do que estivera de comer — tudo o que realmente queria era tomar banho e dormir, e talvez aceitasse pular o banho —, mas, naquela noite, ela e Amys se encontrariam com Nynaeve em Tel’aran’rhiod. Onde quer que Nynaeve estivesse no caminho para Ghealdan, ainda não seria noite, e aquilo significava ter de continuar acordada.