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— Vocês têm certeza de que ela não era sul’dam? — Sua voz tremia de raiva.

— Tenho certeza — respondeu Elayne, tranquilizadora. — Eu mesma pus o a’dam nela, e não teve nenhum efeito.

Aquele era um segredinho do qual nem mesmo os Seanchan sabiam, ou, se sabiam, escondiam muito bem. Suas damane eram mulheres nascidas com a centelha, mulheres que acabariam canalizando, mesmo que não fossem treinadas. Mas as sul’dam, que controlavam as damane, eram as mulheres que não conseguiriam um domínio profundo do Poder sem treinamento. Os Seanchan pensavam que mulheres capazes de canalizar eram animais perigosos que precisavam ser controlados, e mesmo assim, sem perceber, davam a elas uma posição de honra.

— Eu não entendo esse interesse pelos Seanchan. — Amys pronunciou o nome de modo estranho. Nunca ouvira falar naquilo até Elayne tocar no assunto, no último encontro. — O que fazem é terrível, mas eles se foram. Rand al’Thor os derrotou, e eles fugiram.

Egwene virou as costas e encarou as imensas colunas polidas que se estendiam até as sombras.

— “Se foram” não significa dizer que não voltarão mais. — Não queria que ninguém visse seu rosto, nem mesmo Elayne. — Temos que aprender tudo o que pudermos, caso um dia eles voltem.

Os Seanchan haviam colocado um a’dam nela, em Falme. Pretendiam enviá-la ao outro lado do Oceano de Aryth, até Seanchan, para que passasse o resto da vida feito um cão em uma coleira. Sentia uma fúria brotar dentro de si toda vez que pensava neles. E um medo também. Medo de que, se eles de fato retornassem, acabassem conseguindo capturá-la e mantê-la cativa. Era isso que não podia deixar que as mulheres percebessem: o completo terror que sabia que transparecia em seus olhos.

Elayne tocou o braço dela.

— Se eles realmente voltarem, estaremos prontas — disse, com a voz gentil. — Eles não nos pegarão desprevenidas e ignorantes de novo. — Egwene lhe deu um tapinha na mão, embora quisesse mesmo apertá-la. Elayne compreendia mais do que Egwene desejava, mas, ao mesmo tempo, isso era reconfortante.

— Vamos terminar o que nos trouxe até aqui — ordenou Bair, enérgica. — Você precisa dormir de verdade, Egwene.

— Mandamos gai’shain tirarem sua roupa e colocarem você debaixo dos cobertores. — Surpreendentemente, Amys soou tão gentil quanto Elayne. — Quando retornar ao seu corpo, vai poder dormir até de manhã.

As bochechas de Egwene enrubesceram. Pelos modos Aiel, alguns daqueles gai’shain podiam muito bem ser homens. Teria que falar com as Sábias sobre o assunto — com delicadeza, claro. As mulheres não entenderiam, e não se tratava de algo que ela ficaria à vontade em explicar.

O medo tinha desaparecido, percebeu. Parece que tenho mais medo de passar vergonha do que dos Seanchan. Não era verdade, mas se agarrou àquele pensamento.

De fato, havia muito pouco para contar a Elayne: finalmente estavam em Cairhien, Couladin devastara Selean e arrasara as terras vizinhas, e os Shaido ainda estavam dias à frente e se deslocando para oeste. As Sábias tinham mais informações que ela, já que não haviam ido imediatamente para suas tendas, ao fim do dia. Houvera alguns conflitos à noite, pequenos e com poucos participantes, uns homens montados que fugiram rápido. E outros homens a cavalo tinham sido avistados, mas foram embora sem lutar. Não houvera captura de prisioneiros. Moiraine e Lan pareciam pensar que os cavaleiros podiam ser bandidos ou partidários de uma ou outra Casa que estava tentando tomar o Trono do Sol. Todos igualmente maltrapilhos. Quem quer que fossem, a notícia de que havia mais Aiel em Cairhien logo se espalharia.

— Eles acabariam sabendo mais cedo ou mais tarde. — Foi o único comentário de Elayne.

Egwene ficou observando enquanto Elayne e as Sábias desapareciam — parecia que a garota e o Coração da Pedra estavam se desvanecendo. Sua amiga de cabelos dourados não deu nenhum sinal de que entendera a mensagem.

25

Sonhos com Galad

Em vez de retornar ao próprio corpo, Egwene flutuou na escuridão. Ela mesma parecia fazer parte da escuridão. Se seu corpo estava acima, abaixo ou ao lado, Egwene não sabia — não havia orientação ali —, mas sabia que estava perto e que poderia retornar com facilidade. No breu, libélulas pareciam cintilar, uma enorme horda desaparecendo a uma distância inimaginável. Aquilo tudo eram sonhos, sonhos dos Aiel no acampamento, sonhos de homens e mulheres por toda Cairhien, por todo o mundo — todos ali, reluzindo.

Agora já conseguia reconhecer alguns entre os mais próximos e até identificar o sonhador. De certa forma, aquelas faíscas eram tão parecidas quanto libélulas — e foi isso que lhe rendeu tantos problemas no começo —, mas, por outro lado, de algum modo, elas agora aparentavam ser tão únicas quanto rostos. Os sonhos de Rand e os de Moiraine pareciam desbotados, ofuscados pelas proteções que ambos haviam tecido. Os de Amys e Bair eram brilhantes e regulares em sua pulsação. Parecia que as duas haviam seguido o próprio conselho. Se não os tivesse avistado, Egwene teria voltado de imediato para o próprio corpo. As duas eram capazes de perambular por aquela escuridão com muito mais desenvoltura que ela, que não saberia da presença de nenhuma delas até que a atacassem. Se Egwene um dia aprendesse a reconhecer Elayne e Nynaeve da mesma maneira, poderia sempre encontrá-las naquela grande constelação, independentemente do lugar do mundo em que estivessem. Naquela noite, porém, não tinha a intenção de observar o sonho de ninguém.

Com cuidado, formou uma imagem bem nítida em sua mente, e no segundo seguinte estava de volta a Tel’aran’rhiod, no quartinho sem janelas, na Torre, onde morara quando noviça. Havia uma cama estreita embutida em uma das paredes pintadas de branco. Uma pia e um banquinho de três pernas repousavam de frente para a porta, e os vestidos e anáguas de lã branca de quem agora ocupava o cômodo estavam pendurados com pregadores junto a um manto branco. Não teria sido estranho encontrar o quarto desocupado. Fazia muitos anos que a Torre não conseguia preencher os aposentos das noviças. O chão era quase tão claro quanto as paredes e as roupas. Todos os dias, as noviças que ali moravam esfregavam aquele piso de joelhos. Egwene fizera aquilo, assim como Elayne, no quarto ao lado. Se uma rainha fosse treinar na Torre, começaria em um quarto como aquele, esfregando o chão.

As vestimentas estavam arrumadas de um jeito diferente quando ela tornou a olhar, mas Egwene ignorou. Pronta para agarrar saidar em um piscar de olhos, abriu a porta apenas o suficiente para colocar a cabeça para fora. E respirou aliviada ao ver a cabeça de Elayne fazendo o mesmo movimento na porta ao lado, tão lentamente quanto ela. Egwene torceu para não estar com a mesma expressão hesitante e olhos arregalados. Acenou depressa, e Elayne se adiantou, trajando o branco das noviças que se transformou em um vestido de cavalgada de seda cinza-claro assim que ela zarpou para dentro. Egwene odiava vestidos cinzas. Era o traje das damane.

Permaneceu ali por mais alguns instantes, examinando os corredores dos aposentos das noviças. Ocupavam vários outros andares, acima e abaixo, até o Pátio das Noviças, no térreo. Não que Egwene de fato esperasse que Liandrin ou alguém pior estivesse ali, mas era sempre bom ter cuidado.

— Achei que era isso que você queria dizer — falou Elayne, quando Egwene fechou a porta. — Faz ideia de quanto é difícil lembrar o que eu posso ou não posso falar na frente de quem? Às vezes queria que a gente pudesse contar tudo logo para as Sábias. Deixar que saibam que somos apenas Aceitas e acabar com esse assunto.

— Eu é que ia acabar com você — retrucou Egwene, com firmeza. — Por acaso, estou dormindo a menos de vinte passadas delas.