Você não precisava se preocupar com elas suspeitarem de algo. Para elas, você é um junco quebrado. Se tudo saísse como devia, elas não mudariam de opinião. Um junco útil, mas fraco, sobre o qual não se deveria pensar duas vezes. Fora um ajuste doloroso de se fazer, mas Duranda Tharne lhe mostrara, em Lugard, a necessidade disso. Aquelas mulheres só a aceitariam nos próprios termos, e Siuan teria de utilizar isso da melhor forma possível.
— Eu gostaria de ter pensado nisso — continuou ela. — Ouvindo agora, a ideia de Leane dá a vocês uma maneira de reconstruir a Torre sem precisar primeiro destruí-la por completo.
— Ainda não consigo concordar. — A voz de Sheriam endureceu. — Mas o que tiver que ser, será. Há de ser o que a Roda tecer, e, se a Luz quiser, ela vai tecer Elaida para longe da estola.
— Vamos precisar negociar com as irmãs que continuam na Torre — divagou Beonin, quase consigo mesma. — A Amyrlin que escolhermos precisa ser uma negociadora habilidosa, não?
— É necessário alguém que pense com cuidado — ponderou Carlinya. — A nova Amyrlin precisa ser uma mulher de lógica e juízo sereno.
O bufar de Morvrin foi alto o bastante para fazer todas saltarem em suas cadeiras.
— Sheriam é a mais elevada entre nós, e nos manteve unidas quando já estaríamos correndo em dez direções diferentes.
Sheriam balançou a cabeça vigorosamente, mas Myrelle não lhe deu chance de falar.
— Sheriam é uma escolha excelente. Posso garantir que todas as irmãs Verdes aqui a apoiariam, sei disso. — Anaiya abriu a boca, a concordância estampada em seu rosto.
Era hora de pôr um fim naquilo, antes que a situação saísse do controle.
— Me permitem uma sugestão?
Siuan achou que simulou a modéstia bem melhor do que administrara a docilidade. Foi preciso esforço, mas era melhor aprender a mantê-la. Myrelle não é a única que vai tentar me enfiar no fundo de um porão se acharem que eu passei dos limites. Sejam eles quais forem. Só que elas não tentariam, elas fariam. As Aes Sedai esperavam, ou melhor, exigiam respeito de quem não era uma igual.
— Me parece que qualquer que seja a escolhida de vocês, deve ser alguém que não estava na Torre quando eu… fui deposta. Não seria melhor que a mulher que vai voltar a unir a Torre fosse alguém que não se pudesse acusar de ter escolhido um lado naquele dia? — Se precisasse continuar com aquilo, sua cabeça acabaria explodindo.
— Alguém muito forte com o Poder — acrescentou Leane. — Quanto mais forte for, mais vai poder defender tudo o que a Torre representa. Ou voltará a representar, assim que Elaida cair.
Siuan poderia ter dado um chute nela. Aquela ideia deveria aguardar um dia inteiro para ser jogada no ar quando elas já tivessem começado de fato a considerar nomes. Ela e Leane sabiam o suficiente a respeito de cada irmã para apontar alguma fraqueza, alguma dúvida para ser plantada sutilmente sobre sua aptidão para a estola e o cajado. Siuan preferiria nadar nua no meio de um cardume de lúcios do que imaginar aquelas mulheres percebendo que ela estava tentando manipulá-las.
— Uma irmã que não estava na Torre — refletiu Sheriam, assentindo. — Faz bastante sentido, Siuan. Muito bom. — Como era fácil conseguir tapinhas nas costas!
Morvrin contraiu os lábios.
— Não vai ser fácil encontrar essa escolhida.
— A força limita as possibilidades. — Anaiya olhou em volta para as demais. — Não só fará dela um símbolo melhor, pelo menos para as outras irmãs, como a força com o Poder costuma vir acompanhada de força de vontade, e a escolhida certamente vai precisar disso.
Carlinya e Beonin foram as últimas a concordar.
Siuan manteve o rosto calmo, sorrindo só por dentro. A ruptura da Torre mudara muitas coisas, muitas maneiras de pensar, além da dela própria. Aquelas mulheres tinham guiado as irmãs reunidas ali, e agora estavam discutindo quem deveria ser apresentada ao novo Salão da Torre como se isso não devesse ser uma escolha do próprio Salão. Não seria difícil convencê-las, bem discretamente, de que a nova Amyrlin deveria ser alguém que elas pudessem manejar. E, sem saber, as mulheres e a Amyrlin que Siuan escolhera para substituí-la seriam guiadas por ela própria. Ela e Moiraine tinham trabalhado tempo demais para encontrar Rand al’Thor e prepará-lo, haviam dado muito de suas vidas para que arriscasse que o tempo que ainda lhe restava fosse estragado por outra pessoa.
— Me permitem outra sugestão? — A modéstia simplesmente não fazia parte de sua natureza. Ela teria que encontrar outra coisa. Tentando não ranger os dentes, esperou Sheriam assentir antes de prosseguir: — Elaida vai tentar descobrir onde Rand al’Thor está. Quanto mais para o sul eu vim, mais boatos escutei de que ele já saiu de Tear. Acho mesmo que sim, e acho que concluí para onde ele foi.
Siuan não precisava dizer que elas tinham que encontrá-lo antes de Tar Valon. Todas compreendiam isso. Não só Elaida certamente lidaria mal com Rand, como, caso pusesse as mãos nele e o tivesse blindado e sob seu controle, qualquer esperança de derrubá-la cairia por terra. Os governantes conheciam as Profecias, ainda que seus povos não conhecessem. Eles perdoariam uma dúzia de falsos Dragões, por pura necessidade.
— Para onde? — rosnou Morvrin, um instante antes de Sheriam, Anaiya e Myrelle também perguntarem em uníssono.
— Para o Deserto Aiel.
Houve um momento de silêncio, até que Carlinya disse:
— Isso é ridículo.
Siuan conteve uma resposta raivosa e sorriu de um jeito que esperava ser apologético.
— Talvez, mas eu li um pouco sobre os Aiel quando me tornei uma Aceita. Gitara Moroso achava que algumas das Sábias Aiel pudessem canalizar. — Gitara era a Curadora, naquela época. — Um dos livros que ela me deu para ler, um volume velho que ficava no canto mais poeirento da biblioteca, afirmava que os Aiel se autointitulavam o Povo do Dragão. Eu não me lembrei disso até tentar decifrar para onde Rand poderia ter ido. As Profecias dizem que “a Pedra de Tear não cairá até que o Povo do Dragão venha”, e havia Aiel na conquista da Pedra. Sobre isso, todos os boatos e histórias estão de acordo.
De repente, os olhos de Morvrin pareceram se desviar para outro lugar.
— Lembro de especulações sobre as Sábias, na época em que fui elevada ao xale. Seria fascinante, caso fosse verdade, mas os Aiel recebem Aes Sedai apenas um pouco melhor do que recebem qualquer outra pessoa que entre no Deserto, e parece que as Sábias têm alguma lei ou costume que as proíbe, pelo que eu entendi, de falar com estranhos, o que torna extremamente difícil se aproximar o suficiente de uma delas para sentir se… — Ela estremeceu de repente e encarou Siuan e Leane como se suas divagações tivessem sido culpa delas. — Algo que você se lembra de ter lido em um livro que provavelmente foi escrito por alguém que nunca viu um Aiel é um fio muito frágil para se tecer um cesto.
— Um fio muitíssimo frágil — reforçou Carlinya.
— Mas que faça valer a pena mandar alguém para o Deserto? — Foi preciso se esforçar para fazer daquilo uma pergunta, em vez de uma ordem. Siuan achava que ia derreter em suor, caso não encontrasse outra maneira. Ainda tinha controle suficiente sobre si mesma para ignorar o calor, geralmente, mas não enquanto tentava arrastar aquelas mulheres consigo sem que elas percebessem seu punho no cabelo delas. — Não creio que os Aiel tentariam machucar uma Aes Sedai. — Não se a mulher fosse rápida em mostrar que era uma Aes Sedai. Siuan realmente achava que não. Precisavam arriscar. — E, caso ele esteja no Deserto, os Aiel vão saber. Lembrem-se daqueles Aiel na Pedra.