Elayne estremeceu.
— Aquela Bair… Ela me lembra Lini quando eu quebrava algo em que não deveria nem encostar.
— Espere até conhecer Sorilea.
Elayne lhe lançou um olhar de dúvida, mas, por outro lado, Egwene não tinha certeza de que ela própria teria acreditado em Sorilea até conhecê-la. Não havia como fazer aquilo de um jeito fácil. Ela mexeu no xale.
— Me conte sobre o encontro com Birgitte. Era Birgitte, não era?
Elayne cambaleou como se tivesse sido atingida no estômago. Seus olhos azuis se fecharam por um momento, e ela respirou tão fundo que poderia ter se enchido de ar até a ponta dos pés.
— Não posso falar com você sobre isso.
— Como assim não pode falar? Você tem língua. Era Birgitte?
— Eu não posso, Egwene. Você precisa acreditar em mim. Se pudesse, eu contaria, mas não posso. Talvez… eu possa perguntar… — Se Elayne fosse o tipo de mulher que torcia as mãos, estaria fazendo isso. Sua boca se abriu e se fechou sem emitir nenhuma palavra, os olhos percorreram todo o quarto como se buscassem inspiração ou auxílio. Ela respirou fundo e fitou Egwene com um olhar azul urgente. — Qualquer coisa que eu diga viola segredos que jurei guardar. Inclusive isso. Por favor, Egwene. Você precisa confiar em mim. E não pode dizer a ninguém o que… acha que viu.
Egwene se forçou a tirar do rosto a expressão severa.
— Vou confiar em você. — Pelo menos já não tinha a menor dúvida de que não estivera vendo coisas. Birgitte? Luz! — Espero que um dia confie em mim o suficiente para me contar.
— Eu confio em você, mas… — Balançando a cabeça, Elayne se sentou na beira da cama muito bem-arrumada. — Guardamos segredos com frequência exagerada, Egwene, mas às vezes há um motivo.
Um momento depois, Egwene assentiu e se sentou ao lado dela.
— Quando você puder. — Foi tudo o que disse, mas a amiga lhe deu um abraço aliviado.
— Eu disse a mim mesma que não perguntaria isto, Egwene. Que ao menos uma vez não ficaria só pensando nele. — O vestido de cavalgada cinza se transformou em um cintilante vestido verde. Era impossível que Elayne soubesse quão profundo era o decote. — Mas… Rand está bem?
— Está são e salvo, se é isso que você quer saber. Achei que ele foi duro em Tear, mas hoje eu o ouvi ameaçar enforcar os homens que não obedecerem a seus comandos. Não que sejam ordens ruins. Ele não vai deixar ninguém levar comida sem pagar ou assassinar pessoas, mas mesmo assim. Eles foram os primeiros a aclamá-lo como Aquele Que Vem Com a Aurora e o seguiram para fora do Deserto sem hesitação. E Rand os ameaçou, duro como aço.
— Não é uma ameaça, Egwene. Ele é um rei, seja lá o que você ou ele ou sei lá quem diga, e um rei ou uma rainha devem conferir justiça sem temer os inimigos ou favorecer os amigos. Qualquer um que faça isso precisa ser duro. Mamãe às vezes faz as muralhas da cidade parecerem macias.
— Mas ele não precisa ser tão arrogante — opinou Egwene, calma. — Eu deveria lembrá-lo de que ele é apenas um homem, como Nynaeve me pediu, mas ainda não descobri como fazer isso.
— Ele precisa se lembrar de que é apenas um homem. Mas tem o direito de esperar que o obedeçam. — Havia um toque de orgulho no tom de Elayne, até que a garota baixou o olhar para si mesma. Então seu rosto enrubesceu e o vestido verde de repente estampava uma gola rendada até abaixo do queixo. — Tem certeza de que não está confundindo isso com arrogância? — concluiu, com voz abafada.
— Ele está tão presunçoso quanto um porco em uma plantação de grãos. — Egwene se remexeu na cama. Lembrava-se de ser dura, mas o colchão fino parecia mais macio do que onde dormia na tenda. Não queria falar sobre Rand. — Acha mesmo que essa briga não vai criar mais problemas? — Uma rixa com a tal de Latelle não facilitaria em nada a viagem deles.
— Acho que não. O problema de Latelle com Nynaeve era não ter mais todos os homens descompromissados à disposição para ela escolher. Algumas mulheres pensam assim, suponho. Aludra é reservada, Cerandin não assustaria nem um ganso até eu começar a ensiná-la a se defender, e Clarine é casada com Petra. Mas Nynaeve já deixou claro que vai dar um tapa no pé do ouvido de qualquer homem que sequer pense que pode flertar com ela, e já se desculpou com Latelle, então espero que isso resolva a questão.
— Ela se desculpou?
Elayne assentiu, com uma expressão tão pasma quanto Egwene sabia estar fazendo.
— Eu achei que Nynaeve ia bater em Luca quando ele disse que ela tinha que pedir desculpas… E ele parece pensar que a regra dela não se aplica a ele, aliás. Mas, bom, ela se desculpou, depois de reclamar por mais ou menos uma hora. Resmungando sobre você, na verdade. — Elayne hesitou e lançou um olhar de soslaio na direção de Egwene. — Você falou alguma coisa no último encontro? Nynaeve tem se comportado… diferente… desde então, e às vezes fica falando sozinha. Discutindo, na verdade. Sobre você, pelo pouco que escutei.
— Eu não disse nada que não deveria ter dito. — Então seu efeito sobre Nynaeve se mantinha, fosse qual fosse o motivo. Ou isso, ou Nynaeve estava acumulando raiva para a próxima vez que se encontrassem. Egwene não pretendia mais aturar o gênio da mulher, não agora que sabia que não precisava. — Fale que eu mandei dizer que ela já é velha demais para ficar rolando no chão em uma briga. Se ela se meter em outra dessas, vai ouvir coisas piores. Fale exatamente assim. Que vai ser pior.
Que Nynaeve ficasse com isso em mente até a próxima vez. Ou ela estaria mansa como uma ovelha… ou Egwene teria que cumprir a ameaça que fizera. Nynaeve podia até ser mais forte com o Poder quando era capaz de canalizar, mas, ali, a mais forte era Egwene. De um jeito ou de outro, pusera um fim nas birras de Nynaeve.
— Eu vou falar para ela — afirmou Elayne. — Você também está diferente. Parece haver algo da atitude de Rand em você.
Egwene precisou de um momento para perceber o que a garota quis dizer; aquele sorrisinho divertido ajudou.
— Não fale besteira.
Elayne gargalhou e lhe deu outro abraço.
— Ah, Egwene, um dia você vai ser o Trono de Amyrlin, quando eu for a Rainha de Andor.
— Se a Torre ainda existir até lá — retrucou Egwene em um tom sóbrio, fazendo a gargalhada de Elayne desaparecer.
— Elaida não tem como destruir a Torre Branca, Egwene. O que quer que ela faça, a Torre vai permanecer. Talvez ela não dure como Amyrlin. Assim que Nynaeve se lembrar do nome daquela cidadezinha, aposto que vamos encontrar uma Torre no exílio. E com todas as Ajahs, exceto a Vermelha.
— Espero que sim. — Egwene sabia que soava triste. Queria que as Aes Sedai apoiassem Rand e se opusessem a Elaida, mas isso significaria uma Torre Branca rompida, e que talvez nunca mais voltasse a ser inteira.
— Preciso voltar — avisou Elayne. — Nynaeve insiste que quem não entra em Tel’aran’rhiod tem que ficar acordada, e ela está com dor de cabeça.Tem mais é que tomar um de seus chás de ervas e dormir. Não sei por que ela é tão insistente. Quem fica assistindo não pode fazer nada para ajudar, e nós já sabemos o bastante para ficarmos seguras aqui. — Seu vestido verde piscou e, por um instante, se transformou no casaco branco e nas volumosas calças amarelas de Birgitte e logo voltou a ser o que era. — Ela disse que não era para eu lhe falar isso, mas acha que Moghedien está tentando nos encontrar. Nynaeve e eu.
Egwene não fez a pergunta óbvia. Estava claro que se tratava de algo que Birgitte lhes contara. Por que Elayne queria tentar manter aquilo em segredo? Porque ela prometeu. Elayne nunca quebrou uma promessa em toda a vida.
— Diga a ela para ter cuidado. — Se achasse que um dos Abandonados estava atrás dela, a chance de Nynaeve ficar sentada esperando era pequena. Ela se lembraria de que derrotara a mulher uma vez, e sempre tivera mais coragem do que bom senso. — Não podemos subestimar os Abandonados. Nem os Seanchan, mesmo que, supostamente, não passem de tratadores de animais. Diga isso a ela.