— Peras e queijo seria ótimo — respondeu Min. Os últimos dois dias tinham sido de fome. Siuan conseguira fisgar alguns peixes em um ribeirão, mas era Logain quem caçava quando não comiam em uma estalagem ou em alguma fazenda. Feijões secos não contavam como refeição, na opinião de Min. — E um pouco de vinho, se tiver. Mas, primeiro, eu queria uma informação. Onde estamos? Caso isso também não seja segredo. O nome desta aldeia é Salidar?
— Em Altara. O Eldar fica a cerca de uma milha a oeste. Do outro lado já é Amadícia. — A garota fez uma imitação fraca do jeito misterioso das Aes Sedai. — Onde seria melhor para Aes Sedai se esconderem do que no lugar onde jamais seriam procuradas?
— Não deveríamos ter que nos esconder — intrometeu-se uma jovem de pele escura e cabelos encaracolados, parando ao lado da noviça. Min a reconheceu: uma Aceita chamada Faolain. Imaginara que ela ainda estivesse na Torre. Até onde sabia, Faolain nunca gostara de nada nem ninguém, e costumava falar que escolheria a Ajah Vermelha quando fosse elevada. Seria uma seguidora perfeita de Elaida. — Por que vocês vieram para cá? E com ele! Por que ela veio? — Min não teve dúvidas sobre de quem ela estava falando. — Precisamos nos esconder por culpa dela. Não acreditei que ela tinha ajudado Mazrim Taim a escapar, mas, se ela apareceu aqui com ele, talvez tenha mesmo.
— Já chega, Faolain — disse uma mulher esbelta, os cabelos negros caindo até a cintura, dirigindo-se à Aceita de rosto redondo. Min pensou reconhecer a mulher naquele vestido de cavalgada dourado escuro: Edesina. Uma Amarela, acreditava. — Vá cuidar de suas obrigações. E se pretende trazer comida, Tabiya, traga. — Edesina não viu a reverência carrancuda de Faolain. A noviça fez uma melhor e saiu apressada. A Aes Sedai, por sua vez, pôs a mão na cabeça de Logain. Encarando a mesa, ele nem pareceu notar.
De repente, os olhos de Min perceberam uma coleira prateada em torno do pescoço da mulher, e, tão de repente quanto, a peça pareceu se estilhaçar. Min estremeceu. Não gostava de visões ligadas aos Seanchan. Pelo menos Edesina, de alguma forma, escaparia. Mesmo que Min estivesse disposta a se expor, não fazia sentido alertar a mulher. Não mudaria nada.
— É o amansamento — afirmou a Aes Sedai, após alguns momentos. — Ele desistiu de viver, suponho. Não há nada que eu possa fazer por ele. Não que eu esteja certa de que deveria ajudar, se pudesse. — O olhar que lançou a Min antes de se afastar estava longe de ser amigável.
Uma mulher elegante, parecendo uma estátua envolta em seda castanho-avermelhada, parou a alguns pés de distância e ficou examinando Min e Logain calmamente, os olhos neutros. Kiruna era uma Verde de modos majestosos. Min ouvira dizer que ela era uma das irmãs do Rei de Arafel, mas, na Torre, a mulher fora amigável com ela. Min sorriu, mas aqueles olhos escuros varreram-na sem reconhecê-la, e Kiruna saiu da estalagem a passos suaves sendo subitamente seguida por quatro Guardiões bem diferentes, mas que se moviam com o mesmo andar de aspecto letal.
Aguardando a comida, Min torceu para que Siuan e Leane estivessem tendo uma recepção mais calorosa.
27
A prática da modéstia
— Vocês estão completamente perdidas — disse Siuan para as seis mulheres à sua frente, sentadas em seis cadeiras de estilos diferentes.
O próprio aposento estava uma bagunça. Sobre duas grandes mesas de cozinha junto às paredes havia canetas, frascos de tinta e garrafas com areia muito bem-arrumadas. Lamparinas que não combinavam, algumas de cerâmica esmaltada e outras douradas, além de velas de todas as espessuras e comprimentos, estavam prontas para fornecer luz ao cair da noite. Um farrapo de tapete de seda illianense, rico em tons de azul, vermelho e dourado, repousava em um piso de tábuas ásperas e desgastadas. Ela e Leane estavam sentadas em uma ponta do tapete, de frente para as mulheres, do outro lado, de maneira a serem o foco de todos os olhares. Janelas com vidros quebrados ou substituídos por seda impermeável permitiam que uma brisa entrasse, mas não era o bastante para afastar o calor. Siuan disse a si mesma que não invejava aquelas mulheres por sua capacidade de canalizar, já havia superado a questão, mas as invejava pelo modo como nenhuma delas transpirava. Seu rosto estava bastante úmido.
— Todo esse movimento aí fora é só jogo de cena. Vocês podem estar enganando umas às outras, e talvez até os Gaidin, embora, se eu fosse vocês, não fosse contar com isso, mas não me enganam.
Ela gostaria que Morvrin e Beonin não tivessem se juntado ao grupo. Morvrin duvidava de tudo, apesar do aspecto plácido e, por vezes, vagamente ausente; era uma Marrom robusta com mechas grisalhas que exigia seis provas distintas antes de acreditar que peixes tinham escamas. E Beonin, uma bonita Cinza com cabelos escuros cor de mel e grandes olhos azul-acinzentados que a faziam parecer sempre meio assustada, fazia Morvrin parecer fácil de enganar.
— Elaida tem a Torre nas mãos, e vocês sabem que ela vai lidar mal com Rand al’Thor — afirmou Siuan com desdém. — Vai ser pura sorte ela não entrar em pânico e mandar amansá-lo antes de Tarmon Gai’don. Vocês sabem que não importa como se sintam sobre homens canalizando, as Vermelhas se sentem dez vezes pior. A Torre Branca está mais fraca quando deveria estar mais forte. Nas mãos de uma tola, quando precisa de uma líder competente. — Ela franziu o nariz e fitou-as uma a uma, olhos nos olhos. — E vocês aqui, sentadas, navegando com as velas abaixadas. Ou vão conseguir me convencer de que estão fazendo mais do que brincar com os dedos e estourar bolhas?
— Concorda com Siuan, Leane? — indagou Anaiya com um tom de voz ameno.
Siuan nunca entendera por que Moiraine gostava daquela mulher. Tentar convencê-la a fazer qualquer coisa que não quisesse era como bater em um saco cheio de penas. Ela não confrontava nem discutia com ninguém, simplesmente se recusava silenciosamente. Até o modo como se sentava, com as mãos entrelaçadas, parecia mais com o de uma mulher esperando para amassar o pão do que com uma Aes Sedai.
— Concordo em parte — respondeu Leane. Siuan lhe lançou um olhar incisivo, que ela ignorou. — Sobre Elaida, com certeza. Ela vai fazer mau uso de Rand al’Thor, e isso é tão certo quanto o mau uso que vem fazendo da Torre. Quanto ao resto, sei que vocês se esforçaram muito para reunir o máximo de irmãs que conseguiram, e imagino que estejam trabalhando com o mesmo afinco para tomar alguma providência com relação a Elaida.
Siuan bufou. Ao atravessar o salão, vira relances de alguns daqueles pergaminhos que estavam sendo examinados assiduamente: listas de provisões, lotes de madeira para reconstruções e designações para cortar lenha, consertar casas e limpar poços. Nada mais. Nada que se parecesse nem de longe com um relatório das atividades de Elaida. O plano daquelas mulheres era passar o inverno ali. Bastava que uma das Azuis fosse capturada depois de ficar sabendo de Salidar, uma única mulher levada a interrogatório — ela não guardaria o segredo por muito tempo, caso Alviarin fosse a responsável por interrogar — e Elaida saberia exatamente onde apanhá-las. Enquanto elas se preocupavam em plantar hortas e cortar madeira suficiente antes da primeira nevasca.
— Então esse assunto está encerrado — afirmou Carlinya com frieza. — Vocês parecem não entender que não são mais a Amyrlin e a Curadora. Não são mais nem Aes Sedai. — Algumas tiveram o cuidado de parecer constrangidas. Não Morvrin e Beonin, mas as outras. Nenhuma Aes Sedai gostava de falar sobre estancamento, ou de se lembrar disso. Achariam especialmente ruim fazer isso diante delas duas. — Não digo isso para ser cruel. Não acreditamos nas acusações contra vocês, apesar do acompanhante de viagem, ou não estaríamos aqui, mas vocês não podem assumir suas antigas posições entre nós, e isso é um fato.
Siuan se lembrava bem de Carlinya como noviça e Aceita. Uma vez por mês, ela cometia algum leve deslize, uma coisinha pequena que lhe valia uma ou duas horas extras de tarefas. Exatamente uma vez por mês. Não queria que as demais a vissem como arrogante. Aqueles tinham sido os únicos deslizes dela — nunca quebrara outra regra ou dera um passo errado; isso não seria lógico — e, mesmo assim, nunca havia entendido por que as outras garotas a consideravam um bichinho de estimação das Aes Sedai. Um bocado de lógica e não muito bom senso: esta era Carlinya.