Os incêndios haviam ocorrido em épocas diferentes — Rand chegara sozinho a essa conclusão, analisando o desgaste das madeiras enegrecidas e o cheiro de queimado que ainda se sentia em determinados locais —, mas Lan delineara o fluxo das batalhas que conquistaram e reconquistaram a cidade. Os conquistadores eram as diferentes Casas disputando o Trono do Sol, embora provavelmente, pelo aspecto das ruas, os últimos a dominar Eianrod tivessem sido bandidos. Boa parte dos bandos que vagavam por Cairhien não se mantinha leal a nada e a ninguém, exceto ao ouro.
Foi a uma das casas dos mercadores que Rand se dirigiu, na maior das duas praças da cidade. Eram três andares quadrados de mármore cinza, com varandas pesadas e degraus largos ladeados por espessos corrimãos de pedra que davam para uma fonte silenciosa, com a bacia redonda empoeirada. A oportunidade de voltar a dormir em uma cama tinha sido boa demais para deixar passar, e ele tivera esperanças de que Aviendha decidisse permanecer em uma tenda. Se na dele ou na das Sábias, não se importava, contanto que não precisasse tentar dormir ouvindo a respiração dela a poucas passadas de distância. Ultimamente, começara a imaginar que escutava o coração dela batendo mesmo quando não estava agarrando saidin. Mas, caso ela não ficasse longe, havia tomado algumas precauções.
As Donzelas pararam junto aos degraus, espalhando-se pelo prédio para guardá-lo de todas as direções. Rand temera que elas fossem tentar declarar aquele local como Teto das Donzelas, ainda que só por uma noite, então, assim que escolheu a casa, uma das poucas na cidade com o telhado inteiro e a maioria das janelas intacta, dissera a Sulin que estava declarando-a o Teto dos Irmãos do Fonte de Vinho. Só podia entrar ali quem já tivesse bebido do riacho Fonte de Vinho, em Campo de Emond. Pelo olhar que lançou a ele, Sulin sabia muito bem quais eram suas intenções, mas ninguém o acompanhou além das portas largas que mais pareciam estreitos painéis verticais.
Dentro, os amplos aposentos estavam vazios, apesar de alguns gai’shain de roupões brancos terem espalhado cobertores para si mesmos no espaçoso hall de entrada, cujo teto alto de gesso exibia um padrão de quadrados rigorosos. Manter os gai’shain lá fora estava além de sua capacidade, mesmo que Rand quisesse, assim como manter Moiraine, a não ser quando ela estava dormindo em outro local. Não importava a ordem que Rand desse quanto a não ser perturbado, ela sempre encontrava um jeito de fazer as Donzelas a deixarem entrar, e ele sempre tinha que mandá-la embora com todas as letras para que a mulher partisse.
Os gai’shain se levantaram suavemente, homens e mulheres, antes que Rand fechasse a porta. Não dormiriam até que ele dormisse, e alguns se revezariam acordados para o caso de ele querer algo no meio da noite. Tentara ordenar que não fizessem isso, mas dizer um gai’shain para não servir de acordo com os costumes era como chutar um fardo de lã: qualquer impacto causado desapareceria assim que o pé desencostasse. Rand os dispensou com um aceno e subiu os degraus de mármore. Alguns dos gai’shain haviam recuperado alguns móveis, incluindo uma cama e dois colchões de penas, e ele não via a hora de se lavar e…
Rand ficou paralisado assim que abriu a porta do quarto. Aviendha optara por não permanecer nas tendas. Ela estava de pé junto ao lavatório com uma pia quebrada e um cântaro que não combinavam, um pedaço de pano em uma das mãos e uma barra de sabão amarelo na outra. Estava sem roupa. Parecia tão estarrecida e incapaz de se mover quanto ele.
— Eu… — Ela parou para engolir, os grandes olhos verdes fixos no rosto dele. — Não consegui armar uma tenda de vapor aqui nesta… cidade, então pensei em tentar o seu jeito de… — Ela tinha músculos definidos e curvas suaves, e a umidade a fazia brilhar da cabeça aos pés. Rand jamais imaginara que suas pernas fossem tão compridas. — Achei que você ia ficar mais tempo na ponte. Eu… — Seu tom de voz ficou agudo, os olhos se arregalaram em pânico. — Eu não armei para você me ver assim! Preciso ficar longe de você! O mais longe que puder! Eu preciso!
De repente, uma linha vertical tremeluzente apareceu no ar perto dela. A linha se alargou, como se estivesse em rotação, e formou um portal. Um vento gelado soprou de lá e percorreu o quarto, trazendo espessas cortinas de neve.
— Preciso sair daqui! — gritou ela, saindo em disparada em direção à nevasca.
Imediatamente, o portão voltou a se estreitar, girando, mas, sem nem pensar, Rand canalizou e o bloqueou na metade da largura anterior. Não sabia o que havia feito, nem como, mas tinha certeza de que aquele era um portão para Viajar, tal como Asmodean lhe contara e fora incapaz de ensinar. Não havia tempo para pensar. Para onde quer que Aviendha tivesse ido, adentrara nua no coração de uma nevasca. Rand desamarrou os fluxos que tecera, já puxando todos os cobertores da cama para jogá-los por cima das roupas e do catre da garota. Pegou os lençóis, as roupas e os tapetes, tudo junto, e se lançou portão adentro poucos instantes depois de Aviendha.
O vento gelado uivava pelo ar noturno tomado por espirais brancas. Mesmo enrolado no Vazio, ele sentia o corpo tremendo. Conseguia identificar vagamente alguns vultos dispersos na escuridão. Árvores, pensou. Não sentia cheiro de nada, só o frio. À frente, uma forma se moveu, obscurecida pela escuridão e pela tempestade de neve. Não fosse a nitidez de sua visão no Vazio, talvez não a enxergasse. Aviendha estava correndo o máximo que podia. Ele se arrastou atrás dela, a neve batendo nos joelhos, segurando o embrulho compacto bem firme contra o peito.
— Aviendha! Pare! — Temeu que o vento uivante abafasse seu grito, mas ela o ouviu. O que apenas a fez correr mais ainda. Rand se forçou a acelerar, vacilando e tropeçando à medida que a neve cada vez mais profunda lhe pesava nas botas. As pegadas deixadas pelos pés descalços dela se preenchiam rapidamente. Se ele a perdesse de vista ali… — Pare, sua tola! Está tentando se matar? — O som de sua voz parecia impeli-la a correr mais rápido.
Sem arrefecer, Rand seguiu em frente, quase caindo e se esforçando para tornar a ficar de pé, empurrado tanto pelo vento que o açulava quanto pelos tropeços na neve e colisões com as árvores. Não podia tirar os olhos dela. Ficou agradecido por aquela floresta, ou o que quer que fosse aquilo, ter árvores tão espaçadas.
No Vazio, as ideias se sucediam rapidamente e logo eram descartadas. Poderia tentar domar a tempestade, e talvez, como resultado, o ar virasse gelo. Um abrigo de Ar para se proteger da neve que caía não ajudaria em nada contra a neve já sob seus pés. Com Fogo, poderia derreter um caminho para si mesmo e, em troca, tropeçar em meio à lama. A menos que…
Ele canalizou, e a neve logo adiante derreteu em uma faixa de uma braça de largura, uma faixa que ia correndo à frente conforme ele corria. O vapor subiu, e a neve que caía desaparecia a um pé do solo arenoso. Rand sentia o calor atravessando as botas. Afundado quase na altura dos tornozelos, seu corpo tremia com o frio de gelar os ossos. Os pés suavam e se contraíam no solo aquecido. Mas ele já a estava alcançando. Mais cinco minutos e…
De repente, a imagem vaga que ele vinha seguindo desapareceu, como se Aviendha tivesse caído em um buraco.