— Não estamos sugerindo que elas tenham tido alguma coisa a ver com Mazrim Taim ou qualquer um dos outros — acrescentou Leane, mais do que depressa. — Elaida com certeza poderá lhes dizer o que vocês querem saber.
Siuan observou-as ponderar o assunto em silêncio. Nem consideraram a possibilidade de que ela estivesse mentindo. Uma vantagem de ter sido estancada. Pareceu não ocorrer a elas que ter sido estancada podia ter quebrado todos os laços com os Três Juramentos. Algumas Aes Sedai estudavam mulheres estancadas, verdade, mas superficialmente e com relutância. Nenhuma delas queria ser lembrada do que poderia acontecer consigo mesma.
Quanto a Logain, Siuan não tinha preocupações. Não, desde que Min continuasse a ver o que andara vendo. Ele viveria o suficiente para revelar o que Siuan queria, assim que conversasse com o homem. Não ousara arriscar que Logain decidisse seguir o próprio caminho, o que ele poderia muito bem ter feito, caso ela tivesse lhe contado o plano antes. Mas aquela era a única chance que ele tinha de se vingar das que o amansaram, agora que estava cercado por Aes Sedai. Vingança apenas da Ajah Vermelha, verdade, mas ele teria que se contentar com aquilo. Mais valia um peixe no barco que um cardume na água.
Ela olhou de relance para Leane, que abriu o sorriso mais discreto possível. Isso era bom. Leane não havia gostado de ser mantida no escuro sobre os planos dela para o homem até aquela manhã, mas Siuan vivera tempo demais envolta em segredos para que fosse fácil revelar mais do que o necessário, até mesmo para uma amiga. Achou que a ideia do envolvimento da Ajah Vermelha com os outros falsos Dragões fora muito bem plantada. As Vermelhas haviam liderado sua deposição do Trono. Quando aquilo tudo terminasse, talvez a Ajah Vermelha não existisse mais.
— Isto muda bastante as coisas — afirmou Sheriam, depois de algum tempo. — Não podemos seguir uma Amyrlin capaz de fazer esse tipo de coisa.
— Segui-la?! — exclamou Siuan, pela primeira vez realmente perplexa. — Vocês realmente estavam considerando voltar lá para beijar o anel de Elaida? Sabendo o que ela fez e o que vai fazer? — Leane se agitou no assento, como se ela própria quisesse proferir alguns insultos, mas as duas haviam concordado que seria Siuan a perder a cabeça.
Sheriam parecia um pouco envergonhada, e as bochechas morenas de Myrelle estavam um pouco vermelhas, mas as outras receberam as palavras tão placidamente como se estivessem tomando um banho de sol.
— A Torre precisa ser forte — afirmou Carlinya, com a voz tão dura quanto uma pedra congelada. — O Dragão já Renasceu, a Última Batalha se aproxima, e a Torre precisa estar unida.
Anaiya assentiu.
— Nós compreendemos seus motivos para não gostar de Elaida, até para odiá-la. Nós realmente entendemos, mas precisamos pensar na Torre e no mundo. Confesso que eu mesma não gosto de Elaida. Mas, por outro lado, também nunca gostei de Siuan. Não é necessário gostar do Trono de Amyrlin. Não precisa olhar assim, Siuan. Sua língua é afiada desde os tempos de noviça, e isso só piorou com o passar dos anos. E, como Amyrlin, você mandava irmãs para onde bem entendia e poucas vezes explicava o porquê. Essas duas coisas não são uma combinação agradável.
— Eu vou tentar… segurar a língua — disse Siuan, seca. Aquela mulher esperava que o Trono de Amyrlin tratasse todas as irmãs como amigas de infância? — Mas torço para que o que contei a vocês mude seu desejo de se ajoelhar aos pés de Elaida.
— Se essa é você segurando a língua — ponderou Myrelle indolente —, talvez eu mesma tenha que dobrá-la, caso deixemos que você administre os espiões para nós.
— Claro que não podemos voltar para a Torre agora — opinou Sheriam. — Não depois de saber disso. Não até estarmos em uma posição para depor Elaida.
— O que quer que ela tenha feito, as Vermelhas vão continuar a apoiá-la — afirmou Beonin, como um fato, não uma objeção. Não era segredo que as Vermelhas se ressentiam do fato de que não houvera uma Amyrlin de sua Ajah desde Bonwhin.
Morvrin anuiu vigorosamente.
— Outras também irão. Todas as que apoiaram Elaida por tempo demais para acreditar que agora têm outra opção. Todas as que apoiam autoridades, mesmo que sejam vis. E algumas que vão crer que estamos dividindo a Torre quando ela deveria estar unida a qualquer custo.
— Tirando as irmãs Vermelhas, todas podem ser abordadas — ponderou Beonin, com sensatez —, podem estar abertas a negociação. — Mediar e negociar era o que sua Ajah fazia.
— Parece que vamos fazer uso dos seus agentes, Siuan. — Sheriam correu o olhar pelas demais. — A menos que alguém aqui ainda ache que deveríamos tomá-los dela. — Morvrin foi a última a balançar a cabeça, mas finalmente o fez, após um olhar demorado que fez Siuan se sentir nua.
Ela não conseguiu conter um suspiro de alívio. Nada de uma vida curta murchando em uma casa de campo, mas sim uma vida com um propósito. Talvez ainda fosse uma vida curta — ninguém sabia quanto tempo uma estancada poderia viver tendo algo para substituir o Poder Único em sua vida —, mas, com um propósito, seria suficientemente longa. Quer dizer que Myrelle ia dobrar sua língua por ela, hein? Eu vou mostrar para aquela Verde de olhos de raposa… Eu vou é controlar a minha língua e me dar por satisfeita por ela não estar fazendo nada além de olhar para mim, isso sim. Eu sabia que isso ia acontecer. Que me queime, mas eu sabia.
— Obrigada, Aes Sedai — disse, com o tom de voz mais humilde que conseguiu. Chamá-las daquilo lhe doía. Era mais uma mudança, mais um lembrete do que já não era. — Vou tentar fazer um bom trabalho. — Myrelle não precisava ter assentido com tanta satisfação. Siuan ignorou uma vozinha interna dizendo que ela teria feito o mesmo ou até mais em seu lugar.
— Se me permitem uma sugestão — disse Leane —, não basta esperar até vocês terem apoio suficiente no Salão da Torre para depor Elaida. — Siuan exibiu um olhar interessado, como se ouvisse aquilo pela primeira vez na vida. — Elaida está em Tar Valon, na Torre Branca, e, para o mundo, é a Amyrlin. No momento, vocês são apenas um bando de dissidentes. Ela pode dizer que vocês são rebeldes e conspiradoras, e, vindo do Trono de Amyrlin, o mundo vai acreditar.
— Não temos como impedi-la de ser a Amyrlin antes de depô-la — disse Carlinya, mudando de posição na cadeira com um desdém gélido. Se estivesse com o xale de franjas brancas, teria se enrolado nele.
— Vocês podem dar ao mundo uma verdadeira Amyrlin — Leane não se dirigiu à irmã Branca, mas a todas elas, encarando uma por uma, falando com confiança, mas, ao mesmo tempo, parecendo apenas fazer uma sugestão que torcia para que acatassem. Fora Siuan quem apontara que as técnicas que ela usava com os homens podiam ser adaptadas para as mulheres. — Vi Aes Sedai de todas as Ajahs, menos da Vermelha, no salão e nas ruas. Façam com que elejam um Salão da Torre aqui, e deixem o Salão escolher uma nova Amyrlin. Aí vocês podem se apresentar ao mundo como a verdadeira Torre Branca, apenas exilada, e Elaida como uma usurpadora. Com mais as revelações de Logain, têm dúvida de quem as nações vão aceitar como o verdadeiro Trono de Amyrlin?
A ideia foi ouvida com interesse. Siuan viu que elas estavam considerando a sugestão. O que quer que as demais tenham pensado, Sheriam foi a única a se pronunciar contrariamente:
— Vai significar que a Torre está de fato dividida — concluiu a mulher de olhos verdes, com tristeza.
— Ela já está dividida — retrucou Siuan, amargamente, desejando não ter dito nada quando todas as mulheres olharam para ela.
Aquela ideia era para vir toda de Leane. Siuan tinha a reputação de ser uma manipuladora hábil, e era bem possível que elas suspeitassem de qualquer sugestão sua. Por isso começara fulminando-as. Ninguém teria acreditado se ela começasse com palavras amenas. Siuan falaria com elas como se ainda pensasse ser a Amyrlin, e deixaria que as mulheres a colocassem em seu devido lugar. Leane, por outro lado, pareceria mais cooperativa, oferecendo apenas o pouco que podia, e seria mais provável que as Aes Sedai lhe escutassem. Cumprir a parte que lhe cabia não tinha sido difícil — até chegar a hora de suplicar. Então desejara pendurar todas elas para secar ao sol. Sentada ali sem fazer nada!