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— Ainda que a punição de vocês tenha seguido estritamente o que diz a lei — disse Sheriam gentilmente —, concordamos que foi de uma injustiça maldosa, uma distorção extrema do espírito da lei. — O encosto da cadeira atrás de seus cabelos vermelhos era estranhamente entalhado com o que parecia um monte de serpentes brigando. — Não importa o que dizem os boatos, a maioria das acusações feitas contra vocês era tão frágil que deveria ter sido motivo de riso.

— Não a acusação de que ela sabia sobre Rand al’Thor e que conspirou para escondê-lo da Torre — interrompeu Carlinya bruscamente.

Sheriam aquiesceu.

— Mas, ainda que seja verdade, mesmo isso não era suficiente para a punição que foi dada. E vocês não deveriam ter sido julgadas em sigilo, sem sequer terem a chance de se defender. Jamais temam que viremos as costas para vocês. Vamos cuidar para que as duas sejam bem tratadas.

— Eu agradeço — respondeu Leane, a voz suave e quase trêmula.

Siuan fez uma careta.

— Vocês ainda nem me perguntaram sobre os espiões que posso usar. — Ela gostava de Sheriam na época em que estudavam juntas, embora os anos e as posições tivessem feito as duas se afastarem. “Bem tratadas”, pois sim! — Aeldene está por aqui? — Anaiya começou a balançar a cabeça antes de ficar imóvel. — Suspeito que não, ou vocês saberiam mais sobre o que está acontecendo. Vocês deixaram que continuassem enviando relatórios para a Torre. — Uma lenta compreensão despontou nos rostos de cada uma. Não tinham conhecimento do cargo de Aeldene. — Eu chefiei a rede de espiões da Ajah Azul antes de ser elevada a Amyrlin. — Mais uma surpresa. — Com um pequeno esforço, cada um dos agentes das Azuis, e também aqueles que me serviram na época de Amyrlin, podem passar a enviar os relatórios para vocês por meio de rotas que não revelem o destino final dos documentos. — Seria necessário bem mais do que um pequeno esforço, mas Siuan já rascunhara a maior parte do plano na cabeça, e não era preciso dizer mais que isso naquele momento. — E eles podem continuar a enviar relatórios para a Torre, relatórios contendo o que… vocês quiserem que Elaida saiba. — Quase dissera “nós”. Precisava tomar cuidado com as palavras.

Claro que elas não gostaram daquilo. As mulheres que cuidavam das redes talvez só fossem conhecidas de algumas delas, mas todas eram Aes Sedai. Sempre haviam sido. Mas aquele era o único pé-de-cabra de que dispunha para abrir caminho para o círculo que tomava as decisões. Caso contrário, elas provavelmente enfiariam Siuan e Leane em uma casa de campo com uma serviçal para cuidar delas, e as duas talvez recebessem uma rara visita de uma Aes Sedai que quisesse examinar mulheres que haviam sido estancadas, até o dia em que morressem. Em tais circunstâncias, morreriam logo.

Luz, talvez elas até nos arrumem casamentos! Havia quem pensasse que um marido e filhos eram capazes de ocupar o suficiente a vida de uma mulher para substituir o Poder Único. Mais de uma mulher, exaurida por canalizar acima de suas capacidades, ou por testar um ter’angreal de função desconhecida, se vira sendo apresentada a potenciais maridos. Como aquelas que de fato se casavam sempre mantinham o máximo possível de distância entre si mesmas e a Torre e suas lembranças, a teoria permanecia sem comprovação.

— Não deve ser difícil — afirmou Leane, timidamente — entrar em contato com as pessoas que foram meus espiões antes de eu virar Curadora. Ainda mais importante, como Curadora das Crônicas, eu tinha agentes inclusive em Tar Valon. — Alguns olhos se arregalaram, embora os de Carlinya tenham se estreitado. Leane piscou, se mexeu desconfortavelmente e abriu um sorriso tímido. — Sempre achei uma tolice prestarmos mais atenção aos ânimos de Ebou Dar ou Bandar Eban do que ao humor da nossa própria cidade. — As mulheres deviam entender a importância de ter espiões em Tar Valon.

— Siuan. — Inclinando-se para a frente em sua cadeira de braços robustos, Morvrin pronunciou o nome com firmeza, como se quisesse enfatizar que não dissera “Mãe”. Agora seu rosto redondo parecia mais teimoso do que plácido, sua robustez, uma massa ameaçadora. Quando Siuan era noviça, Morvrin raramente notava o mau comportamento das garotas ao seu redor, mas, quando notava, ela mesma cuidava da questão de um modo que fazia com que todas se sentassem bem eretas e pisassem com cuidado por vários dias. — Por que deveríamos permitir que você faça o que quer? Você foi estancada, mulher. O que quer que tenha sido, você não é mais uma Aes Sedai. Se quisermos os nomes desses agentes, vocês duas nos darão essas informações. — As últimas palavras traziam uma certeza absoluta. Elas dariam os nomes, de um jeito ou de outro. Se aquelas mulheres quisessem, elas dariam.

Leane tremeu visivelmente, mas a cadeira de Siuan rangeu quando ela enrijeceu as costas.

— Sei que não sou mais a Amyrlin. Acham que eu não sei que fui estancada? Meu rosto mudou, mas meu interior não. Todo o meu conhecimento ainda está na minha cabeça. Usem! Pelo amor da Luz, me usem!

Siuan respirou fundo para se acalmar. Que me queime se eu permitir que elas me deixem de lado até apodrecer! Quando ela fez uma pausa, Myrelle tomou a palavra.

— O temperamento de uma jovem para combinar com o rosto de uma jovem. — Ela sorriu, sentada na beira de uma poltrona de encosto duro que poderia estar diante da lareira de uma fazenda, caso o fazendeiro não se importasse com o verniz descamando. O sorriso, porém, não era o habitual, ao mesmo tempo lânguido e sagaz, e os olhos escuros, quase tão grandes quanto os de Beonin, estavam cheios de pena. — Tenho certeza de que ninguém quer que você se sinta inútil, Siuan. E tenho certeza de que todas nós desejamos fazer pleno uso do seu conhecimento. O que você sabe vai ser de grande serventia para nós.

Siuan não queria a pena dela.

— Vocês parecem ter se esquecido de Logain e de por que eu o arrastei de Tar Valon até aqui. — Ela não pretendera tocar no assunto por conta própria, mas se elas não iam mencionar… — Minha ideia “sem pé nem cabeça”?

— Muito bem, Siuan — cedeu Sheriam. — Por quê?

— Porque o primeiro passo para derrubar Elaida é fazer Logain revelar para a Torre, ou para o mundo inteiro, se for preciso, que a Ajah Vermelha armou para ele se tornar um falso Dragão e depois poder derrubá-lo. — Agora, sim, tinha a atenção de todas. — Ele foi encontrado pelas Vermelhas em Ghealdan pelo menos um ano antes de se proclamar, mas, em vez de levá-lo a Tar Valon para ser amansado, elas plantaram na cabeça dele a ideia de afirmar que era o Dragão Renascido.

— Você tem certeza disso? — perguntou Beonin, baixinho, com um pesado sotaque taraboniano. Estava sentada bem quieta na cadeira alta de assento trançado, observando com atenção.

— Ele não sabe quem Leane e eu somos. Conversou conosco algumas vezes durante a jornada até aqui, tarde da noite, quando Min estava dormindo e ele não conseguia descansar. Não disse nada antes porque acha que a Torre inteira estava por trás, mas sabe que foram as irmãs Vermelhas que o protegeram e falaram para ele sobre o Dragão Renascido.

— Por quê? — questionou Morvrin, e Sheriam assentiu.

— É, por quê? Qualquer uma de nós faria todo o possível para ver um homem como ele amansado, mas a Ajah Vermelha vive só para isso. Por que elas inventariam um falso Dragão? — perguntou Sheriam.

— Logain não sabe — respondeu Siuan. — Talvez achem que ganham mais capturando um falso Dragão do que amansando um pobre idiota que talvez aterrorizasse uma aldeia. Talvez elas tenham algum motivo para querer criar mais tumulto.