Выбрать главу

Egwene se virou, ansiosa, os olhos indo além das crianças que brincavam no Campo. As toras da Ponte das Carroças tamborilaram quando Gawyn as atravessou galopando e desceu da sela bem em frente a ela. Alto e ereto em seu casaco vermelho com bordados de ouro, o homem tinha os mesmos cachos acobreados da irmã, além de olhos maravilhosos de um azul profundo. Não era tão bonito quanto seu meio-irmão, claro, mas o coração dela batia mais forte por ele do que batera por Galad — Por Galad? O quê? —, e Egwene precisou apertar o estômago em uma vã tentativa de atenuar o friozinho que ele lhe causava.

— Sentiu minha falta? — perguntou Gawyn, sorrindo.

— Um pouco. — Por que pensei em Galad? Como se eu tivesse acabado de vê-lo há poucos instantes. — Uma vez ou outra, quando não havia nada de interessante para ocupar meu tempo. Você sentiu a minha falta?

A resposta dele foi erguê-la do chão e lhe dar um beijo. Egwene não prestou atenção em muito mais do que isso até ele a colocar de volta no chão, as pernas bambas. Os estandartes haviam desaparecido. Que estandartes?

— Aqui está ele — anunciou a mãe, aproximando-se com um bebê enrolado em um cobertor. — Aqui está seu filho. É um belo menino. Nunca chora.

Gawyn soltou uma gargalhada ao tomar a criança nos braços e erguê-la bem alto.

— Ele tem os seus olhos, Egwene. Vai fazer sucesso com as meninas, algum dia.

Sacudindo a cabeça, Egwene se afastou dos dois. Houvera estandartes, uma águia e uma cabeça de lobo vermelhas. Ela tinha visto Galad. Na Torre.

— Nãããããooooo!

Ela fugiu, saltando de Tel’aran’rhiod direto para o próprio corpo. Ficou consciente apenas o bastante para se perguntar como pôde ser tola a ponto de permitir que as próprias fantasias quase a aprisionassem, e em seguida já estava profundamente imersa e segura no próprio sonho. Gawyn atravessava a Ponte das Carroças galopando e descia…

Surgindo de trás de uma casa com telhado de palha, Moghedien se perguntou distraidamente onde ficaria aquele vilarejo. Não era o tipo de lugar onde esperaria encontrar estandartes ao vento. A garota era mais forte do que pensara, para conseguir escapar de sua tessitura em Tel’aran’rhiod. Nem Lanfear conseguia aperfeiçoar suas habilidades ali, independentemente do que afirmasse. A garota só era de seu interesse porque estivera conversando com Elayne Trakand, que poderia levá-la a Nynaeve al’Meara. O único motivo para prendê-la era livrar Tel’aran’rhiod de alguém capaz de andar livremente por lá. Já era ruim o bastante precisar dividir o Mundo dos Sonhos com Lanfear.

Mas havia Nynaeve al’Meara. Aquela mulher, Moghedien pretendia ver implorando para servi-la. Ela a capturaria pessoalmente, e talvez pedisse ao Grande Senhor para conceder imortalidade à garota, para que aquela Nynaeve tivesse toda a eternidade para se arrepender de ter se oposto a Moghedien. Ela e Elayne estavam planejando algo com Birgitte, não era? Outra que ela tinha motivos para punir. Birgitte nem soubera quem era Moghedien, muito tempo atrás, na Era das Lendas, quando frustrara seu plano, urdido com tanto esmero, para sobrepujar Lews Therin. Mas Moghedien sabia quem ela era. Só que Birgitte — Teadra, como então se chamara — havia morrido antes que a Abandonada pudesse dar conta dela. A morte não era uma punição, não era um fim, não quando significava viver ali.

Nynaeve al’Meara, Elayne Trakand e Birgitte. Aquelas três ela encontraria, e daria um jeito em todas elas. Vindo pelas sombras, para que não percebessem nada até que fosse tarde demais. Todas as três, sem exceção.

Ela desapareceu, e os estandartes continuaram tremulando ao sabor da brisa de Tel’aran’rhiod.

26

Sallie Daera

O halo de grandeza, azul e dourado, bruxuleava intermitentemente em torno da cabeça de Logain, embora ele cavalgasse encurvado na sela. Min não entendia por que o halo vinha aparecendo com mais frequência nos últimos dias. O homem já nem se dava ao trabalho de erguer os olhos das ervas daninhas à frente do garanhão negro para as pequenas colinas arborizadas a volta deles.

As outras duas mulheres cavalgavam juntas um pouco adiante, Siuan tão desajeitada em Bela quanto sempre, Leane conduzindo habilmente sua égua cinzenta, mais com os joelhos do que com as rédeas. Apenas a fileira tão reta que não podia ser natural de samambaias perpassando as folhas que cobriam o solo da floresta davam pista de que, um dia, houvera uma estrada ali. As samambaias estavam murchando, e o tapete de folhas secas farfalhava e crepitava sob as patas dos cavalos. Galhos que se entrelaçavam em aglomerados densos proporcionavam um pequeno abrigo para o sol do meio-dia, mas o clima não tinha nada de fresco. O suor escorria pelo rosto de Min, apesar de uma brisa ocasional que soprava por trás deles.

Já fazia quinze dias que cavalgavam para o oeste e o sul vindos de Lugard, guiados apenas pela insistência de Siuan de que sabia exatamente para onde estavam indo. Não que ela revelasse o destino, claro. Siuan e Leane mantinham a boca tão fechada quanto armadilhas para ursos. Min não tinha certeza nem se Leane sabia. Quinze dias, e cidadezinhas e aldeias foram ficando cada vez mais raras e distantes uma da outra, até que, finalmente, já não havia nenhuma. Dia após dia, os ombros de Logain haviam se curvado ainda mais, e, dia após dia, o halo aparecia com mais frequência. De início, o homem só passara a resmungar que estavam caçando Jak das Névoas, mas Siuan reconquistara sua liderança sem oposição à medida que Logain foi se ensimesmando cada vez mais. Durante os últimos seis dias, ele parecera não ter nem a energia necessária para se importar com o lugar para onde estavam indo ou se conseguiriam chegar lá.

Mais à frente, Siuan e Leane conversavam tranquilamente. Tudo o que Min ouvia era um murmúrio quase inaudível que também poderia ser o som do vento nas folhas. E, caso tentasse cavalgar mais perto, as duas lhe diriam para ficar de olho em Logain, ou simplesmente a encarariam até que só uma idiota completa fosse manter o nariz enfiado onde não fora chamada. Já haviam agido das duas maneiras com demasiada frequência. De tempos em tempos, no entanto, Leane se virava na sela para dar uma olhada em Logain.

Por fim, Leane deixou Flor da Lua diminuir o passo para andar ao lado do garanhão negro dele. O calor não parecia incomodá-la. Não mais que um brilho de suor maculava seu rosto acobreado. Min usou as rédeas para guiar Rosa Selvagem para o lado e abrir espaço.

— Agora falta pouco — disse Leane para ele, com voz abafada. Logain não tirou o olhar das ervas daninhas à frente do cavalo. Ela se inclinou mais para perto e segurou no braço dele para se equilibrar. Apertou-o, na verdade. — Só mais um pouco, Dalyn. Você vai ter sua vingança. — Os olhos dele continuaram monotonamente fixos na estrada.

— Um morto prestaria mais atenção — opinou Min, com sinceridade.

Vinha anotando mentalmente tudo o que Leane fazia, e conversava com ela a respeito, de noite, embora tentasse não revelar seus motivos. Jamais seria capaz de se comportar como Leane. Só se estivesse tão cheia de vinho que já não conseguisse nem pensar. Porém, algumas pistas poderiam vir a calhar.

— Se você o beijasse, quem sabe?

Leane lhe disparou um olhar que poderia ter congelado a água corrente de um riacho, mas Min mal olhou de volta. Nunca tivera com Leane os mesmos problemas que tinha com Siuan — bem, não tantos, pelo menos — e os poucos conflitos haviam diminuído desde que a mulher deixara a Torre. E diminuído ainda mais quando começaram a conversar sobre homens. Como se sentir intimidada por uma mulher que lhe dissera, na mais absoluta seriedade, que havia cento e sete tipos diferentes de beijos e noventa e três maneiras de tocar o rosto de um homem com as mãos? Leane realmente parecia acreditar naquilo tudo.