Começou a falar sobre que lugar era aquele onde estavam, para onde Aviendha os arrastara em sua fuga desenfreada e sem sentido. Algum lugar distante e estranho, para haver neve nesta época do ano. Fora mais que uma fuga sem sentido. Loucura. Ainda assim, sabia que ela fugira dele. Fugira dele. Devia mesmo odiá-lo para ter que fugir para o mais longe possível, em vez de apenas dizer para ele deixá-la tomar banho com privacidade.
— Eu devia ter batido na porta. — De seu próprio quarto? — Sei que você não quer ficar perto de mim. E não precisa. Não importa o que as Sábias queiram, o que digam, você vai voltar para as tendas delas. Não vai ter mais que ficar do meu lado. Na verdade, se você chegar perto, eu… eu vou mandar você embora. — Por que estava hesitando? Ela o tratava com raiva, frieza e amargura quando estava acordada. E dormindo… — Isso foi loucura. Você podia ter morrido. — Rand alisava o cabelo dela de novo. Parecia não conseguir parar. — Se aprontar metade disso outra vez, quebro seu pescoço. Faz ideia de quanto vou sentir falta de ouvir sua respiração à noite? — Falta? Ela era enlouquecedora! Rand já estava maluco. Precisava parar com aquilo. — Você vai embora e ponto final, mesmo que eu tenha que mandá-la de volta para Rhuidean. Se for uma ordem do Car’a’carn, as Sábias não podem impedir. Você não vai precisar fugir de mim outra vez.
A mão que ele não conseguia fazer com que parasse de alisar o cabelo de Aviendha ficou paralisada quando ela se mexeu. Ela estava quente, Rand percebeu. Muito quente. Devia enrolar um cobertor ao redor de si mesmo e se afastar. Ela abriu os olhos, claros e profundos, verdes, encarando-o com seriedade a menos de um pé de distância. Não parecia surpresa por vê-lo, e não se afastou.
Rand desentrelaçou os braços do corpo dela, começando a recuar, e Aviendha agarrou um punhado de seu cabelo em um aperto doloroso. Se ele se movesse, ficaria um pouco careca. Ela não lhe deu chance de explicar nada.
— Prometi para minha quase-irmã que vigiaria você. — Com voz baixa e neutra, parecia estar falando mais para si mesma do que para Rand. — Fugi de você o máximo que pude para proteger minha honra. E, mesmo aqui, você me seguiu. Os anéis não mentem, e eu não posso mais fugir. — Seu tom de voz se firmou de modo decisivo. — Não vou mais fugir.
Rand tentou perguntar o que aquilo significava enquanto se esforçava para soltar os dedos de Aviendha de seu cabelo, mas ela o agarrou de novo e puxou a boca de Rand para si. Foi o fim de seus pensamentos racionais. O Vazio se estilhaçou, e saidin escapou. Não achou que conseguiria interromper o beijo, mesmo que quisesse. E nem podia pensar em querer aquilo. Aviendha com certeza também não parecia desejar que ele quisesse. Na verdade, seu último pensamento coerente por um longo tempo foi que não haveria como fazer Aviendha parar.
Após um tempo considerável — duas horas, talvez três, Rand não tinha como ter certeza —, ele se pegou deitado nos tapetes com cobertores sobre o corpo, as mãos atrás da cabeça, observando Aviendha examinar as paredes brancas escorregadias. Os dois haviam retido uma quantidade surpreendente de calor, e não era mais necessário agarrar saidin nem para isolar o frio nem para tentar aquecer o ar. Aviendha não fizera mais do que pentear o cabelo com os dedos ao se levantar, e se movia sem a menor vergonha da nudez. Claro que já era um pouco tarde para sentir vergonha de algo tão pequeno quanto estar sem roupa. Rand se preocupara em não machucá-la ao arrastar Aviendha para fora da água, mas ela exibia menos arranhões que ele e, de algum modo, nenhum maculava minimamente sua beleza.
— O que é isso? — perguntou ela.
— Neve.
Ele explicou o que era neve da melhor maneira possível, mas ela apenas balançou a cabeça, meio admirada, meio descrente. Para alguém que crescera no Deserto, água congelada caindo do céu devia parecer tão impossível quanto voar. De acordo com os registros, a única vez que sequer chovera no Deserto tinha sido quando Rand gerara a chuva.
Ele não conteve um suspiro de pesar quando ela começou a passar a camisola pela cabeça.
— As Sábias podem nos casar assim que voltarmos. — Ele ainda sentia sua tessitura mantendo o portão de Aviendha aberto.
A cabeça vermelho-escura da mulher passou pela gola da camisola, e ela o encarou sem expressão. Não de modo hostil, mas também nada amigável. Determinada, no entanto.
— O que faz você pensar que um homem tem o direito de me pedir isso? Além do mais, você pertence a Elayne.
Ele só conseguiu fechar a boca após alguns instantes.
— Aviendha, nós acabamos de… Nós dois… Luz, nós temos que nos casar. Não que eu esteja fazendo isso por obrigação — acrescentou, mais do que depressa. — Eu quero. — Não tinha muita certeza disso, na verdade. Talvez amasse Aviendha, mas talvez também amasse Elayne. E, por algum motivo, Min continuava a perturbá-lo. Você é tão libertino quanto Mat. Mas, desta vez, podia fazer o que era certo só porque era certo.
Aviendha bufou para ele, examinou as meias só para se certificar de que estavam secas e se sentou para calçá-las.
— Egwene conversou comigo sobre os costumes de casamento de vocês, de Dois Rios.
— Você quer esperar um ano? — indagou ele, incrédulo.
— Um ano. Sim, era disso que eu estava falando. — Ele nunca reparara quanto uma mulher exibia da perna ao calçar meias. Estranho que aquilo pudesse parecer tão excitante depois de tê-la visto nua, suada e… Rand se concentrou em ouvi-la. — Egwene disse que pensou em pedir permissão à mãe dela para se casar com você, mas, antes que ela sequer mencionasse, a mãe disse que ela precisava esperar mais um ano, mesmo depois que já tivesse tranças no cabelo. — Aviendha franziu o rosto, um dos joelhos quase tocando o queixo. — Isso está certo? Ela disse que uma garota só pode fazer tranças no cabelo quando já tem idade para casar. Está me entendendo? Você parece aquele… peixe… que Moiraine pegou no rio. — Não havia peixes no Deserto. Os Aiel só os conheciam dos livros.
— Claro que estou — respondeu Rand. Entendera tanto quanto se fosse cego e surdo. Remexendo-se sob os cobertores, tentou parecer o mais confiante possível. — Pelo menos… Bem, costumes são complicados, e eu não tenho certeza de que parte você está falando.
Por um momento, Aviendha o encarou, desconfiada, mas os costumes Aiel eram tão intricados que ela acabou acreditando. Em Dois Rios, namorava-se por um ano, e, caso desse certo, vinha o noivado e, por fim, o casamento. Os costumes terminavam aí. Enquanto se vestia, ela continuou:
— Eu estou falando de a garota pedir permissão à mãe durante o ano, e para a Sabedoria também. Não posso dizer que entendo. — A blusa branca passando pela cabeça abafou momentaneamente suas palavras. — Se a mulher quer o homem e já tem idade para casar, por que deveria pedir permissão? Mas viu só? Pelos meus costumes — seu tom de voz sugeria que eram esses que importavam —, cabe a mim escolher se lhe peço ou não em casamento, e eu não vou fazer isso. Pelos seus costumes — apertando o cinto, ela balançou a cabeça com desdém —, eu não tinha a permissão da minha mãe. E você precisaria da permissão do seu pai, suponho. Ou do irmão do seu pai, já que seu pai está morto. Não temos nenhuma das duas coisas, então não podemos nos casar. — Aviendha começou a dobrar o cachecol para enrolá-lo em torno da testa.
— Entendi — respondeu ele, com voz fraca.
Qualquer garoto de Dois Rios que pedisse ao pai aquele tipo de permissão levaria uma sonora bofetada na orelha. Quando pensava nos rapazes que haviam suado e se preocupado que alguém, qualquer pessoa, descobrisse o que faziam com a garota com quem pretendiam se casar… Lembrava-se de quando Nynaeve flagrara Kimry Lewin e Bar Dowtry no depósito de feno do pai de Bar. Kimry usava trança havia cinco anos, mas quando Nynaeve terminou o sermão, a Senhora Lewin assumiu o comando. O Círculo das Mulheres quase arrancara o couro do pobre Bar, e aquilo não foi nada em comparação com o que fizeram com Kimry durante o mês que levou até que o casamento fosse organizado, tempo que elas pensaram ser a mínima espera decente a se fazer. A piada sussurrada, para que não chegasse ao Círculo das Mulheres, era de que nem Bar nem Kimry tiveram condições de se sentar durante toda a primeira semana depois do casamento. Rand supôs que Kimry não havia pedido permissão.