— Talvez — ponderou Beonin, hesitante. — O Deserto é grande. Quantas pessoas precisaríamos mandar?
— Se o Dragão Renascido estiver no Deserto — disse Anaiya —, o primeiro Aiel que for encontrado vai saber disso. Rand al’Thor está no centro de todos os acontecimentos. Ele não conseguiria escorregar e cair no oceano sem fazer um barulho que seria ouvido em todos os cantos do mundo.
Myrelle sorriu.
— Tem que ser uma Verde. Ninguém do restante de vocês cria elos com mais de um Guardião, e dois ou três Gaidin podem ser muito úteis no Deserto até os Aiel perceberem que se trata de uma Aes Sedai. Eu sempre quis ver um Aiel. — Ela havia sido noviça durante a Guerra dos Aiel, e não tivera permissão para sair da Torre. Não que qualquer Aes Sedai tenha tomado parte na guerra, além de Curar, claro. Os Três Juramentos as impediam, a menos que Tar Valon, ou talvez até a própria Torre, fosse atacada. E aquela guerra não chegara a cruzar os rios.
— Nem você — avisou Sheriam — nem qualquer outra integrante deste Conselho. Quando concordou em se juntar a nós, Myrelle, concordou em ir até o fim, o que não inclui perambular por aí só porque está entediada. Receio que vá haver mais situações emocionantes do que qualquer uma de nós gostaria, até isso tudo terminar. — Em outras circunstâncias, ela teria sido uma excelente Amyrlin. Naquela, era simplesmente forte e segura demais de si. — Mas Verde… É, acho que sim. Duas? — Seus olhos verdes passearam por todas as demais. — Para garantir?
— Kiruna Nachiman? — sugeriu Anaiya.
— Bera Harkin? — acrescentou Beonin.
As outras assentiram, exceto Myrelle, que se remexia, irritada. Aes Sedai não faziam bico, mas ela chegou perto.
Siuan respirou aliviada pela segunda vez. Tinha certeza de que seu raciocínio estava correto. Ele fora para algum lugar e, se estivesse em qualquer ponto entre a Espinha do Mundo e o Oceano de Aryth, os boatos estariam correndo de vento em popa. E, onde quer que ele estivesse, Moiraine estaria lá, segurando-o pelo colarinho. Kiruna e Bera com certeza estariam dispostas a levar uma carta para Moiraine, e haveria sete Guardiões com elas para evitar que os Aiel as matassem.
— Não queremos cansar você e Leane — prosseguiu Sheriam. — Vou pedir para uma das irmãs Amarelas dar uma olhada em vocês. Talvez ela possa fazer algo para ajudar, aliviá-las de alguma forma. Vou mandar arrumarem quartos onde possam descansar.
— Se você vai ser nossa chefe dos espiões — completou Myrelle, solícita —, deve se manter forte.
— Não sou tão frágil quanto vocês parecem pensar — protestou Siuan. — Se fosse, teria conseguido vir atrás de vocês por quase duas mil milhas? Qualquer fraqueza que eu tenha tido, depois de ser estancada, já ficou no passado, acreditem. — A verdade era que tinha reencontrado um centro de poder e não queria abandoná-lo, mas não podia dizer isso. Todos aqueles olhos preocupados fixos nela e em Leane. Bem, não o de Carlinya, particularmente, mas os demais. Luz! Vão mandar uma noviça nos enfiar na cama para tirarmos uma soneca!
Uma batida na porta foi imediatamente sucedida por Arinvar, Guardião de Sheriam. Cairhieno, ele não era alto nem esbelto, mas, apesar das têmporas grisalhas, tinha o rosto severo e se movia como um leopardo à espreita.
— Há uns vinte e poucos cavaleiros a leste — anunciou, sem cerimônia.
— Não são Mantos-brancos — afirmou Carlinya —, ou imagino que vocês teriam nos informado.
Sheriam a encarou. Muitas irmãs ficavam irritadiças quando outra se colocava entre ela e seus Gaidin.
— Não podemos permitir que fujam, talvez para espalhar informação de que estamos aqui. Eles podem ser capturados, Arinvar? Eu preferia isso a matá-los.
— As duas opções podem ser bem difíceis — respondeu ele. — Machan afirma que estão armados e aparentam ser veteranos. Valem dez vezes mais do que a mesma quantidade de jovens.
Morvrin soltou um muxoxo contrariado.
— Temos que conseguir uma coisa ou outra. Me perdoe, Sheriam. Arinvar, os Gaidin conseguiriam levar sorrateiramente algumas das irmãs mais ágeis até bem perto desses homens para tecer Ar em torno deles?
Ele balançou minimamente a cabeça.
— Machan diz que eles podem ter visto alguns Guardiões vigiando. Com certeza perceberiam se tentássemos levar mais de uma ou duas de vocês até lá perto. Mas ainda estão se aproximando.
Siuan e Leane não foram as únicas a trocar olhares surpresos. Poucos homens viam um Guardião que não quisesse ser visto, mesmo sem o manto dos Gaidin.
— Então vocês devem fazer como acharem melhor — disse Sheriam. — Capturem esses homens, se possível. Mas nenhum pode escapar para nos denunciar.
Antes que Arinvar pudesse concluir a reverência, a mão no punho da espada, outro homem apareceu ao lado dele, escuro, alto e largo feito um urso, com cabelos até os ombros e uma barba cerrada que deixava o lábio superior aparente. Os movimentos fluidos de um Guardião pareciam estranhos nele. O homem piscou para Myrelle, sua Aes Sedai, enquanto falava com forte sotaque illianense:
— A maioria deles, no caso, resolveu ficar onde estava, mas um parece estar vindo sozinho. Mesmo que minha velha mãe discordasse, eu ainda diria que é Gareth Bryne, pelo que consegui ver.
Siuan o encarou, as mãos e os pés subitamente frios. Havia muitos rumores de que Myrelle havia se casado com este Nuhel e com os outros dois Guardiões, o que desafiava as convenções e leis de todas as terras de que Siuan já tinha ouvido falar. Era o tipo de pensamento incongruente que flutuava por uma mente em choque, e naquele momento ela se sentia como se um mastro tivesse desabado em sua cabeça. Bryne, ali? Impossível! É loucura! Claro que o homem não poderia tê-las seguido todo esse tempo para… Ah, sim, poderia e seguiria. Aquele ali seguiria. Enquanto viajavam, ela dissera a si mesma que se tratava apenas de cautela e sensatez não deixar rastros, que Elaida sabia que as duas não estavam mortas, independentemente dos boatos, e que não pararia de caçá-las até que fossem encontradas ou que ela fosse derrubada. Siuan ficara irritada de ter precisado pedir informações, ao fim, mas o pensamento que a devorara feito um tubarão não tinha sido o de que Elaida, de alguma forma, pudesse encontrar um ferreiro de uma pequena aldeia em Altara, mas sim de que tal ferreiro fosse como uma placa pintada para Bryne. Eu falei para você que era uma tolice, não falei? E agora aqui está ele.
Siuan se lembrava muito bem do confronto quando precisara dobrá-lo na questão envolvendo Murandy. Fora como dobrar uma barra espessa de ferro, ou alguma mola imensa que saltaria de volta se ela a soltasse por um instante. Precisara fazer uso de toda a sua força, tivera de humilhá-lo publicamente, para garantir que Bryne permanecesse curvado pelo tempo que fosse necessário. Ele não podia ir contra o que havia concordado em fazer de joelhos, suplicando o perdão dela, com cinquenta nobres assistindo a tudo. A própria Morgase já havia sido bem difícil, e Siuan não estivera disposta a arriscar que Bryne desse à rainha uma desculpa para desobedecer suas instruções. Estranho pensar que ela e Elaida haviam trabalhado juntas naquela ocasião, quando obrigaram Morgase a obedecê-las.
Precisava manter a compostura. Estava atordoada, pensando em tudo, menos no que tinha de pensar. Concentre-se. Não é hora de entrar em pânico.
— Vocês precisam expulsá-lo daqui. Ou matá-lo.
Soube que fora um erro enquanto as palavras ainda estavam saindo da boca, todas exalando urgência. Até os Guardiões olharam para ela, assim como as Aes Sedai… Nunca antes soubera qual era a sensação, para alguém desprovida do Poder, de ter aqueles olhos em si com força total. Sentiu-se nua, com a própria mente despida. Mesmo sabendo que Aes Sedai não eram capazes de ler pensamentos, ainda teve vontade de se confessar antes que aquelas mulheres listassem suas mentiras e crimes. Siuan torceu para que seu rosto não estivesse como o de Leane, com as bochechas vermelhas e os olhos arregalados.