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Elayne fizera sua nova trupe parecer bastante empolgante, na última vez que se encontraram, embora Egwene não achasse que Galad fosse motivo suficiente para sair correndo daquele jeito. Em sua opinião, o gosto de Nynaeve e Elayne por aventuras simplesmente aumentara. Era uma pena a notícia sobre Siuan. Elas precisavam de uma mão firme para aquietá-las. Era estranho Egwene pensar isso a respeito de Nynaeve, a quem sempre vira como dona da mão firme. Mas, desde aquele episódio na Torre em Tel’aran’rhiod, precisara enfrentar Nynaeve cada vez menos.

Cheia de culpa, Egwene percebeu, ao virar a página, que estava ansiosa para o encontro daquela noite. Não por Nynaeve ser uma amiga, mas porque queria ver se os efeitos tinham durado. Se Nynaeve puxasse a trança, Egwene arquearia uma sobrancelha para ela e… Luz, espero que não tenha durado. Se ela deixar algo escapulir sobre aquele passeio, Amys, Bair e Melaine vão se revezar me esfolando viva, isso se simplesmente não me mandarem embora.

Seus olhos continuavam tentando se fechar enquanto ela lia, sonhando vagamente com as histórias do livro. Egwene poderia ser tão forte quanto qualquer uma daquelas mulheres, tão forte e valente quanto Dunsinin ou Nerein ou Melisinde ou até mesmo Birgitte, tão forte quanto Aviendha. Será que Nynaeve teria juízo suficiente para controlar a língua diante de Amys, naquela noite? Pensou distraidamente em pegar Nynaeve pela nuca e sacudi-la. Bobagem. A mulher era alguns anos mais velha. Arquear uma sobrancelha para ela. Dunsinin. Birgitte. Tão resistente e forte quanto uma Donzela da Lança.

A cabeça de Egwene escorregou para as páginas, e ela tentou aninhar o livrinho debaixo do rosto conforme sua respiração ia desacelerando e ficando mais profunda.

Teve um sobressalto ao se ver em meio às grandes colunas de pedra vermelha do Coração da Pedra, na estranha luz de Tel’aran’rhiod, e levou outro susto ao notar que usava o cadin’sor. Amys não ficaria contente ao vê-la daquele jeito. Não acharia nada engraçado. Egwene se trocou depressa e ficou surpresa quando as roupas se alternaram entre uma blusa de algode e uma pesada saia de lã, e um belo vestido de seda azul bordada, antes de finalmente se decidir pela vestimenta Aiel, completa com seu bracelete de marfim entalhado com chamas e o colar de ouro e marfim. Fazia algum tempo que não ficava indecisa assim.

Por um momento, Egwene pensou em sair do Mundo dos Sonhos, mas suspeitou que estivesse dormindo profundamente em sua tenda. Era muito provável que só adentrasse os próprios sonhos, e não era sempre que tinha consciência neles. Sem consciência, não poderia retornar a Tel’aran’rhiod. E não estava disposta a deixar Amys e Nynaeve a sós juntas. Quem poderia saber o que Nynaeve diria, caso Amys a irritasse? Quando a Sábia chegasse, Egwene diria simplesmente que também tinha acabado de chegar. As Sábias sempre apareciam um pouco antes dela, ou ao mesmo tempo, mas claro que, se Amys acreditasse que Egwene tivesse chegado lá apenas um segundo antes, não haveria problema.

A garota já estava quase que acostumada a sentir olhos invisíveis naquela vasta câmara. São só as colunas, as sombras e todo este espaço vazio. Ainda assim, torceu para que nem Amys nem Nynaeve demorassem muito. Mas demorariam. O tempo podia ser tão estranho em Tel’aran’rhiod quanto em qualquer sonho, mas com certeza ainda faltava uma longa hora para o encontro marcado. Talvez Egwene tivesse tempo para…

De repente, percebeu que estava ouvindo vozes — como sussurros distantes em meio às colunas. Agarrando saidar, moveu-se cautelosamente em direção ao som, para o local onde Rand deixara Callandor sob o grande domo. As Sábias afirmavam que, ali, ter controle sobre Tel’aran’rhiod conferia tanto poder quanto canalizar saidar, mas Egwene conhecia bem melhor suas habilidades com o Poder, e confiava mais nelas. Ainda escondida atrás de grossas colunas de pedra vermelha, ela parou e observou.

Não era uma dupla de irmãs Negras, como temera, e também não era Nynaeve. Em vez disso, ali estava Elayne, perto do cabo brilhante de Callandor, que se erguia das pedras do piso, absorta em uma conversa tranquila com uma mulher vestida da maneira mais estranha que Egwene já tinha visto. Usava um casaco branco curto de corte peculiar e calças amarelas com dobras na altura do tornozelo, logo acima de botas de cano curto com saltos altos. Uma intrincada trança de cabelos dourados caía pelas costas, e a mulher tinha nas mãos um arco que reluzia feito prata polida. As flechas na aljava também brilhavam.

Egwene fechou os olhos. Primeiro, as dificuldades com o vestido, depois aquilo. Ler a respeito de Birgitte — o arco de prata certamente a identificara — não era razão para imaginar vê-la. Birgitte esperava, em algum lugar, que a Trombeta de Valere convocasse não só ela, mas a todos os outros heróis para a Última Batalha. Mas, quando Egwene voltou a abrir os olhos, Elayne e aquela mulher de roupa estranha ainda estavam lá. Não entendia o que as duas estavam dizendo, mas desta vez acreditou no que viu. Estava a ponto de dar as caras e anunciar sua presença quando, atrás dela, ouviu-se uma voz.

— Decidiu vir mais cedo? E sozinha?

Egwene girou e ficou diante de Amys, seu rosto bronzeado jovem demais para os cabelos brancos, bem como de Bair e suas bochechas coriáceas. Ambas estavam de pé com os braços cruzados no peito. Até a maneira como os xales estavam apertados contra o corpo sinalizava desprazer.

— Peguei no sono — respondeu Egwene.

Estava adiantada demais para que sua mentira funcionasse. Mesmo enquanto explicava depressa o fato de ter cochilado e o porquê de não ter retornado, tirando a parte sobre não querer que Nynaeve e Amys conversassem sozinhas, a garota ficou surpresa em sentir um quê de vergonha por ter pensado em mentir, e alívio por não tê-lo feito. Não que a verdade fosse necessariamente salvá-la. Amys não era tão rígida quanto Bair — por pouco —, mas era bem capaz de mandá-la ficar empilhando rochas até o fim da noite. Muitas Sábias usavam trabalho inútil como forma de punição. Não havia como se enganar dizendo que se tratava de algo diferente do cumprimento de um castigo quando se estava enterrando cinzas com uma colher. Isso se elas simplesmente não se recusassem a ensiná-la mais nada, claro.

Egwene não conseguiu conter um suspiro de alívio quando Amys assentiu e disse:

— Acontece. Mas, na próxima vez, volte e sonhe seus sonhos. Eu poderia ter ouvido o que Nynaeve tem a dizer e contado a ela o que sabemos. Se Melaine não estivesse com Bael e Dorindha hoje à noite, também estaria aqui. Você assustou Bair. Ela está orgulhosa do seu progresso, e, se algo acontecesse com você…

Bair não parecia orgulhosa. Ao contrário, franziu ainda mais o cenho quando Amys fez uma pausa.

— Você tem sorte de Cowinde ter voltado para recolher seu jantar e ficado preocupada de você não acordar para ir para a cama. Se eu achasse que você passou mais do que alguns poucos minutos aqui sozinha… — Por um momento, seu olhar se aguçou, prometendo algo terrível, e depois a voz ficou mal-humorada. — Agora suponho que tenhamos que esperar Nynaeve chegar, só para evitar ouvir você implorando, se a mandarmos embora. Se temos que esperar, está bem, mas vamos usar o tempo em nosso benefício. Concentre sua mente em…

— Não é Nynaeve — disse Egwene, às pressas. Não queria saber como seria uma aula com Bair naquele estado de espírito. — É Elayne, e… — Sua voz foi falhando enquanto ela se virava. Elayne, trajando uma elegante seda verde apropriada para um baile, caminhava de um lado para outro, não muito longe de Callandor. Não se via Birgitte em lugar nenhum. Eu não estava imaginando coisas.