— A maldita roupa suja do maldito Gareth Bryne — rosnou a outra mulher. — Como você também é uma das serviçais dele, pode lavá-las. Antes de qualquer coisa, eu preciso falar com Logain.
Min agarrou o braço dela quando Siuan tentou passar.
— Você pode gastar um minuto para me ouvir. Quando Bryne entrou, eu tive uma visão. Uma aura, e um touro arrancando rosas de em torno do próprio pescoço, e… Nada disso importa, só a aura. Não cheguei nem a entender isso completamente, mas entendi mais do que ao resto.
— O que você entendeu?
— Se quiser continuar viva, é melhor não sair de perto dele. — Apesar do calor, Min estremeceu. Só tivera uma única outra visão que apresentava um “se”, e ambas haviam sido potencialmente letais. Já era ruim o bastante às vezes saber o que ia acontecer. Se começasse a saber o que podia… — Isso é tudo que eu sei. Se ele ficar por perto, você vai sobreviver. Se ele se afastar demais, por muito tempo, você vai morrer. Vocês dois. Não sei por que vi algo a seu respeito na aura dele, mas você me pareceu parte dela.
O sorriso de Siuan teria conseguido descascar uma pera.
— Eu preferiria navegar em um navio de casco podre cheio de enguias pescadas um mês antes.
— Nunca pensei que ele fosse nos seguir. Elas vão mesmo nos obrigar a ir com ele?
— Ah, não, Min. Ele vai conduzir os nossos exércitos à vitória. E fazer da minha vida o Poço da Perdição! Então ele vai salvar a minha vida, é? Não sei se vale a pena. — Siuan respirou fundo e alisou as saias. — Quando você tiver lavado e passado o ferro nisso tudo, traga para mim. Eu levo lá para cima para ele. Pode limpar as botas dele antes de ir dormir, hoje à noite. Tem um quarto para nós, um cubículo, ao lado do dele, então vamos estar por perto caso Bryne queira alguém para afofar seus malditos travesseiros! — Antes que Min pudesse reclamar, Siuan já havia saído.
Ao baixar o olhar para as camisas amassadas, Min teve certeza de que sabia quem ficaria responsável por toda a roupa suja de Bryne, e não seria Siuan Sanche. Maldito Rand al’Thor. Apaixonar-se por um homem acabava obrigando as mulheres a cuidar de roupa suja, ainda que fossem de outro homem. Ao marchar até a cozinha para pedir água quente e um balde de lavar roupa, Min resmungava tanto quanto Siuan.
29
Lembranças de Saldaea
Estirado na cama, no escuro, só de camisa, Kadere brincava preguiçosamente com um lenço entre as mãos. As janelas abertas do carroção deixavam entrar o luar, mas não muito vento. Ao menos Cairhien era mais fresca que o Deserto. Algum dia, esperava voltar a Saldaea para caminhar no jardim onde sua irmã Teodora lhe ensinara as primeiras letras e números. Sentia tanta falta dela quanto de Saldaea, dos invernos rigorosos em que as árvores estouravam por causa da seiva congelada e a única maneira de viajar era com sapatos de neve ou esquis. Naquelas terras do sul, a primavera parecia o verão, e o verão parecia o Poço da Perdição. Ele estava empapado de suor.
Com um suspiro profundo, enfiou os dedos em uma fresta da cama embutida no carroção. O fragmento de pergaminho dobrado crepitou. Ele o deixou lá. Sabia a mensagem de cor:
Você não está sozinho entre estranhos. Um caminho já foi escolhido.
Só isso, e sem assinatura, claro. Encontrara o pergaminho enfiado por debaixo da porta ao se recolher, à noite. Havia uma cidadezinha a menos de um quarto de milha adiante, Eianrod, mas, mesmo que ainda houvesse uma cama macia vazia por lá, duvidava que os Aiel permitissem que ele passasse uma única noite longe dos carroções. Ou que a Aes Sedai permitisse. Naquele momento, seus planos se encaixavam bem com os de Moiraine. Talvez conseguisse voltar a ver Tar Valon. Um lugar perigoso para homens como ele, mas o trabalho lá sempre era importante — e revigorante.
Kadere tornou a se concentrar no bilhete, embora desejasse ser capaz de ignorá-lo. A palavra “escolhido” o fez ter certeza de que viera de outro Amigo das Trevas. A primeira surpresa fora recebê-lo àquela altura, após cruzar a maior parte de Cairhien. Cerca de dois meses antes, logo após Jasin Natael grudar em Rand al’Thor — por razões que o homem jamais se dignara a explicar — e sua nova parceira, Keille Shaogi, desaparecer — suspeitava que ela tivesse sido enterrada no Deserto com uma faca de Natael cravada no peito, e já ia tarde —, Kadere recebera a visita de um dos Escolhidos. Da própria Lanfear. Ela lhe dera instruções.
Levou a mão ao peito, em um gesto mecânico, e sentiu as cicatrizes através da camisa. Enxugou o rosto com o lenço. Parte de sua mente pensou com frieza, como fazia ao menos uma vez por dia desde então, que elas eram uma lembrança, uma prova concreta de que não havia sido um sonho comum. Um pesadelo comum. Outra parte quase balbuciava de alívio por Lanfear não ter retornado.
A segunda surpresa do bilhete fora a caligrafia. Uma caligrafia feminina, a menos que seu palpite estivesse muitíssimo errado, e algumas das letras escritas de um jeito que ele agora reconhecia como típico dos Aiel. Natael lhe dissera que devia haver Amigos das Trevas entre os Aiel — havia Amigos das Trevas em todas as terras, em meio a todos os povos —, mas ele nunca quisera encontrar irmãos no Deserto. Os Aiel podiam matar à primeira vista e se ofendiam com uma mera respiração.
Em linhas gerais, o bilhete prenunciava desastre. Possivelmente, Natael contara quem ele era para algum Aiel Amigo das Trevas. Rodopiando o lenço com raiva até transformá-lo em uma corda fina e comprida, Kadere o apertou com força entre as mãos. Se o menestrel e Keille não tivessem dado provas de que eram benquistos entre os Amigos das Trevas, ele teria matado os dois antes de chegar perto do Deserto. A única outra possibilidade fez seu estômago pesar. “Um caminho já foi escolhido.” Talvez aquilo só servisse para usar a palavra “escolhido”, e talvez a intenção tivesse sido informá-lo de que um dos Escolhidos decidira utilizá-lo. O bilhete não viera de Lanfear. Ela teria simplesmente conversado de novo com ele em seus sonhos.
Kadere tremeu, apesar do calor que o fizera tornar a enxugar o rosto. Tinha a sensação de que servir a Lanfear era ter uma senhora ciumenta, mas, caso algum outro dos Escolhidos o quisesse, não teria escolha. Apesar de todas as promessas recebidas quando ele fizera os juramentos, ainda garoto, Kadere era um homem de poucas ilusões. Apanhado entre dois Escolhidos, poderia ser esmagado feito um gatinho sob as rodas de um carroção, e causando tão pouca comoção quanto. Gostaria de estar em casa, em Saldaea. Gostaria tanto de ver Teodora de novo.
Um arranhão na porta fez Kadere se levantar. Apesar de todo o seu tamanho, era mais ágil do que permitia que os outros percebessem. Enxugou o rosto e o pescoço e passou pelo fogão de pedra — que, ali, não tinha nenhuma serventia — e pelos armários com portas verticais ornamentadas com entalhes e pinturas. Quando abriu a porta, uma figura esbelta enrolada em vestes negras entrou apressada. Kadere espiou rapidamente a escuridão iluminada pela lua para se certificar de que ninguém estava olhando — os condutores estavam roncando debaixo dos outros carroções, e os guardas Aiel nunca ficavam por perto — e fechou a porta depressa.
— Você deve estar com calor, Isendre. — Ele deu um risinho. — Tire o roupão e fique confortável.
— Não, obrigada — retrucou ela com amargura, a voz ecoando das profundezas sombreadas do capuz. Manteve-se de pé, bem ereta, mas, de vez em quando, estremecia. A lã devia estar pinicando mais que o normal, naquela noite.
Kadere tornou a rir.
— Como preferir.
Por baixo daquela roupa, suspeitava, as Donzelas da Lança ainda só permitiam que ela usasse as joias roubadas, se tanto. Isendre se tornara bastante recatada desde que as Donzelas a apanharam. Por que ela fora estúpida o suficiente para roubar, ele não entendia. Certamente não fizera nenhuma objeção quando as Donzelas a arrastaram do carroção pelo cabelo, aos gritos. Apenas ficou feliz por não terem pensado que ele estava envolvido. A ganância de Isendre decerto tornara a tarefa dele mais difícil.